As musas de Lamazou

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

O artista Titouan Lamazou apresenta na Oca sua expedição em busca do retrato da mulher contemporânea

A partir do dia 11, o pavilhão popularmente conhecido como Oca, no Parque do Ibirapuera, será tomado por mulheres de todos os países, sotaques, profissões. São as musas contemporâneas do artista marroquino radicado na França, Titouan Lamazou - que apresenta sua exposição, Mulheres do Planeta, até 11 de julho. Haverá cerca de 2 mil pinturas, mais filmes, aquarelas, fotos e textos, além de espaços para o público descansar e assistir a shows.

Atleta e campeão de vela, Lamazou ficou impressionado quando, em uma viagem ao Chifre da África, em 2002, deparou-se com o primitivo ritual de mutilação da sexualidade feminina. Desde então, começou a jornada para retratar a mulher contemporânea, o que incluiu viagens por inúmeros países, pesquisando histórias e traçando retratos.

"Em todo o mundo, as mulheres se renovaram. Lutam por seus direitos, trabalham, cuidam da casa e das crianças. Já os homens não mudaram muito , gostam mais de assistir à TV", justifica Titouan, de 54 anos, de cabelos grisalhos e olhos azuis acinzentados.

Quando chega à cidade escolhida, Lamazou visita ONGs e outras entidades políticas, pedindo indicações de mulheres interessantes. O Brasil esteve na mira de sua câmera e pincéis: visitou o País pela primeira vez nos anos de 1970, motivado pela obra de Guimarães Rosa, especialmente Grande Sertão: Veredas. Tamanho o seu carinho por esse livro, que quando perdeu sua tradução, durante um campeonato de vela, foi à Aliança Francesa do Rio de Janeiro e xerocou cada página da publicação. Nessa mesma competição, cruzou a linha do Equador e fez uma oferenda especial. "É tradição dos marinheiros dar um presente a Netuno nesse ponto. Então joguei todas as páginas de Grande Sertão, um presente digno."

Seu trabalho em defesa dos direitos femininos tem o apoio da Unesco, que concedeu a Lamazou o título de Artista pela Paz, em 2003. Criou há um ano a ONG internacional Lysistrata (em homenagem à personagem de Aristófanes, que comanda uma greve de sexo como estratégia para terminar a Guerra do Peloponeso). O objetivo é oferecer capacitação para mulheres do Congo, França e também do Brasil.