Aos marteletes hidráulicos, cidadãos!

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

A demolição da passarela de Ipanema, em um ensolarado domingo de inverno, foi uma dessas festas tipicamente cariocas que podem, por descuido, virar revolução. O finado trambolho cruzava a rua Visconde de Pirajá, na altura do Bar Vinte. Mas não ligava uma calçada à outra porque, logo após ser inaugurada, há 13 anos, seus vizinhos passaram a se queixar dos pedestres, que aproveitavam o percurso para espiar a vida alheia pelas janelas dos apartamentos. Interditado por indiscrição, deu para ser criticado por inútil. E inútil ele era. Mas a prefeitura derrubou-o porque, além de tudo, era feio. Na vitória inédita da opinião pública contra a feiura urbana, a presidente local da associação dos moradores disse que "o Rio amanheceu cantando" - quem sabe a Marselhesa Bota-Abaixo. Outro líder comunitário anunciou que o próximo alvo será a Cidade da Música. E uma barraca de souvenir aproveitou para vender cacos de concreto da passarela. Não parece, mas é assim que se fazem as grandes revoluções. A francesa, por exemplo. Ela derrubou a Bastilha quando atrás de seus muros anacrônicos viviam sete gatos pingados, todos presos comuns. Mas, posta no chão, virou símbolo da ordem despótica. E acabou vendida em blocos de pedra, como relíquias do absolutismo deposto, pelo empreiteiro Pierre-François Palloy, que faturou a demolição como decano do moderno marketing político. Lá, foi a Bastilha. Aqui, pode ser a passarela. A revolução carioca até leva uma vantagem na saída, porque parte de uma ideia mais bombástica que a igualdade, a liberdade e a fraternidade. Ela quer acabar com a feiura, se dá para levar o prefeito Eduardo Paes ao pé da letra. O fato é que, oficialmente, as britadeiras se levantaram contra as cáries arquitetônicas que corroem a beleza natural. Se for assim, Ipanema que se cuide. Seus moradores, vindos já de uma batalha, devem olhar as fachadas dos prédios com apreensão. Há muito o que desfazer no bairro para consertar o que a especulação imobiliária enfeou em secular parceria com a imprudência urbanística. Bonito mesmo era o areal que abraçava a Praia Grande da Restinga antes do Barão de Ipanema loteá-lo em 1894. E por que a revolução haveria de ficar em Ipanema se o Rio de Janeiro todo está soterrado em 444 anos de descuidos? Diante das barreiras de granito, água e selva de sua paisagem, a cidade sempre se comportou como um monumental equívoco urbanístico, como explicou, por A mais B, o historiador Nireu Cavalcanti no livro O Rio de Janeiro Setecentista. Estácio de Sá e seu tio, o governador Mem de Sá, sabiam tão bem o que estavam fazendo, que fundaram o mesmo povoado duas vezes, em lugares diferentes, com dois anos de diferença. O segundo núcleo inaugural ficava no morro do Castelo - que, por sinal, sumiu faz tempo. A cidade, desde os primeiros passos, só teve um lado para crescer - o das montanhas que escarificou, dos rios que canalizou, das lagoas que viraram praças no centro e das praias que, só na gestão do prefeito Pereira Passos, sumiram às dúzias. Há muito o que restaurar. Se a revolução iniciada pelo povo de Ipanema for às últimas consequências, o Rio será o parque nacional que deveria ter sido desde o início. Aí sim, o melhor do mundo. * É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)