Após diagnóstico, casal resolveu não ter filhos

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Mulher do interior de SP teve medo de que bebê herdasse dela mutação genética do câncer de intestino

Desde criança, S.D. vivia atormentada pelo fantasma do câncer. A avó paterna morreu por causa de um tumor no intestino. Três tios-avôs e dois tios paternos foram vítimas da mesma doença. S.D., porém, só se deu conta de que deveria procurar ajuda quando o pai morreu, no início dos anos 90. Ouviu do médico que aquele era um típico caso de tumor hereditário."Tínhamos tanto medo do câncer que nem chegávamos a pronunciar a palavra. Dizíamos ?aquela doença?", conta S.D., que tem 54 anos e mora no interior de São Paulo.Para fazer os exames, S.D. viajou com os cinco irmãos para São Paulo. Nenhum deles escapou da doença. Para alguns, bastou retirar os pólipos (lesões que antecedem os tumores). Para outros, o remédio foi extirpar o intestino em parte ou todo. Dos cinco irmãos dela, dois morreram.S.D. retirou o intestino em 1994, antes de o tumor aparecer. A quantidade de pólipos era muito grande. Em razão do pré e do pós-operatório, ela precisou viver em São Paulo durante um ano e meio. A família alugou um apartamento na Liberdade, bairro próximo do Hospital A.C. Camargo. Funcionária pública, ela teve de se aposentar. "Retirar um órgão é uma situação muito triste, difícil. Mas em nenhum momento tive revolta nem raiva. Sou religiosa, tenho fé."Ela só lamenta não ter buscado um médico antes. Se tivesse descoberto a doença mais cedo, possivelmente não teria sido necessário extirpar o intestino. Até hoje faz uma série de exames regularmente - o câncer familiar aumenta o risco de um segundo tumor.Após muito ponderar com o marido, S.D. decidiu que não teria filhos. "O médico disse que um bebê nosso teria 50% de chances de desenvolver câncer de intestino. Não queríamos que um filho nosso passasse por toda a situação que eu passei", conta.Antes de falar ao Estado, S.D. pediu que seu nome não fosse publicado. "Atrás de mim estão meus primos, meus sobrinhos, os filhos que ainda nascerão... Ninguém sabe se algum deles terá a doença. Não quero que sofram preconceito."