Brasil-EUA via África

Bruna Tiussu - O Estado de S.Paulo

Graças ao inglês básico, aprendido num curso pago pelo supermercado onde era caixa, Sandra das Neves, de 28 anos, conheceu os Estados Unidos em abril. Criada na Favela Santa Inês, zona leste de São Paulo, representou a Faculdade Zumbi dos Palmares na Xavier University of Louisiana, na visita que é parte do convênio das duas, voltadas para negros. "É outro mundo", diz a aluna de Administração Financeira. "Aqui, caminhamos como sobreviventes. O negro americano trabalha em qualquer área, é tão normal!" Este mês, a Zumbi recebeu a primeira comitiva da Xavier. A americana Cassandra Shepard, de 20, aluna de História, teve a mesma impressão de Sandra sobre as disparidades. "Nos dedicamos exclusivamente aos estudos e nos formamos com 23 anos, que é quando os alunos da Zumbi começam o curso. Eles têm de se virar para pagar a faculdade, nós temos suporte do Estado." Instituição particular criada em 2002, a Zumbi, situada na zona norte de São Paulo, é a primeira faculdade para negros do País. Tem 1.800 estudantes. Fundada em 1915, a Xavier, de Nova Orleans, tem 4.100 alunos e é só uma das 105 universidades americanas historicamente negras. Se hoje os EUA têm na presidência Barack Obama, um egresso de Columbia e Harvard, nos tempos da segregação, principalmente, instituições como a Xavier eram a única porta dos negros para o ensino superior. O reverendo Martin Luther King, Nobel da Paz, e o cineasta Spike Lee formaram-se em universidades com esse perfil. Apesar de o Brasil ser o país com maior população negra fora da África - 92 milhões de pessoas, incluindo pardos e mestiços, segundo o IBGE -, os negros consideram que as instituições de ensino superior não dão espaço suficiente para a questão racial. "Essa é uma das responsabilidades da Zumbi. Estamos instalando um Centro de Estudos Africanos nos moldes do da Xavier. Queremos construir um padrão curricular e administrativo adequado ao nosso público", diz o reitor José Vicente. "Só podemos falar em fim da discriminação quando o negro agir como ator social e não coadjuvante, como nos EUA. E o caminho é nos espelhar no sistema educacional deles." Hoje aberta a todo tipo de público, a Xavier ainda tem 70,3% de alunos afroamericanos. A parceria, que teve apoio do consulado dos EUA e da Associação Alumni, é a primeira fechada pela Xavier com outra instituição para negros. "A Zumbi é jovem e pode aprender muito com nossa experiência acumulada", diz a doutora em História Wendy Gaudin. Cassandra, Wendy e outra aluna, Morgan Valerie, visitaram São Paulo, Santos e Salvador. "Vimos o candomblé e fiquei pensando por que negros do meu país não têm algo assim. Os negros americanos são americanos", diz Wendy.