As pernas de Oscar Pistorius

Fernando Reinach* - O Estado de S.Paulo

Mesmo sem as duas pernas, Oscar Pistorius solicitou permissão para competir nas próximas Olimpíadas, em Pequim. A razão é simples. Após ter vencido os 100 metros rasos nas paraolimpíadas de 2005, com tempos próximos aos recordes olímpicos mundiais - 10,91 segundos ante o recorde olímpico de 9,85 -, ele competiu com atletas "normais" em Roma, em julho. Obteve o segundo lugar nos 400 metros rasos, com 46,90 segundos, 0,18 segundo atrás do primeiro colocado (assista ao vídeo em http://www.youtube.com/watch?v=1so1ZMgpg2w) . Na semana passada, o International Association of Athletics Federations (entidade internacional de atletismo) negou a Pistorius o direito de competir em Pequim. A entidade concluiu que as pernas de Pistorius são "melhores" que as dos atletas "normais". A conclusão ressuscita uma questão discutida pelos naturalistas no século 19, deslumbrados com a aparente perfeição dos seres vivos. Como são produzidos seres vivos, ou pernas, tão perfeitos? Para os criacionistas foi Deus, que, perfeito, criou os seres vivos à sua imagem e semelhança. Para os evolucionistas, foi a evolução darwiniana, que teve milhões de anos para testar e selecionar os genes responsáveis pelo funcionamento de nossas pernas. Mas, para o IAAF, parece que a perna mais que perfeita foi criada pela tecnologia, mais especificamente por uma empresa da Islândia chamada Ossur (www.ossur.com).Oscar Pistorius nasceu sem as fíbulas. Suas pernas foram amputadas abaixo do joelho quando tinha 11 meses. Apesar de ter praticado diversos esportes na infância, só começou a correr em 2004. Enquanto os atletas "normais" trocam seus calçados por sapatilhas, ele troca suas pernas artificiais pelas famosas Cheetahs, duas lâminas de fibra de carbono em forma de L, da largura de um pé. A flexibilidades das lâminas substitui o tendão de Aquiles e os músculos da panturrilha. Ao corrermos, o tendão e os músculos funcionam como uma mola que se estende quando o pé toca o solo. Eles ajudam a nos impulsionar quando se encurtam ao final da passada.A decisão do IAAF baseou-se em um estudo feito por Peter Brüggemann, da Universidade de Colônia, na Alemanha. Após medir a energia gasta por Pistorius e outros corredores, Brüggemann concluiu que ele necessita de 25% menos energia para percorrer a mesma distância. Isso se deve ao fato de suas pernas serem capazes de devolver ao corpo três vezes mais energia que as pernas de uma pessoa normal. Com base nesses resultados, o IAAF concluiu que a perna artificial confere a Pistorius uma vantagem sobre os outros atletas.E por que não possuímos todos pernas de fibra de carbono? Para os darwinistas, a resposta é simples. Como cada estrutura do corpo deriva obrigatoriamente de estruturas presentes em nossos ancestrais, e como nenhum ser vivo foi capaz de desenvolver uma rota metabólica para a síntese de fibra de carbono, é fácil explicar por que pernas de fibra não são encontradas nos seres vivos. O processo de seleção natural, como não é dirigido, não resulta obrigatoriamente na melhor estrutura. Já os modernos defensores do criacionismo dizem acreditar na evolução, mas postulam a existência de uma força inteligente que dirige a evolução em direção à perfeição. Se essa força existe e é inteligente, por que não "pensou" em utilizar fibra de carbono para construir nossas pernas? *Biólogo - fernando@reinach.com