Brasil desenvolve novo remédio contra efeitos da doença de Chagas

Alexandre Gonçalves - O Estado de S.Paulo

Droga espera aprovação para ser testada em pacientes; feita a base de selênio, ela combate danos cardíacos

Há mais de dez anos não se realizam testes clínicos de um medicamento para doença de Chagas. O jejum pode ser quebrado por um remédio brasileiro a base do elemento químico selênio. O medicamento espera aprovação governamental para ser testado em pacientes com cardiopatias causadas pelo parasita. A doença é responsável por boa parte das filas para colocação de marcapasso e transplante cardíaco no País.A ideia do remédio surgiu em 1996. A médica Tania Araújo-Jorge, diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), conversava com amigos em uma mesa de bar de Mons, cidade belga a 30 minutos de Bruxelas. Dois pesquisadores, Jean Vanderpas e Maria Teresa Rivera, descreviam como a deficiência de selênio causa uma doença cardíaca grave na China, conhecida como doença de Keshan.Tania sugeriu a hipótese da deficiência do elemento acompanhar também as doenças do coração dos pacientes chagásicos. Com a ajuda da pesquisadora Andréa Pereira de Souza, a suspeita foi comprovada.Em testes in vitro e com animais, Tania verificou depois o efeito benéfico da suplementação da substância. Nos ensaios com seres humanos, a cientista espera reduzir em 50% as taxas de evolução da cardiopatia.Ela sabe que as propriedades antioxidantes do selênio são responsáveis pela melhora, mas ainda quer descobrir quais processos bioquímicos levam à deficiência da substância e como a suplementação reverte a evolução da doença.O selênio não tem ação tripanocida, ou seja, o protozoário Trypanosoma cruzi, causador da doença, permanece vivo na presença da substância. O elemento químico, porém, atua diminuindo os danos cardíacos causados pelo microrganismo.O medicamento que será utilizado nos testes foi produzido por Bio-Manguinhos, laboratório público ligado à Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O lote espera aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). "Preferimos desenvolver aqui o medicamento ao invés de importar", explica Tania. "Se passar nos testes, já temos toda a tecnologia para produzir e distribuir no Sistema Único de Saúde (SUS)."NEGLIGENCIADAO tratamento padrão para doença de Chagas no Brasil é o benzonidazol, eficaz na fase aguda - primeiras semanas, quando há grande quantidade de parasitas no sangue -, mas pouco expressivo na fase crônica. Nos Estados Unidos, o nifurtimox também é utilizado.Os dois medicamentos são da década de 60 e apresentam efeitos adversos que tornam desaconselhável seu uso por longos períodos. Menos de uma dezena de testes clínicos avaliou outros remédios com ação tripanocida nos últimos 50 anos."Falta dinheiro", sentencia Maria de Nazaré Correia Soeiro, do departamento de Ultra-Estrutura e Biologia Celular do IOC. "A doença de Chagas afeta uma população muito pobre. Não há interesse econômico na pesquisa", complementa ela.Nazaré testa tripanocidas sintetizados pelos pesquisadores americanos David Boykin, da Universidade do Estado da Geórgia, e Richard Tidwell, da Universidade da Carolina do Norte. Ela está animada com os compostos da classe aril-inidamida, produzidos por Boykin. "São seletivos e apresentam ótimos resultados contra o Trypanosoma cruzi", aponta Nazaré. Ela, porém, considera que serão necessários vários anos para testar as substâncias em seres humanos. "O tempo também depende de quanto será investido", afirma ela.Um relatório divulgado em fevereiro pelo Instituto George para Saúde Internacional, a pedido da Fundação Bill e Melinda Gates, apontou que, em 2007, R$ 5,6 bilhões foram gastos com doenças negligenciadas no mundo. Chagas consumiu apenas 0,4% dos recursos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que, na América Latina, há entre 12 e 14 milhões de pessoas infectadas.Cerca de cinco mil brasileiros morrem por ano com complicações causadas pela doença. O número é similar ao dos que morrem por tuberculose e dez vezes superior às mortes por esquistossomose, malária, hanseníase ou leishmaniose.