Americanos ensinam faculdades do Brasil a pedir dinheiro a ex-alunos

Ricardo Westin - O Estado de S.Paulo

Em evento em SP, especialistas explicam a dirigentes brasileiros táticas de captação de recursos comuns nos EUA

Por falta de visão, as universidades brasileiras estão perdendo incontáveis oportunidades de aumentar seus orçamentos e ter folga para investir em prédios novos, bibliotecas, pesquisas, tecnologia e bolsas de estudo.A falha é apontada por um grupo de americanos especializados em captação de recursos. Eles estiveram no fim de semana passado em São Paulo para mostrar a dirigentes do ensino superior que há empresas e pessoas dispostas a doar dinheiro para a educação. "É muito simples: basta pedir", diz Paulette Maehara, que preside a Associação dos Profissionais de Captação de Recursos (AFP, na sigla em inglês). Nos EUA, as universidades públicas e filantrópicas há muito tempo pedem. Só em 2006, segundo a AFP, a captação de recursos deu à educação superior americana US$ 41 bilhões (R$ 76 bilhões) extras. Como comparação, o orçamento das 53 universidades federais brasileiras (sem contar gastos com folha de pagamento) não chegou a R$ 1 bilhão.A origem do dinheiro captado varia. Se a faculdade em questão tem cursos de Medicina, Engenharia ou Direito, os doadores são quase sempre empresas, interessadas nos profissionais que chegarão ao mercado de trabalho. Se a instituição oferece cursos da área de humanas, quem mais faz doações são ex-alunos.Quando diz que a captação de recursos é "muito simples", Paulette se refere ao princípio. Na prática, porém, o trabalho é complexo. As universidades americanas costumam ter departamentos onde funcionários se encarregam exclusivamente de ir atrás dos "presentes", como as doações são chamadas lá. Captador de recursos é uma profissão.Adotam-se técnicas de psicologia. Os captadores procuram fazer com que os estudantes não percam o vínculo com a universidade depois de formados. Enviam e-mails com notícias e convites para que participem de projetos sociais da instituição, por exemplo, num trabalho para cativar os doadores. Se o ex-aluno mantém alguma ligação com a universidade, é muito mais fácil que ele se disponha a contribuir.Quando a pessoa procura a instituição espontaneamente, o captador precisa descobrir qual é o objetivo dela com a doação. "Se ela o faz como dever pessoal, se é para sentir-se bem, se quer homenagear alguém que morreu, se está interessada em ajudar pesquisas contra o câncer...", enumera Timothy Burcham, diretor da Faculdade Comunitária e Técnica de Kentucky. "O captador deve ter isso em mente para saber como convencer a pessoa a não interromper as doações."Quando as doações são feitas por empresas, o procedimento é mais frio. A universidade preenche formulários e explicita detalhadamente o destino do dinheiro. Nesse caso, o "presente" nem sempre é fruto da benevolência. Nos EUA, empresas que desenvolvem trabalhos filantrópicos têm consideráveis incentivos tributários.O evento com os especialistas americanos em São Paulo foi organizado por Custódio Pereira, diretor das Faculdades Integradas Rio Branco. Ele crê que a cultura da doação ao setor educacional pode facilmente ser assimilada aqui. "Há brasileiros que fizeram pós-graduação em universidades americanas e doam dinheiro a elas. Por que não podem doar às universidades públicas brasileiras onde fizeram a graduação?"