Bispo questiona explicação de veto jurídico

José Maria Mayrink - O Estado de S.Paulo

?O que ocorreu foi que o artigo sobre CEBs desapareceu da noite para o dia?, diz d. Demétrio

O bispo de Jales (SP), d. Demétrio Valentini, um dos delegados brasileiros na 5ª Conferência-Geral do Episcopado da América Latina e do Caribe, estranha a explicação de que consultores jurídicos do Vaticano tenham vetado a inclusão no Documento de Aparecida de um artigo sobre as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) pelo fato de o texto ter sido rejeitado em votação anterior. "Nenhum texto foi rejeitado antes. O que ocorreu foi a omissão, na quarta redação (versão final), do artigo sobre as CEBs que constava da terceira redação e desapareceu da noite para o dia, alegadamente por um erro de digitação no computador", disse d. Demétrio. O bispo boliviano d. Sérgio Gualberti, de Santa Cruz de la Sierra, coletou então dez assinaturas de presidentes de conferências episcopais para que a questão fosse votada em destaque na última sessão, em 31 de maio. Embora a votação não tenha alcançado os dois terços dos votos necessários - houve 70 votos a favor do artigo sobre as CEBs e 37 contra -, a coordenação da conferência entendeu que o texto deveria ser mantido porque a omissão se deveu a "um erro de digitação", conforme alegou o perito argentino Carlos Maria Galli. As alterações foram feitas posteriormente pelo Conselho Episcopal Latino-Americano (Celam), antes da entrega do documento ao papa Bento XVI, em 11 de junho. "Como essa questão continua nebulosa, mantenho a minha posição de que temos a obrigação moral de publicar o texto original votado pelos bispos, apontando os cortes e acréscimos feitos antes da entrega do documento ao papa", insistiu d. Demétrio. A CNBB informou que não tem conhecimento da interferência de consultores jurídicos do Vaticano na redação do Documento de Aparecida. A única informação que a entidade tem é um comunicado à imprensa que o bispo de Reconquista, na Argentina, d. Andrés Stanovnik, na época secretário-geral do Celam e da 5ª Conferência, distribuiu em 27 de agosto. Segundo o comunicado, o texto aprovado em 31 de maio "foi entregue ao Celam para uma revisão final que consistiu em: corrigir falhas de digitação; erros gramaticais, de ortografia e pontuação; melhorar o estilo e ordenar vários parágrafos que estavam fora de lugar (...); corrigir erros nas citações ao pé de página e melhorar a redação confusa de algum número (item)". Stanovnik garante que tudo "se realizou em comunicação permanente com a Santa Sé" e que "não houve alterações de conteúdo". REVISÃO COLETIVA Mais uma informação do então secretário-geral do Celam: "O Documento Conclusivo, após sua revisão final, foi entregue ao Santo Padre no dia 11 de junho, em Roma. Ali, o texto foi distribuído aos diversos organismos da Santa Sé, que colaboram com o papa. Esses, por sua vez, encaminharam propostas ao Santo Padre sobre diversos números do documento". Stanovnik informa que o Documento Conclusivo que Bento XVI autorizou publicar "contém variações sugeridas por seus consultores", mas afirma que, "mesmo com os matizes que essas variações introduziram em alguns números do documento, não se pode afirmar que tenham modificado substancialmente o texto aprovado pela assembléia".