Assembleia 24 horas na USP

Elida Oliveira - O Estado de S.Paulo

Greve causou polarização na universidade, com a internet servindo como espaço de debate e de mobilização

No mundo real, os que mais apareceram foram alunos que aderiram à greve iniciada em 5 de maio na Universidade de São Paulo. Maioria nas assembleias, eles até fecharam vias do câmpus em 9 de junho, após confronto com a Polícia Militar. No mundo virtual, o debate 24 horas mostrou como nunca a polarização na USP. Pela web, alunos convocaram protestos relâmpagos contra a paralisação, as flash mobs, e até fizeram uma inédita pesquisa sobre o apoio/rejeição ao movimento. Em 2009, a greve é 2.0. A "greve da greve" também.Essa mobilização virtual desmente a tese - derivada da baixa participação em assembleias - de que os alunos são omissos quantos aos rumos da USP. Já se discute na universidade meios de institucionalizar a internet como espaço de consulta e tomada de decisões. A sugestão não partiu da geração do Orkut e do Facebook, mas do diretor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Silvio Sawaya (veja texto na pág. 18).Egle Spina, de 20 anos, aluna de Música da Escola de Comunicação e Artes (ECA), encontrou no mundo do Orkut, twitter e MSN pessoas que, como ela, tinham reservas em relação à greve. Nasceu assim o Comitê em Defesa dos Interesses dos Estudantes, CDIE. "Buscamos espaço para mostrar posições diferentes. Começou pela web, mas hoje nos reunimos presencialmente."Do outro lado da trincheira, a web também é vista como aliada. "A internet é fundamental para divulgar a greve", diz João Paulo de Cária Silva, de 23, diretor do Centro Acadêmico de Letras. Ele recebe cerca de 40 e-mails por dia com dados e opiniões sobre a greve. Acessa fóruns de discussão pela lista de e-mails dos centros acadêmicos e do Diretório Central dos Estudantes, e também em grupos no Gmail e no Yahoo. Em 27 boletins e panfletos recolhidos pela reportagem após a entrada da PM no câmpus, havia 13 indicações de sites ou e-mails aos quais alunos podiam recorrer para reforçar a mobilização."Os favoráveis à greve preferem usar sites para divulgar pautas", diz a aluna de Geofísica Liz Barreto, de 21. Para Liz, porém, esses estudantes são minoria em outros espaços virtuais, nos quais ficam na defensiva. "No Orkut, se limitam a responder a provocações."O clima no Orkut esquentou depois que duas flash mobs terminaram em empurra-empurra e troca de ofensas entre estudantes no dia 19. "Não sou favorável a manifestações públicas do tipo passeatas. Existem meios mais eficazes e mais inovadores de expressar posicionamentos, como, por exemplo, da forma com que está sendo feita na internet", disse um aluno num post. "Se ?minorias radicais? conduzem o processo, cabe perguntar onde estão as maiorias moderadas. Deveriam estar presentes nas assembleias (e piquetes) que decidem mobilizações em nome de todos", argumentou outro estudante.Nos fóruns de discussão, uma das questões mais presentes é a da representatividade em assembleias. João Garrido Júnior, de 26, aluno da Faculdade de Economia e Administração (FEA), considera essa forma de consulta ultrapassada. "Não há quórum mínimo nem como conferir se quem estava lá é aluno."Uma estudante de Artes Cênicas da ECA, que não quis ser identificada, rebate o argumento. "A assembleia é um instrumento descrito em estatutos de DCEs do Brasil inteiro. Toda forma de discussão é válida, mas é preciso votar."Anderson Siqueira, de 24, aluno de Sistema da Informação da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP Leste também considera o voto importante. Usando softwares livres, decidiu consultar colegas sobre a greve. Em menos de um mês, quase 8 mil deles opinaram: cerca de 80% rejeitaram o movimento. "A internet facilita a aproximação das pessoas e registra opiniões."Siqueira exigiu que o "eleitor" digitasse o número de identificação da USP e usasse o e-mail da universidade. A confirmação da identidade por e-mail foi possível graças a uma brecha no sistema de informática, percebida pelo aluno de Música da ECA Danilo Bellini, de 23, pós-graduando em Ciência da Computação. "No site da USP é possível colocar esse número e conferir o nome usado no e-mail."Assim, com um espírito meio hacker, Anderson e Danilo montaram a consulta de opinião online mais abrangente da história da USP.