Aos 84 anos, Mailer morre em Nova York

Afp, Ap, Efe e Reuters - O Estado de S.Paulo

Um dos pais do jornalismo literário, escritor recebeu 2 prêmios Pulitzer

O escritor norte-americano Norman Mailer morreu na madrugada de ontem, aos 84 anos, no Hospital Monte Sinai, em Nova York, Estados Unidos. A causa da morte foi insuficiência renal. Mailer estava sob terapia intensiva desde o mês passado, quando foi hospitalizado pela segunda vez por problemas respiratórios. No mesmo mês, ele havia se submetido também a uma cirurgia de pulmão. Um dos principais autores da corrente literária dos anos 60 conhecida como "new journalism", ou jornalismo literário, Mailer escreveu mais de 40 livros, ensaios e peças para o teatro. Vencedor de dois prêmios Pulitzer, colaborou durante anos com a revista Esquire, uma das principais referências do romance de não-ficção. Com uma carreira de quase 50 anos, o escritor foi co-fundador da revista alternativa nova-iorquina Village Voice. Filho de uma família judia de classe média de Long Branch (New Jersey), tornou-se um dos intelectuais mais conhecidos dos Estados Unidos e foi um dos grandes críticos da sociedade norte-americana. Mailer casou-se seis vezes e teve nove filhos. Vivia com a sua sexta mulher. O escritor se definia como um "conservador de esquerda" e, nos anos 60, opôs-se à Guerra do Vietnã. Boa parte de suas obras é de conteúdo político. Detido várias vezes por suas brigas e pela oposição à guerra, o escritor se voltou também contra as feministas por seus comentários considerados machistas sobre as relações entre os sexos. "Acho que, agora que as mulheres atingiram poder e reconhecimento, tornaram-se muito iguais aos homens em cada estupidez, vício e falta de julgamento que tivemos no curso da História", declarou em uma entrevista promovida em 1991 pela Time com líderes feministas. "Elas pensam pequeno e lutam pelo poder. O movimento feminista está repleto de tiranas, do mesmo modo como os movimentos conduzidos pelos homens." Em uma entrevista em 1998 para a TV francesa, comparou sua relação com os Estados Unidos a um casamento: "Amo esse país. Detesto-o. Tenho ódio dele. Sinto-me próximo a ele. Sou seduzido por ele. Sou repelido por ele. É um casamento que durou por pelo menos 50 anos da minha vida de escritor e, durante esse tempo, o que aconteceu? Ficou pior. Não é mais como no início". Foi também amigo dos integrantes da geração beat. Entre suas obras mais famosas estão um romance sobre a 2ª Guerra Mundial (Os Nus e os Mortos), um pouco de jornalismo de campo (Os Exércitos da Noite) e um livro sobre a CIA (O Fantasma da Prostituta). Mailer era fascinado pela fama, cultivando a sua própria e descrevendo a dos outros. Ele escreveu, por exemplo, uma polêmica biografia da atriz Marilyn Monroe. Embora tenha reconhecido que algumas de suas obras não resistiram ao passar do tempo, defendia o valor de alguns livros - especialmente Os Nus e os Mortos e O Fantasma da Prostituta. Em 1975, escreveu A Luta, que relata o mítico combate, ocorrido no ano anterior, entre Cassius Clay e George Foreman. Ex-boxeador, Mailer às vezes levava discussões de idéias às vias de fato. Em 1971, ele agrediu o ensaísta Gore Vidal diante das câmeras de televisão. O escritor feriu sua segunda mulher, Adele, com uma navalha em 1962 após uma bebedeira e foi internado em um asilo psiquiátrico por 15 dias. Logo depois, o casal se separou. Em Um Sonho Americano, refletiu sobre sua vida por meio de um personagem semiautobiográfico que mergulha em um mundo de violência e sexo. Em seu último livro, The Castle in the Forest (O Castelo no Bosque) - que foi publicado neste ano nos EUA e deve sair no Brasil no mês que vem -, imagina a infância de Adolf Hitler e apresenta o futuro ditador como fruto de uma relação incestuosa. POLEMISTA Mailer adorava expressar opiniões polêmicas. "A América é um furacão. As únicas pessoas que não ouvem o barulho são aqueles afortunados e incrivelmente estúpidos protestantes, que moram no centro do país, no olho sereno do tufão", destacou, em um dos seus ensaios. Em outro texto, disse que a masculinidade não é algo com que se nasce. "É algo que você ganha. E você ganha vencendo pequenas batalhas com honra. Como há pouca honra hoje na vida americana, há uma tendência em destruir a masculinidade nos homens de nosso país." Mailer chegou a dirigir quatro longas-metragens. Ele também atuou em filmes de Milos Forman e Jean-Luc Godard. Chegou a ser candidato a prefeito de Nova York, em 1969.