Alívio na ponta da agulha

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

A acupuntura, terapia milenar chinesa, conquista o devido respeito e é aplicada até no reino vegetal

Cada vez mais, a consciência de que é preciso cuidar do corpo, da alma e da mente agrega novos adeptos às chamadas terapias alternativas, cuja maior referência é a acupuntura. Pudera, a milenar terapia chinesa é conhecida como o tratamento mais antigo do planeta. Trata desde distúrbios energéticos até as chamadas doenças orgânicas, sem impedir a associação a qualquer outro tipo de terapia.

Para a cultura chinesa, as doenças são causadas pelo bloqueio da circulação de energia e, como consequência, geram desequilíbrios energéticos entre meridianos e órgãos. Com a acupuntura, é possível equilibrar a circulação energética, estimulando determinados pontos do corpo - que são "marcados" ao longo de linhas chamadas meridianos.

Não são só as agulhas que podem ser manipuladas em uma seção de acupuntura. Os meridianos podem ser estimulados por meio dos dedos, calor, cor, esparadrapo e até pela respiração, consideradas as formas mais comuns.

Para sentir os resultados, é preciso seguir o tratamento à risca. "Se demorou 15 ou 20 anos para tirar o corpo do lugar, não pense que vai curá-lo em duas sessões", dispara o presidente da Associação Médica Brasileira de Acupuntura e do Departamento de Acupuntura da Escola Paulista de Medicina, Marcius Mattos Ribeiro Luz.

Claro que há exceções. Em casos de cólicas menstruais, por exemplo, a acupuntura pode até funcionar para aliviar a dor momentânea. Mas quando a paciente quer realmente acabar com a cólica, o tratamento pode durar seis meses, dependendo da fase em que está. "Se a paciente entender o que tem de ser feito, não precisará fazer a manutenção durante seis anos."

Para o presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia e Acupuntura (Sobrapa), Belvo Ferraz da Silva, o indivíduo deveria começar a acupuntura desde a concepção, para que a criança possa nascer em melhores condições física, psíquica e mental. Depois, deve mantê-la por toda a vida.

Enquanto certas pessoas têm pavor à agulha, outras encontram nessa delicada e poderosa "varetinha" a solução para suas dores ou angústias. Segundo Luz, a acupuntura trata cerca de 100 patologias. Ele explica que o adoecimento tem três fases: energética, funcional e orgânica. "O chinês acredita que o corpo foi feito para ensinar o espírito. Ou o espírito aprende, ou o corpo padece", filosofa.

Claro que ninguém diz que a acupuntura vai curar as doenças. Mas, segundo Luz, se estiverem na fase funcional e energética, a cura é bem mais provável, porque a terapia chinesa "tira a energia" até de um tumor.

NOVAS TÉCNICAS

Para o chinês, é a energia que forma a matéria. Sendo assim, se está no homem, está na planta e também pode estar no animal - sempre baseado nos mesmos meridianos e pontos. Em animais, são usados truques para que não se mexam, como amarrar suas patas, de forma que não corram o risco de se machucar. "No Jockey Club, quando os cavalos veem o acupunturista chegar, já ficam deitados, esperando a agulha", conta Luz.

O "descobridor" da medicina vegetal é o ex-professor da Santa Casa de Misericórdia e presidente da Associação Brasileira de Acupuntura, Evaldo Martins Leite, de 80 anos - sendo 50 dedicados à prática. Ele fez uma analogia entre planta, animal e homem, e iniciou as pesquisas em 1970. Cinco anos depois, fez uma apresentação sobre o tema em um congresso realizado em Buenos Aires.

Nas plantas, os pontos são estimulados com pregos, agulhas ou alfinetes - em áreas de inserção dos galhos no tronco, ramos e raízes - com a finalidade de deixá-las mais "saudáveis". Leite tem uma pesquisa esboçada para tratar feijão por meio da acupuntura, além de outra sobre frutos. E ainda lhe restam dois sonhos. O primeiro é descobrir como a acupuntura pode atuar na produção de células-tronco de adultos. E o segundo é usar a terapia milenar para promover o equilíbrio ecológico, de forma que a planta cresça e acelere o reflorestamento.

Já quando o assunto é estética, o cardiologista Gabor Tomas Fonai é contundente. Para ele, essa história de emagrecer com acupuntura é enganação: a pessoa tem de fazer dieta, exercícios e contar com a terapia chinesa para harmonizar o todo. "Tratamento estético existe, mas não é cirurgia plástica", destaca. Ele admite que uma ruga desaparece na hora, como um passe de mágica. Mas não é isso que vai rejuvenescer a pessoa. O que ocorre é que, se o músculo fica fraco, cai. Ao ser estimulado, se fortalece e é tonificado.

Formado em medicina clínica, cardiologia e terapia intensiva pela Santa Casa de Misericórdia, Fonai aplica a acupuntura desde 1985 e garante que a terapia pode reverter até quadros de AVC (acidente vascular cerebral), quando intervém na urgência do quadro agudo.

A autora do livro Acupuntura no Esporte (Phorte Editora), Suzete Colo Russetto, que é educadora física, fisiologista e membro do Centro de Acupuntura e Terapias Alternativas, usa a acupuntura em atletas, estimulando os pontos para lhes dar energia e melhorar sua performance. O resultado é melhora da flexibilidade, capacidade aeróbica, tônus muscular e da recuperação pós-exercício.

ESCOLHA DO PROFISSIONAL

O presidente da Sociedade Brasileira de Psicologia e Acupuntura (Sobrapa), Belvo Ferraz da Silva, fala dos três perfis de "terapeutas". O primeiro é o imigrante chinês, como Liu Pai Lin, um dos introdutores da Medicina Chinesa do Brasil. Depois, cita o grupo de técnicos formado por pessoas que só precisam ter o segundo grau completo para ingressar em um curso do gênero. E, por último, os universitários da área de saúde. "Acredito que será uma prática multiprofissional. Não existe um país em que a acupuntura seja restrita aos médicos", diz.

Na Associação Brasileira da Acupuntura, há cursos exclusivamente para profissionais da saúde. Mesmo assim, segundo dados da entidade, há cerca de 40 mil acupunturistas - desses, cerca de 25% são médicos por formação.

O cardiologista Gabor Tomas Fonai enquadra-se na ala que defende a prática exclusiva pelos médicos, e explica: um paciente que apresenta dor de cabeça, por exemplo, pode ser vítima de uma dor simples ou de um sintoma de enxaqueca, intoxicação alimentar e até de um tumor cerebral. "Se o diagnóstico não for preciso e a pessoa demorar para descobrir, quando chegar ao neurologista já pode ser tarde", enfatiza. "O problema dos não-médicos é a incapacidade de fazer um diagnóstico", completa.

Em 2002, o Conselho Federal de Psicologia regulamentou a prática para psicólogos. O presidente da Sobrapa diz que os profissionais têm alcançado resultados interessantes, pois, ao mesmo tempo em que a pessoa cuida do emocional, melhora a aparência e a energia, conseguindo outros benefícios. "O diagnóstico é importante, mas é preciso enxergar a pessoa como um todo. O que levou a vítima a ter um infarto, por exemplo, fica esquecido", enfatiza Gabor.