Amigos do peito

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

Amigos de fé, como na canção do Roberto,são aqueles que estão sempre por perto, nos bons e maus momentos

Uma recente pesquisa realizada por Louise Hawkley, diretora e pesquisadora do Laboratório de Neurociência Social, do departamento de Psicologia da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, demonstrou a importância de se manter amigos para a prevenção de doenças. Segundo o estudo, a solidão seria um gatilho para desencadear o aumento da pressão sanguínea, alterações no sistema imunológico, arteriosclerose e diabetes. Ainda, pessoas não inseridas em algum grupo social seriam mais suscetíveis ao alcoolismo e à compulsão alimentar.

Segundo Suzana Herculano-Houzel, neurocientista do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o apoio social de amigos e familiares é uma forma de se combater o estresse crônico e os problemas de saúde decorrentes. "Demonstrações de afeto, como um abraço, são gestos benéficos reconhecidos pelo cérebro", afirma.

Em tempos de relacionamentos instantâneos, iniciados com um clique do mouse, há aqueles que cultivam amigos de décadas. A amizade entre a apresentadora Hebe Camargo e as atrizes Nair Belo e Lolita Rodrigues, por exemplo, sempre foi uma referência na mídia. Nair, que faleceu há dois anos, era a mais palhaça do trio e sua ausência, segundo Lolita, é ainda muito sentida. "Até hoje as pessoas comentam uma participação nossa no Programa do Jô, quando cantei o Hino da Televisão Brasileira, especialmente composto para a inauguração da TV Tupi, em 1950. As duas se acabavam de rir. A letra é um intricado de frases sem sentido." A propósito do tal hino, era Hebe quem ia cantá-lo. "Durante 40 anos, contei a história de que ela teve um compromisso e por isso fui substitui-la, mas, na verdade, ela ia sair com um namorado."

A amizade de Lolita e Hebe, ambas com 80 anos e dois dias de diferença, já bate os 65 anos. Conheceram-se na Rádio Tupi, ainda adolescentes, quando iniciavam a carreira como cantoras. Lolita, La Salerosa, era acompanhada pela mãe e Hebe, pelo pai, violinista. "Morava no Tatuapé e, quando ela se mudou para o Sumaré, a algumas quadras da Rádio, nos víamos dia e noite." Mais tarde, já casadas, a amizade se fortaleceu com a chegada de Marcelo, filho de Hebe. "Ia visitá-la todos os dias nessa época."

Lembra, aos risos, de farras típicas de adolescentes, orquestradas por Hebe - na ocasião separada do primeiro marido. "Brincalhona, ela comandava: ?vamos passar na frente da casa de fulano de tal.? E lá íamos nós." Quando Hebe se casou com Lelio Ravagnani e se mudou para o Morumbi, o convívio foi escasseando, e, hoje, devido à agenda da amiga, se veem menos. Mas Lolita diz que a amizade das duas é eterna.

GERAÇÃO 70

Ponto de encontro de intelectuais, artistas e perdidos, o antológico Bar Riveira, na Rua da Consolação, foi palco de bravatas e fins de noite inesquecíveis. Alguns de seus assíduos frequentadores relembram os bons tempos, como os colegas de faculdade Roberto Garkisch, 55 anos, o Rober, e Nelson Tapxure, de 58, amigos há mais de 30 anos. A dupla se conheceu na faculdade e a eles se juntou Flávio Luis de Moraes, que até hoje chama Nelson de mestre, por tê-lo iniciado em todo tipo de contravenção nos anos 70.

Os três amigos estudaram em Santos e gabam-se de terem tido a elite da arquitetura nacional como professores: Cristiano Mascaro, Ubirajara Ribeiro, Décio Tozzi, Francisco Petracco. Relembram, divertidos, quando Moraes surrupiou o púlpito da faculdade de Direito, vizinha à de Arquitetura, e fez um discurso no meio da Conselheiro Nébias, avenida principal de Santos. "Imagine só uma provocação dessas no tempo da repressão. Baixou polícia, a maior confusão."

De jeans, tamancos e cabelo black power, Nelson lembra uma vez em que "totalmente chapado" entrou no temido Dops e comunicou ao delegado que os estudantes da faculdade de Santos entrariam em greve, num gesto de solidariedade aos colegas presos em São Paulo. "Uns amigos me esperavam do lado de fora, no carro, tremendo de medo", diz ele, que, por sorte, não foi detido.

Eram tempos de muito medo, porém, mais românticos, ponderam os amigos. Rober observa em seus filhos e amigos deles as diferenças de gerações. "Não existe neles interesse em debater a situação social do País e a política, temas que antes geravam discussões acaloradas nos bares." As relações de amizade também mudaram: "Se um grupo de 20 jovens se junta para sair num dia, no outro, cada um vai para o seu lado", opina ele.

Nelson acompanhou o primeiro casamento de Rober ainda na faculdade e lembra até hoje quando trocou a fralda do primeiro filho do colega. Por sua vez, Moraes viu a primeira filha de Nelson nascer, levou-a para passear de carrinho muitas vezes e, hoje, é seu professor na faculdade de arquitetura. Coincidentemente, a segunda mulher de Rober dá aula para o outro filho de Nelson e, assim, sob a conspiração dos astros, suas vidas vão se entrelaçando, como personagens da minissérie de Maria Adelaide Amaral, Queridos Amigos, retrato fiel de uma geração politizada e desbundada, como se dizia na época.

DE MÃES PARA FILHAS

Mariana e Camila, filhas, respectivamente, de Maria José Freitas (apelido Zezé) e Suely Ramos Coelho estão levando adiante a história de amizade de suas mães. Zezé e Suely compartilham uma parceria de 40 anos ininterruptos, o que torna o vínculo ainda mais raro. Casamentos, batizados, aniversários, perdas de familiares, enfim, em todos os momentos, estão juntas, dando apoio mútuo. "O segredo é cultivar, não deixar esfriar as amizades", fala Zezé.

Suely, por sua vez, lembra do apoio incondicional que teve em duas ocasiões difíceis: "Foi quando perdi meu irmão e o meu pai. No dia em que tive a notícia do falecimento do meu pai, meu filho, Rafael, estava participando de uma maratona e sentiu-se muito mal. Fiquei desnorteada com a situação. Zezé largou tudo e veio ao meu encontro, e seu apoio foi inestimável. O sentimento que nos une é o de irmãs."

As duas se conheceram por volta dos 14 anos, no colégio. Mais tarde - ambas exímias desenhistas - cursaram a escola Pan Americana de Artes e tornaram-se inseparáveis, mesmo com temperamentos diferentes. "Ela é mais explosiva e eu sou o inverso, coloco panos quentes quando a situação está preta", brinca Suely. Nem mesmo os gostos musicais atrapalharam a amizade: "Nos tempos da Jovem Guarda, Zezé gostava do Roberto Carlos e eu, do Ronnie Von. Mas um dia ela foi ao programa dele e não se esqueceu de mim: arrancou uns fios de cabelo do Ronnie e me trouxe. Isso é que é amiga!"

O destino as aproximou e também os futuros maridos. Os namorados das duas já se conheciam de vista e, assim, a amizade dos casais foi ficando mais forte. Ambas namoraram por cinco anos. Os casamentos foram no mesmo ano, uma madrinha da outra, é claro. Como engravidaram na mesma ocasião, os filhos têm pouca diferença de idade e cresceram juntos, com a relação virando quase um parentesco. Suely e Zezé já são avós e veem com alegria a continuação de suas histórias, encaminhando-se para a terceira geração.

LEALDADE

É tão comum a implicância das mulheres com os melhores amigos dos homens que, prevenidos, Luiz Antonio Cortelini, da área de marketing, e Gustavo Manoel Rollenberg Herculano, advogado, ambos de 27 anos, logo advertiram suas respectivas namoradas no sentido de não interferirem na amizade que começou aos 9 anos. A propósito, na opinião de Gustavo, a amizade entre homens é diferente :

- Somos menos competitivos e mais brincalhões do que elas, que se referem a essa característica típica masculina como "infantilidade". Além de superleais, resolvemos as questões de forma direta.

Os dois concordam que a lealdade é o grande pilar que une e fortalece os laços, e que os amigos do peito pode-se contar nos dedos. "Vejo a amizade como algo raro, no sentido de que, ao longo da vida, pouquíssimas pessoas serão fiéis o suficiente para você manter um forte vínculo", diz Gustavo. Segundo Luiz, a confiança também conta. "Se um dos dois estiver em apuros, a regra é primeiro ajudar e depois perguntar."

Ciladas e aventuras não faltam no currículo da dupla, como a vez em que, aos 16 anos, pegaram o carro do pai de um deles e deram de cara com a polícia, que pediu os documentos. Na adolescência, relatam, era comum viajarem sem lugar para dormir.

Quais são as lembranças que mais marcaram nesses anos todos de amizade? "Uma infinidade de passeios, viagens e baladas, recheadas de histórias engraçadas e, na maior parte delas, acompanhadas do terceiro elemento dessa grande amizade, o nosso amigo Hugo Leandro, um pouco mais novo, mas igualmente importante", concluem.