''As pessoas esquecem a relação entre corpo e intelecto''

Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Ivaldo Bertazzo: bailarino e coreógrafo; com 35 anos de atuação, Bertazzo quer ensinar professores a superar bloqueios posturais dos alunos ao aprendizado

Acostumado a trabalhar com jovens em seus projetos sociais de dança, o bailarino e coreógrafo Ivaldo Bertazzo já observou que a falta de postura, a respiração errada e os movimentos descoordenados dos adolescentes são mais do que falta de consciência corporal ou desrespeito com o professor durante a sala de aula: são também empecilhos para um bom aprendizado. "Há mais de 35 anos me dedico a fazer a ponte entre a estrutura psicomotora do ser humano e o seu campo emocional e afetivo", explica ele, que pretende ensinar professores a identificar bloqueios e preparar os estudantes para que tenham condições favoráveis à concentração e atenção. "O professor precisa ter condições de identificar se há algum bloqueio que dificulta o aprendizado. E se a origem é mecânica ou emocional", completa ele, que realizou um workshop sobre o tema para cerca de 300 educadores de escolas públicas e particulares de São Paulo. Qual a relação entre trabalho corporal e aprendizado? O professor bem preparado pode observar quais condições o corpo do estudante tem para absorver os conteúdos ensinados, favorecendo o aprendizado. Numa época de avanço da tecnologia e mesmo do uso dessa tecnologia em todos os ambientes, ninguém imagina que a hiperatividade do aluno que não para de se mexer na cadeira está relacionada com índices de insatisfação corporal muito grandes. As pessoas esquecem a relação intrínseca entre o corpo físico e o intelecto. O que isso quer dizer? Por exemplo, o jovem largado na cadeira, sentado todo torto, tem um encurtamento na bacia. Ele não senta em cima dos ossos da bacia, como deveria. Com isso, ele não tem verticalidade, a coluna fica torta. Há um bloqueio cervical, na altura da nuca, ocorre uma quebra, que favorece uma corcunda. O corpo fica deitado, e só a cabeça se movimenta para acompanhar a lousa e o professor. Com isso, o maxilar recua e a respiração acaba acontecendo pela boca. Esse jovem fica incomodado com o corpo e não se concentra. Respira mal e não consegue articular um discurso, uma apresentação. Fala aos trancos. Isso provoca um stress cognitivo, ele entende o que está ouvindo, mas não está em condições de compreender, nem de assimilar. Como o professor e a escola podem prevenir esses problemas? Antigamente existia o canto orfeônico, que era ótimo para organizar a respiração, para dar movimento e consciência corporal. A flauta também é ótima. Para você conseguir assoprar, a coluna precisa estar reta. Ela organiza o corpo. Hoje, você exige que o aluno fique uma manhã ou uma tarde inteira sem se movimentar. Os estudantes, privados desse tipo de estímulo, não conseguem essa organização. Malham o corpo, não usufruem das possibilidades dele e no futuro vão procurar a meditação budista para ver se conseguem ter conforto com o próprio corpo. Mas o que a escola pode fazer? Coisas simples fazem muita diferença. Um intervalo a cada 50 minutos, para o aluno levantar, bater os pés, girar o tronco, dar palmadas com as mãos no peito, nas coxas, estimulando a circulação, estimulando os músculos, corrigindo a respiração. Quando ele faz isso, consegue voltar e se concentrar novamente, sem ficar dormindo todo jogado na cadeira. Propor isso não é modificar o ensino formal nem fazer com que o professor vire um terapeuta corporal. É apenas perceber a desorganização do corpo dos alunos e fazer exercícios com eles que os ajudem. Outro exemplo: você vê aquele aluno que para escrever se encolhe todo, abaixa a cabeça, faz uma força enorme. Isso acontece porque ele não consegue fazer o movimento rotatório do ombro corretamente, o movimento que ele faz é curto demais. Antigamente, se ensinavam as primeiras letras no chão, na terra, na areia, para o aluno poder libertar esse movimento do braço. Isso está também relacionado com essa separação de corpo e intelecto? Esquecemos de tratar bem do corpo e de prestar atenção nele. A coluna, depois de tanto tempo curvada, se encurta e a pessoa não consegue mais usufruir da altura que ela realmente tem. Anda encolhida. A pessoa não coloca os pés corretamente no chão. Não tem equilíbrio. E não percebe o quanto isso interfere em tudo o que ela faz. E nas condições dela para receber informação, para processar, para pensar. Perceba como o jovem hoje parece um ventilador. Sem conseguir se fixar em nada, olhando para os lados o tempo todo. Isso é desconforto corporal, é não saber se posicionar, não sabe nem ficar em pé com o corpo que ele tem. Quem é: Ivaldo Bertazzo Começou a dançar aos 16 anos. Teve aulas com Tatiana Leskova, Paula Martins, Renée Gumiel, Ruth Rachou, Klauss Vianna e Marika Gidali Aliou à dança a fisioterapia, com o estudo do funcionamento do aparelho locomotor e da biomecânica humana desenvolvido pelas pesquisadoras Marie Madeleine Béziers e Suzanne Piret, na França, e Godelieve Denys Struyf, na Bélgica