As mudanças no acento dos ditongos

Evanildo Bechara* - O Estado de S.Paulo

Um leitor estranhou que se usasse ideia sem o acento agudo que lhe convinha pela norma de 1943. O acordo de 1990 prescinde dele em paroxítonas que contenham os ditongos ei e oi de vocábulos como ideia e heroico, em virtude da oscilação deles entre a pronúncia com articulação aberta e fechada. Nos oxítonos, em que a oscilação não se dá, acentuar-se-ão sempre: fiéis, herói, etc. Outro estranha que a ausência do diacrítico não se estendeu ao ditongo aberto eu em araréua, jurandéua, etc. A razão é que com o ditongo nestes termos não se dá a motivadora oscilação. Ainda na esfera desses ditongos, pergunta uma leitora se o topônimo de sua cidade natal Pompéia prescindirá também do diacrítico. Se quiser marchar com o acordo, sim. Os nomes próprios, quando não garantidos por assinaturas e firmas, terão de adaptar-se. É preceito repetido nos formulários ortográficos oficiais.Outra pergunta de hoje diz respeito ao emprego de não como prefixo: "não-agressão" e "não-combativo". A novidade parece ter começado na área da Filosofia; desse emprego se serviram os filósofos alemães Fichte e Hegel nas suas elocubrações do nicht-sein e nicht-ich. Nunca teve adesão literária entre nós, nem os formulários e vocabulários ortográficos brasileiros e portugueses lhe deram atenção especial, salvo em dois ou três verbetes.Na França, donde parece ter vindo a divulgação da novidade, brigam as autoridades e a Academia sobre o emprego ou não do hífen, ou só antes de substantivo. Banalizar esse uso é retirar das pessoas a oportunidade de um recurso estilístico gráfico; é o mesmo que matar a mosca com bala de revólver. A 5ª ed. do Volp preferiu continuar a tradição ortográfica de reservá-lo para recurso estilístico, e assim eliminou os vários registros existentes na 4ª edição. O acordo de 1990 nada tem com essa decisão, apesar do fato de, em pelo menos duas passagens do seu texto, empregá-lo sem hífen: "em palavras não oxítonas" (final do item 5º da Base III) e "com elementos não autônomos" (início do item 1º da Base XVI), que trata especificamente do emprego do hífen com prefixos e falsos prefixos. Numa época de simplificação dos diacríticos, por que aumentá-los no caso de não e quase ?Outro consulente não entendeu também por que se há de escrever afro-brasileiro com hífen, ao lado de afrodescendente, sem o diacrítico. A mesma indagação ocorreu ao nosso querido amigo Zuenir Ventura, numa crônica sobre o acordo, em que tece lisonjeira referência aos dois livros acerca da reforma ortográfica, que escrevemos para a editora Nova Fronteira. O que se dá em afro-brasileiro é a reunião do adjetivo afro, que guarda sua individualidade morfológica, e o que o acordo de 1945 chama de "aderência de sentido", seguido de outro adjetivo que guarda as mesmas características. Dito de outra maneira menos técnica, estamos diante de dois adjetivos étnicos. Isto já não se dá em afro-descendente, em que temos apenas a indicação de uma só etnia. Bons exemplos destes dois casos gráficos nos dão os termos indo e chinês, que podem ser escritos com hífen, indo-chinês, em referência aos indianos e chineses, diferentemente de indochinês sem hífen, aplicado aos naturais da Indochina.Ou ainda centro-africano, com hífen, referente à região central da África (dentro da mesma norma da Base XV do acordo que exemplifica com norte-americano e sul-americano) ao lado de centroafricano, designativo étnico da República Centroafricana. Sobre outra questão, "o que vem a ser formações por recomposição?", cabe dizer: É um tipo de formação de palavras que, em Portugal, merece particular denominação (veja-se a excelente Nova Gramática do Português Contemporâneo elaborada por Celso Cunha e Lindley Cintra) e que Antonio Houaiss, no seu A Nova Ortografia da Língua Portuguesa, assim definiu: "Processo de formação de palavras que envolve um elemento que, embora na origem seja um radical, mudou seu significado na língua moderna e passou a funcionar como um falso prefixo. Exemplo: aero em aeromoça." Como disse o saudoso filólogo, é o processo em que entram os falsos prefixos. *vidae@grupoestado.com.brEvanildo Bechara é filólogo, gramático e Coordenador da Comissão de Lexicografia e Lexicologia da ABL