As donas do palco

- O Estado de S.Paulo

O que Lúcia Veríssimo, Beth Goulart e Mônica Martelli têm em comum? Estão em cartaz em São Paulo com peças de autoria própria

Seja em um espetáculo mais dramático, como o de Beth, ou em um mais cômico, como o de Mônica, as facetas artísticas de Lúcia Veríssimo, Beth Goulart e Mônica Martelli estão muito bem delineadas no palco e, em cada um dos textos, é possível perceber um pouco de cada uma das atrizes. Lúcia e Mônica, por exemplo, contam que elas mesmas serviram como fonte inspiradora para compor suas personagens. Já Beth aproveitou a admiração pela escritora Clarice Lispector para organizar o monólogo que encena.

 

Jornalista de formação, Lúcia Veríssimo assume que sempre se deu melhor com as palavras escritas do que com as faladas. "Consigo ordenar melhor as minhas ideias escrevendo." Inicialmente, tinha um projeto de escrever para o cinema, mas acabou deixando-o de lado. Escreveu, então, a peça Usufruto, a primeira incursão da atriz como dramaturga.

 

Além de autora e atriz, Lúcia também foi a produtora. "Se não tivesse permitido que as três funções se desenrolassem de forma independente uma da outra, não conseguiria montar Usufruto." Assim que entregou o texto ao diretor José Possi Neto, deu a ele a carta branca para dirigir a peça. "O fato de interpretar a personagem da forma como ele quis, e não como tinha escrito, fez com que ela crescesse infinitamente mais."

 

Antes mesmo de começar a escrever, Lúcia parou, pensou e chegou à conclusão de que a peça teria de ser enxuta, com apenas dois personagens (um casal) para dar conta da turnê nacional. "Gosto muito dessa coisa mambembe do teatro, dessa itinerância."

 

A peça mostra uma mulher na faixa dos 50 anos e um homem de 30. Os dois querem comprar um mesmo apartamento. Para resolver o impasse, ela propõe um jogo, no qual a regra básica é não haver mentiras. Eles abrem suas vidas um para o outro. É exposta, então, a diferença de pensamento das duas gerações, no que diz respeito a temas como amor, sexo e relacionamentos.

 

Quando escreveu a personagem, Lúcia diz não ter pensando em mais ninguém para interpretá-la. "Fiz para que eu atuasse, sem dúvida nenhuma. Aliás, tenho um ciúme danado, nem consigo imaginar Usufruto na boca de outra pessoa."

 

A aceitação do texto pelo público foi tamanha que a peça foi prorrogada até o final de maio e, segundo ela, pode ser estendida até setembro. Lúcia já teve, inclusive, uma encomenda da jornalista e atriz Marília Gabriela para fazer um texto para ela. "Escrevo dia sim, dia não." A intenção de escrever para o cinema também não foi deixada de lado. Paralelamente a isso, desenvolve um programa para rádio e outro para televisão.

 

Experiência acumulada. Simplesmente Eu, Clarice Lispector é a terceira peça que a atriz Beth Goulart escreve. "Esse é o terceiro monólogo no qual tenho uma participação criativa bastante forte", diz. As outras montagens anteriores foram Pierrot, em 1991, e Doroteia Minha, em 2002. Agora, decidiu dar passos maiores. Além de escrever e atuar, assina a direção do espetáculo.

 

 

Beth. Atuação premiada como Clarice Lispector. Foto: Fabian/Divulgação

Na peça atual, Beth incorpora cinco personagens: Clarice Lispector e mais quatro mulheres que foram criadas pela escritora. "Considero o meu trabalho muito mais de dramaturgia do que de criação de texto, até mesmo porque eu trabalho em cima do texto da Clarice." As falas das cinco mulheres foram retiradas de histórias da autora e também de entrevistas que ela deu ao longo da sua vida.

 

"A peça tem uma linguagem física muito grande, além de um trabalho vocal forte e um desdobramento entre as várias personagens, partindo de uma única pessoa em cena", explica.

 

Beth diz que os valores que estão na peça fazem parte não só da literatura de Clarice, mas também da sua vida pessoal. E é por meio dessas escolhas que ela se revela no palco. "Os valores que eu escolhi para pinçar da literatura dela têm a ver com os meus próprios valores, como a visão sobre a vida, a morte, a maternidade, a solidão, a angústia do processo criativo."

 

Com relação à composição da peça, a atriz conta que fez pequenas intervenções no texto de Clarice, como a mudança da pessoa que conta a história, uma forma de propor uma maior participação do público. "Assim, convido o público a vivenciar o estado da personagem junto comigo. Não saio da história, assumo a minha presença." E sua presença no palco é tão marcante que Beth foi a vencedora da etapa carioca do prêmio Shell de Teatro, na categoria de melhor atriz.

 

A grande interferência que teve de fazer foi na junção dos textos. "Tentei encontrar uma linha invisível entre eles, uma forma de ligá-los tematicamente. Na verdade, criei uma dramaturgia." Foi assim que conseguiu unir em um mesmo contexto frases que, na realidade, foram ditas ou escritas por Clarice em momentos diferentes. "É um patchwork apaixonado, ou uma declaração de amor à Clarice, à literatura e ao teatro."

 

Beth divide-se entre as apresentações em São Paulo e no Rio de Janeiro. Além disso, ainda encontra tempo para pesquisar sobre a próxima peça que vai escrever. Dessa vez, no entanto, afirma que não atuará, apenas vai escrever e dirigir.

 

Solteirice. Mônica Martelli, em cartaz com Os homens são de Marte... e é pra lá que eu vou!, é mais uma que, além de atuar, assina o texto da peça. A ideia de escrever surgiu quando a atriz estava solteira. Na época, escrevia textos diversos, que ficaram por muito tempo engavetados. "Mostrei para a minha irmã e para o meu atual marido, que me incentivaram a produzir a peça." Assim, Monica montou o espetáculo, uma junção de todos esses textos.

 

 

Mônica. Peça reflete uma fase da sua vida. Foto: Olívio Campos/Divulgação

Ela interpreta Fernanda, uma jornalista de 35 anos que ainda não se casou e se desespera por isso. Atrás do homem dos seus sonhos, aquele que, um dia, mudará o seu estado civil, ela envolve-se com vários. O problema é que eles não são bem o que ela procura. E, durante uma sessão de terapia em grupo, ela conta as trapalhadas pelas quais passou para conseguir, enfim, desencalhar.

 

Mônica diz que, quando solteira, passou por problemas semelhantes aos de Fernanda. "Ralei tanto e, por isso, tive vontade de botar para fora essa experiência. A Fernanda sou eu há 8 anos", confessa, admitindo que hoje está muito distante da realidade da personagem. O sucesso da peça incentivou a atriz a escrever um livro sobre a história, e a preparar um projeto para a TV. Mesmo assim, ela pensa em desenvolver uma continuação da peça atual.

 

Assim como as outras atrizes, Mônica conta que não pensou em outro nome para interpretar a protagonista quando escrevia o texto. "Eu já escrevo para a minha embocadura, já sei o que eu quero falar", afirma. Ela divide sua vida em "antes e depois" da peça. "Foi tão importante para mim, me deu reconhecimento profissional, mudou minha vida financeira."

 

 

SERVIÇO:

 

"Usufruto": Teatro Faap, 3662-7233; quartas e quintas, às 21h. R$ 40. Até 27/05.

 

"Simplesmente eu, Clarice Lispector": CCBB, 3113-3651; sextas e sábados, às 1930, e domingos, às 18h. R$ 15. Até 20/06.

 

"Os homens são de marte... e é pra lá que eu vou!": Teatro Shopping Frei Caneca, 3472-2226; sextas e sábados, 21h30; domingos, às 18h. R$ 60 e R$ 70 (sábados). Até 27/06.