Alta rotatividade de docentes afeta ensino em São Paulo

Maria Rehder - O Estado de S.Paulo

No ano passado, mais de 6 mil professores pediram para mudar de escola na rede municipal

As escolas públicas da cidade de São Paulo sofrem com a alta rotatividade de professores. É o que evidencia levantamento exclusivo feito pelo Movimento Nossa São Paulo, com base no último índice de remoção de docentes da Secretaria Municipal de Educação. Só em 2006, mais de 6 mil professores pediram para mudar de escola na rede municipal.A situação mais crítica é na Cidade Tiradentes, zona leste, onde uma escola de educação infantil teve quase 86% de sua equipe de professores removida. Segundo Vera Masagão, coordenadora da ONG Ação Educativa e membro do Grupo de Trabalho de Educação do Movimento Nossa São Paulo, a rotatividade também afeta a rede estadual de ensino: 48% dos 250 mil docentes das escolas estaduais não são efetivos, o que não lhes garante a continuidade de trabalho em uma mesma escola após um ano de trabalho."É impossível uma escola consolidar um projeto pedagógico de longo prazo com essa alta rotatividade de professores. O problema está na forma de contratação da rede pública, pois aquele professor que acaba de prestar concurso escolhe as escolas onde ninguém quer ficar porque geralmente estão localizadas em regiões bem periféricas. Com isso, as crianças que mais precisariam de trabalho pedagógico contínuo acabam sendo prejudicadas."A Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Olga Benário Prestes, na Cidade Tiradentes, se encaixa no exemplo citado por Vera, pois teve o índice mais alto de remoção da capital: 85,71%. Segundo funcionário da Emei que não quis ter o nome identificado, o problema não é recente. "Esta escola é considerada uma escola de passagem porque é muito longe, a cada ano tem equipe nova."A dona de casa Adriana Rosária Martins, mãe de Aline, 2 anos, porém, afirma que a Emei Olga Benário é ótima. "O que falta é uma estrutura oferecida pelo poder público. Hoje as salas têm 40 alunos e os professores fazem o que podem para dar boa aula, pena que não ficam por muito tempo."INSTABILIDADEPara Angela Soligo, coordenadora do curso de Pedagogia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a alta rotatividade de professores impacta de forma negativa o aprendizado dos alunos. "É claro que a instabilidade da equipe é uma das causas do péssimo desempenho dos alunos da rede pública nas avaliações como a Prova Brasil. A remoção é negativa para o aluno, que fica desmotivado com a mudança de professor, e este, por sua vez, também perde a oportunidade de aprimorar seu trabalho, pois a cada ano recomeça em uma nova escola."Na Prova Brasil 2006, a capital ficou em 448º lugar na prova de português, feita pela 4ª série, entre as cerca de 600 cidades paulistas. Em matemática, a posição foi a 450ª. Os alunos de São Paulo tiveram média por volta de 160, mais baixa que a nota nacional.Uma das soluções apontadas por Angela para reverter a rotatividade seria uma determinação de permanência mínima de três anos na mesma escola.DESEMPENHOPor meio de nota, a Secretaria Estadual de Educação relembra que, como anunciado em agosto, implantará a partir de 2008 a remuneração por desempenho. "Um dos critérios será estabilidade dos profissionais nas escolas. A Secretaria acredita ser de extrema importância este ponto."