Barulho perigoso

Denise Berto - O Estado de S.Paulo

Roncar sinaliza uma obstrução nas vias respiratórias, o que pode ser de grave intensidade

Encarado por muitos como algo sem importância e até motivo de gozações e brincadeiras, o ronco é, na verdade, segundo os médicos, um alerta do organismo de que algo não está bem. De acordo com o otorrinolaringologista Alexandre Hamam, recentes pesquisas mostraram que cerca de 45% dos adultos roncam, pelo menos ocasionalmente, e 25% são roncadores habituais. Estes estudos constataram que o ronco é mais freqüente entre homens, em pessoas acima do peso recomendável (sobrepeso e obesidade) e acima dos 45 anos. O ruído acontece, segundo o médico, quando o fluxo de ar encontra uma obstrução ao passar por detrás da boca e do nariz. Esta é a parte colapsável da via respiratória, onde a língua e a garganta (faringe) se encontram com o céu da boca (palato) e a úvula (campainha). Quando estas estruturas vibram durante a respiração, produz-se o ronco.O doutor Hamam destaca que os roncadores apresentam pelo menos um dos seguintes problemas: baixo tônus muscular (falta de tensão, relaxamento) nos músculos da boca e garganta; excesso de tecidos moles na garganta; tamanho excessivo do palato mole e/ou da úvula, e obstrução nasal. No seu entender, roncar é um problema sério, do ponto de vista social e médico. No primeiro caso, o roncador é motivo de chacota, além de atrapalhar o sono dos que compartilham o ambiente com ele e até lhes provocar ressentimento. No segundo, o ronco perturba os padrões de sono, abreviando o descanso necessário. Além disso, pode causar problemas de saúde a longo prazo, como hipertensão arterial, impotência sexual, insuficiência cardíaca; e perturbações da memória, atenção, concentração e capacidade de trabalho, provocando acidentes, sonolência e irritabilidade.RONCADORASEmbora a incidência do ronco ocorra mais entre os homens, o número de mulheres que apresentam este problema vem crescendo substancialmente, afirma o pneumologista do Laboratório do Sono da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e do hospital Sírio Libanês, Maurício Bagnato. Segundo um estudo feito por ele em 1995, antes dos 40 anos, 26% dos homens e 9% das mulheres roncam. Depois dessa idade, porém, não se sabe se por influência da menopausa ou do aumento do peso corpóreo, o índice de mulheres quase triplica e passa para 26%, não muito distante do de homens, que atinge os 36%. Alguns fatores contribuem para aumentar a incidência do ronco, diz o médico. O álcool, por exemplo, tem a propriedade de relaxar o músculo da faringe. Medicamentos à base de diazepínicos também relaxam a musculatura. A obesidade é outro agravante, afirma o pneumologista. Infelizmente, essa região onde podem concentrar-se vários problemas (relaxamento da musculatura, amídalas grandes, recuo da base da língua agravado pela posição do queixo, respiração bucal) também é passível de infiltração gordurosa, que aumenta a obstrução da faringe. "A natureza não preparou o ser humano para ser obeso. O excesso de peso interfere negativamente sobre o ronco."Além desses fatores, o refluxo gastroesofágico, que ocorre mais facilmente à noite, e o tabagismo podem irritar a faringe, provocando inchaço e, conseqüentemente, incitando o ronco, ressalta o doutor Bagnato.TRATAMENTOO otorrinolaringologista Alexandre Hamam lembra que o roncador leve ou ocasional deve adotar um estilo de vida esportivo e realizar exercícios diários para tonificar os músculos e baixar o peso; evitar os tranqüilizantes, pílulas e anti-histamínicos antes de ir para a cama, assim como bebidas alcoólicas por cerca de quatro horas e comidas pesadas por três horas antes de dormir; não ir para a cama tarde; programar melhor suas atividades de trabalho para evitar sobrecarga e cansaço, e dormir de lado, e não de costas.Já aqueles que roncam diariamente ou em qualquer posição devem fazer uma consulta médica para se assegurar de que não têm apnéia obstrutiva do sono. Um estudo em laboratório de sono (polissonografia) poderá ser necessário para detectar a severidade do ronco e suas conseqüências para a saúde. O tratamento depende de um diagnóstico feito com precisão. Um exame em consultório pode revelar se o ronco se deve a uma deformidade do septo nasal, das amídalas ou das adenóides, ou se é causado por algum tumor nesta região. O paciente pode ter um bom resultado com cirurgia bem indicada, mas, em alguns casos, não é possível realizá-la ou o risco é muito alto em função de outros problemas. Nessas situações, o paciente poderá se adaptar a uma máscara nasal, que introduz ar sob pressão na garganta, sistema chamado CPAP (Continuous Positive Airway Pressure). No caso de crianças, o médico diz que pode ser necessário remover as amídalas e as adenóides para restaurar a respiração completa. Dependendo da idade da criança, o quadro pode ser mais grave, podendo levar à parada respiratória noturna, seqüelas no crescimento, deformidades faciais, dentárias, musculares, distúrbios de deglutição, entre outros. O pneumologista Maurício Bagnato destaca que dormir de lado é sempre melhor. Ensinar o paciente a deitar-se desta maneira é, segundo ele, o tratamento mais simples e barato que existe. "Basta costurar um bolso nas costas de uma camiseta velha no qual caiba uma bolinha de tênis, que não seja muito dura e, portanto, não machuque, mas provoque desconforto suficiente para que o paciente não deite de costas. Os obesos precisam de uma bolinha maior. Essa medida serve para solucionar casos em que a apnéia ocorre só com a pessoa em decúbito dorsal. Por isso, não pode ser usada indiscriminadamente, porque não é solução para todos os casos."O pneumologista salienta que o tratamento desse problema é um assunto polêmico. O diagnóstico é multidisciplinar, demanda a intervenção de vários profissionais, como otorrinos, neurologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço. Às vezes, é preciso remover amídalas e adenóides ou fazer cirurgia para harmonizar a face. Nem todos os pacientes são pneumopatas, que exigem a intervenção de um pneumologista."No serviço do sono ligado ao Departamento de Pneumologia e Psicobiologia da Escola Paulista de Medicina, que já existe há 12 anos, não aconselhamos, como muitos o fazem, a cirurgia de corte da campainha, um pedacinho pendente que faz parte do palato mole (céu da boca), pois pode ocasionar fibrose. Muitas vezes, o paciente melhora não porque removeu a campainha, mas porque tirou as amídalas na mesma cirurgia." Bagnato acredita que o melhor tratamento para apnéia severa é o CPAP nasal.Para apnéias leves, ele recomenda uma prótese intra-oral, aparelhinho móvel que se coloca à noite para dormir. O bom aparelho deve manter a boca fechada e a base da língua projetada um pouco para frente, e deve favorecer a mobilidade lateral, para não forçar a ATM (articulação temporomandibular). Por isso, um dentista com experiência no assunto deve avaliar se não existe contra-indicação e se a arcada dentária suporta o uso do aparelho, ressalta o médico.SONO TRANQÜILO Para o empresário Edson Rico, de 41 anos, dono das padarias Santa Etienne, localizadas nos bairros Jardins e Vila Madalena, em São Paulo, a conquista de um sono tranqüilo, sem sobressaltos, foi árdua e demorada. Ele conta que de cinco anos para cá, apesar de dormir sete ou oito horas por dia, acordava exausto, estava sempre irritado e de mau humor no dia seguinte. Foi sua namorada quem o alertou sobre os barulhos estranhos que fazia durante a noite. "Ela me disse que acordava assustada, porque eu parecia engasgar durante o sono." Rico procurou um médico, fez o exame no laboratório do sono e ficou constatado que sua apnéia era grave. Em cinco horas de sono, teve 139 paradas respiratórias: a menor de 20 segundos e a maior de 1 minuto e 40 segundos. Foi recomendado o uso do aparelho CPAP. Mas ele achou aquilo horrível. "Tive preconceito mesmo. Imagine eu, com minha namorada, que é bem jovem, usando aquilo! Não quis mesmo, preferi me submeter à cirurgia", lembra. Hoje, quatro meses após a intervenção, diz que é outro homem. Dorme bem, acorda disposto, enfim, sua vida mudou.Já o empresário de moto-peças e náutica Antonio Bernardo de Mendonça, de 66 anos, está muito feliz com seu aparelho CPAP. "Quando viajo, é o primeiro item a ser colocado na mala. Não vivo sem ele. Por meio desse aparelhinho, consegui noites de sono regeneradoras e dias seguintes maravilhosos", destaca.O engenheiro químico Alberto (que prefere omitir seu sobrenome), de 59 anos, concorda. Ele usa o CPAP há nove anos e diz que este é seu kit de sobrevivência. Antes dele, dormia tão mal que em qualquer reunião de trabalho acabava cochilando. Mal conseguia ler um livro, tamanha a exaustão. "Depois que comecei a usá-lo, tudo mudou. A verdade é que eu estava vivendo em preto e branco. Hoje, vivo em cores", sintetiza.