Bento XVI e o processo de canonização de Pio XII

Gilles Lapouge - O Estado de S.Paulo

O papa Bento XVI pensou duas vezes e desacelerou o processo de canonização de um de seus antecessores, Pio XII (cardeal Eugenio Pacelli), o papa da Segunda Guerra Mundial que foi censurado por não ter se empenhado na defesa dos judeus ameaçados pelo nazismo.Estava tudo pronto: o Conselho da Congregação para a Causa dos Santos, conhecido popularmente como a "fábrica dos santos", havia encerrado a fase de documentação. Após consultar o dossiê sistematizado por dois jesuítas e uma comissão histórica, o conselho havia outorgado "virtudes heróicas" a Pio XII, rótulo de prestígio que abre caminho à beatificação.Ora, Bento XVI não acompanhou o Conselho da Congregação. Pio XII não fará parte da próxima lista de promoção de santos. Deve-se inferir daí que Pio XII foi reprovado? Não exatamente. Mas, Bento XVI refletiu. Ele chegou a pedir aos prelados especialistas em santidade para fazer um trabalho de "profissionalismo irrepreensível". Bento XVI é homem circunspecto. Ele não anda no mesmo passo de hussardo que seu antecessor, o papa polonês João Paulo II. Esse último era um impulsivo. Adorava canonizar. Durante seu reinado, ganhamos 483 santos e 1.342 beatos.Mas, como os processos do tempo de João Paulo II eram um pouco apressados, aconteceu que nessa corte de novos santos se infiltraram algumas pessoas mal preparadas para a função. Um exemplo célebre: pouco antes de sua morte, João Paulo II havia previsto a beatificação de um padre francês do século 19, um certo Léon Dehon, que era, na realidade, anti-semita apaixonado. Com a morte de João Paulo II, Bento XVI chegou justo em tempo de sustar o processo.Essas virtudes de paciência, Bento XVI as manifesta de novo, e com força, no caso do papa Pio XII. Este é repetidamente acusado pelos inimigos da Igreja e também por historiadores rigorosos de não ter feito grandes esforços para proteger judeus europeus do furor hitlerista. No entanto, segundo esses historiadores, o Vaticano era, junto com Berlim, o lugar do mundo onde se estava mais bem informado sobre as infâmias das câmaras de gás. Pio XII, porém, se calou.ROTAS DOS CONVENTOSEm seu belo livro O nazismo na América do Sul, Sérgio Corrêa da Costa evoca as "rotas dos conventos" que, após a morte de Hitler, permitiram que criminosos nazistas, "colaboradores" franceses e os terríveis "ustachis" (os fascistas croatas) fugissem da cidadela em fogo da Alemanha para a América Latina, para Argentina, Bolívia e até Brasil. Corrêa não cita nominalmente o papa Pio XII, mas não esconde a cumplicidade do Vaticano.As hesitações de Bento XVI comportam também uma pesada cortina diplomática. O Vaticano estaria muito interessado em pacificar suas relações com o Estado de Israel. Ora, Israel, claro, é muito preocupado com todos os problemas ligados ao Holocausto, esse crime absoluto. Neste momento, as relações entre Roma e Jerusalém estão mal paradas. A beatificação de um papa como Pio XII não teria melhorado essa situação. * Gilles Lapouge é correspondente em Paris