Após resistência da própria família, casal faz doação

Emilio Sant?anna e Ligia Formenti - O Estado de S.Paulo

Mãe de gêmeas, administradora espera ajudar filhos de outras mulheres que precisam de cura para doenças

O mais difícil foi explicar para a família. Católicos, os pais da administradora e ex-professora de catequese Sílvia Barnabé, de 37 anos, não aprovaram a vontade da filha de doar seus 12 embriões congelados no Centro de Reprodução Humana da Maternidade Santa Joana, em São Paulo. Ela e o marido, Fernando José Alves das Neves, porém, já estavam decididos.Mãe das gêmeas Vitória e Sophia, de 3 anos, Sílvia não pretende ter mais filhos. Manter os embriões congelados já não fazia mais sentido para ela. "Espero ter ajudado os filhos de outras mulheres que precisam de uma cura que as pesquisas podem encontrar", diz. "Se minhas filhas precisarem algum dia, também serão ajudadas."Mesmo assim, vencer a própria resistência não foi fácil. "Por mais aberta que seja minha cabeça, continuo com uma estrutura religiosa muito forte", afirma. "Depois de exorcizar meus demônios, fiquei bem mais tranqüila e vejo que fiz a escolha certa."A escolha de Sílvia pode favorecer pesquisas como a dos neurocientistas Rosália Mendez Otero, da UFRJ, e Carlos Alexandre Netto, da UFRGS. Eles fazem parte de dois dos 40 grupos que se dedicam hoje às pesquisas na área, cinco deles com células-tronco embrionárias, no Brasil. "O número de pesquisas certamente vai crescer", diz Netto. "Precisamos agora conseguir as linhagens celulares", afirma Rosália.Esse trabalho ficará a cargo da recém-criada Rede Nacional de Terapia Celular. Com financiamento de R$ 21 milhões para pesquisas com células-tronco adultas e embrionárias, deve estar funcionando até o final deste ano. "Isso irá padronizar e garantir a qualidade das pesquisas, além de melhorar a escala de produção", afirma o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Reinaldo Guimarães.O veto do STF à Ação Direta de Inconstitucionalidade (Adin) que questionava as pesquisas com células-tronco embrionárias parece ter vindo em um momento em que o País amadurece seus mecanismos de regulação nessa área. Em agosto, começa a funcionar o SisEmbrio. O sistema da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) reunirá, pela primeira vez, os dados sobre os embriões congelados nas 150 clínicas de fertilização assistida brasileiras. "Já há uma série de controles sobre o funcionamento desses centros", diz o diretor da Anvisa, Cláudio Maierovitch. "Agora, teremos como fazer o rastreamento desses embriões."