As damas da noite

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Elas comandam a vida noturna da cidade que não para, com firmeza, dedicação e muita personalidade

 

A sócia do badalado clube Hot Hot, Flavia Ceccato, tem trilha sonora para tudo. Não faz nada sem música. Tem um rádio em cada canto da casa, onde toca de indie eletrônico a jazz. Descobriu a paixão pela música durante uma viagem que fez pela Índia, com direito a uma esticada até a Europa. Até então, tinha certeza de que seguiria carreira no mundo da moda.

 

Quando criança, vestia roupas e sapatos da mãe e adorava brincar de mudar o visual das bonequinhas de papel. Mais tarde, integrou a primeira turma do curso de Moda da Faculdade Santa Marcelina. Começou a trabalhar aos 18 anos, mas não seguiu adiante porque nunca gostou de receber ordens. "Acho que tenho problema de insubordinação e de acordar cedo", brinca. A noite sempre foi sua fonte de inspiração .

 

Hoje a empresária soma 20 anos no comando de badaladas casas noturnas. Bate ponto no escritório diariamente. No fim da tarde, volta para casa e se apronta para encarar a segunda fase da jornada, no clube. E não é diversão. É trabalho. Coisa que não consegue misturar. Dentro da boate, seu "radar" fica ligado. Com a experiência que adquiriu ao longo desses anos, consegue se antecipar a qualquer tipo de problema: alguém que está alterado por ter passado do limite com a bebedeira ou que quer um motivo para brigar. Muitas vezes, ela mesma tenta resolver, pois quando o cliente é abordado por uma mulher, não reage. Em outras, deixa o trabalho para os seguranças. A bonitona conta que não é assediada pelos clientes porque tem cara de brava.

 

Flavia já foi sócia do clube L.ove, mas hoje está bem mais madura à frente do Hot Hot. "Era mais romântica e menos tolerante. Mas sempre tive prazer com o que faço." Agora tenta diminuir o ritmo do trabalho para ter tempo para si. Aproveita as horas vagas para namorar e curtir sua vida pessoal.

 

Rainha da rua. Quem vê o império que Lilian Gonçalves montou na Rua Canuto do Val, no bairro de Santa Cecília, pouco sabe do sangue e suor derramados. Quando desembarcou em São Paulo, sozinha, aos 14 anos, vinda de Brasília, ficou estática vendo a multidão passar. Naquele momento, seu mundo caiu. "É uma cena que tenho viva na memória." Caminhou até a Avenida Rio Branco, parou numa lanchonete e pediu, humildemente, um emprego. Diz que sempre fez seu dinheiro render. E chegou a uma fase em que percebeu que já poderia ter seu próprio negócio. Foi quando comprou um barzinho na Rua Jaguaribe, pagando o restante em suaves prestações, naquele mesmo centro da cidade que a assustou na chegada.

 

Juntou mais dinheiro e logo passou a ter um novo espaço para receber a clientela, que ficava ao lado do antigo estúdio da Rede Globo. Um dos primeiros clientes foi um diretor da emissora, que não acreditou que aquela garota de 17 anos era a dona do estabelecimento. Admirado com sua garra, indicou o bar para vários amigos.

 

Neste ano, o bar que deu nome à sua rede, o Biroska - A Casa dos Artistas, completa 40 anos. E ainda tem o Espetinho, Cerveja & Cia; Frango com Tudo; Bar do Nelson - O Bar do Boêmio (em homenagem a Nelson Gonçalves, seu pai); e Siga La Vaca Brasil.

 

Quando olha o cenário artístico, depara-se com as pessoas que já cruzaram a porta do seu estabelecimento, naqueles tempos em que não havia paparazzi. Mesmo assim, ela sempre foi discreta. Recebia, e ainda recebe, de governantes a jogadores de futebol, e tem orgulho de dizer que nunca usou isso para fazer publicidade. "Meu grande patrimônio é meu cliente." Durante anos, não teve segurança nos bares. Hoje, são 27 tomando conta da rua.

 

Quem quer aprender a receita do sucesso, aí vai. Lilian está à frente de todas as decisões do seu negócio. Entrevista e contrata funcionários, que passam por um treinamento para aprenderem, entre outras coisas, o limite do relacionamento com os clientes. Decide com o cozinheiro o que entra no cardápio, e garante que sabe preparar todas as receitas. "É padrão. Da mesma forma que é servido hoje, será servido daqui a 10 anos", garante.

 

O detalhe é que dorme apenas duas horas por dia. A sala que divide com a filha dispõe até de camarim. Está prestes a lançar o "maior videokê da América Latina", com 14 salas individuais, que atenderá pelo nome de Coconut Brasil. E ainda tem planos de abrir uma escola de treinamento de garçons e garçonetes. "Sempre me vi grande."

 

Gambiarra. Foi numa festa organizada em 2008 pelos atores Anna Cecília Junqueira e Alex Gruli, no hotel Cambridge, que surgiu o que hoje pode ser a balada mais disputada de São Paulo, a Gambiarra, A Festa. Por serem atores, queriam um lugar para organizarem seu happy hour, que geralmente acontece aos domingos bem tarde da noite, já que segunda é dia de folga.

 

A ideia era dispor de um ambiente onde tocasse música gostosa, daquelas para chacoalhar. Na primeira festa, havia 120 pessoas. Na segunda, o número dobrou. Em menos de dois meses, já contabilizavam 700 pessoas. O público continuou subindo. E tudo no boca a boca. Quando os baladeiros fora do cenário artístico descobriram que a festa era frequentada por Reinaldo Gianecchini e outros famosos, aí que bombou. Tanto que ele é o padrinho. Um ano depois, aconteceu a primeira festa especial no The Week. E a festa já fincou sua bandeira no Rio, na Varanda do Viva o Rio, e deixou saudades em cidades como Curitiba e Brasília, por onde já passou. "Criamos a política de barrar fotógrafos, o que atraiu famosos. É uma festa para ser você mesmo", diz Anna.

 

Aos domingos, a festa rola no Open Bar Club, em Pinheiros, com mil pessoas. E, uma vez por mês, acontece na The Week, na Lapa, para 3 mil pessoas. E lota. Anna já ouviu muita história de gente que se conheceu nessa balada. É frequentada por heteros, gays, pessoas das mais variadas posições sociais. Em julho, lançaram o Gambi Churras, evento para curtir a tarde de sábado à tarde, com direito a churrasco.

Anna, que largou o jornalismo para arrasar nos palcos de teatro e organizar a Gambiarra, vai ao escritório diariamente. Ou seja, de dia é dona de balada e, à noite, é atriz. No começo, teve de ralar muito. Ela diz que os sócios (Eduardo Reyes, Miro Rizzo, Talita Castro e Tuca Notarnicola, além de Anna e Alex) se completam. "Não imaginava que o projeto ganharia essa magnitude. A intenção era fazer um dinheirinho, mas hoje vivo disso. É a realização da minha vida."