Aliadas dos executivos

Cristiana Vieira - O Estado de S.Paulo

Elas têm uma data só delas, 30 de setembro. E no dia a dia são indispensáveis para grande parte dos chefes

     

Imprescindíveis. Daniela, Zilma e Ilona se desdobram para ajudar os chefes em seus compromissos

Ela vive para o trabalho. É secretária do CEO da Facility Soluções Corporativas, David Barioni Neto, ex-presidente da TAM, um executivo que chega ao escritório antes das 7 da manhã, quando o telefone de Daniela Westphal, sua secretária desde março, começa a tocar. Não é à toa que ela leva a agenda do trabalho para casa. A qualquer momento, o chefe pode acioná-la e ela precisa ter as respostas na ponta da língua.

 

Certa vez, Daniela estava a caminho do trabalho quando ele ligou. Enquanto dirigia e falava ao celular, aproveitava a lentidão do trânsito para anotar as demandas do poderoso. Quando chegou ao estacionamento, mais uma ligação do chefe. "Estou chegando. Tenho de vestir a bota", disse Daniela. Ele desligou soltando uma gargalhada, pois descobriu que a competente e atrapalhada secretária só dirige descalça. Enquanto isso, ela descia do carro puxando a bolsa, equilibrando agenda e celular. Atravessou a rua correndo para entrar na empresa. Já estava subindo a escada quando se deu conta de que estava só de meia. "Desde então, quando ele me liga, pergunta se estou dirigindo descalça." A cena foi testemunhada pelos colegas de trabalho e pelo manobrista, que não acreditou que Daniela estava andando de meia pela rua. Virou piada.

 

Seu primeiro desafio na nova empresa foi descobrir um restaurante que servisse o cardápio preferido do chefe: arroz, filé mignon à milanesa e salada russa. "Fiquei conhecida como a Dani do filé mignon. E ainda preciso ter uma caixa de chocolates na gaveta, pois ele não fica sem." Ela tem 34 anos e formou-se em Secretariado Executivo no ano de 1999, em Ribeirão Preto. Em 2001, mudou-se para São Paulo, onde começou a trabalhar em um escritório de advocacia. Logo passou para o Grupo Silvio Santos até ser convidada para cobrir férias na TAM, onde ficou por sete anos.

 

A rotina de Daniela é pesada. Atende a demandas profissionais e pessoais, e quando se esquece de alguma coisa, leva bronca. "É uma bronca pesada, mas acho que é assim que vou crescendo", reflete. Mesmo assim, assume o erro. Mas sabe que há muitas secretárias que mentem por medo da reação do chefe.

 

Com a experiência que adquiriu, aprendeu a se adaptar ao jeito de cada chefia. Sua teoria é a de que o serviço é sempre parecido. Mas cada executivo tem um perfil e um modo de trabalhar. Também acredita que se trata de uma profissão muito ligada à confiança e à empatia. "O currículo vale, mas o olho no olho é decisivo."

 

Sargentão. Zilma Soares da Silva começou a trabalhar cedo e já soma 25 anos na Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô). Começou como escriturária e, dois anos depois, foi promovida. Fez um curso de secretariado e teve um engenheiro como primeiro chefe. Mas os outros brincavam dizendo que ela é que era chefe dele, pois sua fama era de "sargenta". Era uma época em que não existia celular e, quando ele se ausentava do escritório por muito tempo, ela o recebia de volta com as mãos na cintura querendo saber onde ele estava. Foram cinco anos de parceria. "Sinto saudade dele até hoje. Era muito bonzinho. Nunca lhe faltei com respeito, mas sabia que ele não ligava para o meu atrevimento", conta.

 

Em 1983, foi transferida para a área de Orçamentos. Foi quando passou por uma mudança radical. "Fui trabalhar com um chefe sargentão", brinca. Ele era muito bravo, impaciente e todos os dias ela chorava. "Nada que o tempo não ajude a moldar." Até chegar à conclusão de que precisava se impor e manter uma parceria de respeito, que durou 14 anos. "Ele continuou bravo, mas eu deixei de ser a menina boba."

Quando ele deixou o departamento, Zilma lamentou. O ex-chefe, que continua na empresa, já admitiu que era feliz e não sabia. E ainda pede favores para ela. Chegou ao ponto de, num fim de semana, ligar para perguntar sua senha do banco, pois queria fazer um saque e não lembrava os números.

 

Seu terceiro chefe não era nem tão bonzinho nem tão ranzinza. O bom é que seu humor não oscilava. Foram três anos trabalhando juntos. E até hoje ele também liga para lhe pedir favores. "Adoro ser babá de gente grande." Há cinco meses, tem novo chefe, o qual classifica como uma pessoa "super do bem".

Diz que, para trabalhar como secretária, também é preciso ser atriz, pois muitas vezes tem de mentir dizendo que o chefe não está. "Somos aliadas deles", justifica.

 

Foi aluna da professora de boas maneiras Christine Yufon. Foi com ela que aprendeu que quem ocupa esse cargo tem de tomar cuidado para não exagerar na roupa, perfume e maquiagem. Sabe, por exemplo, que esmalte escuro mancha papel, não usa decote, nem transparências.

 

Transição. Ilona Rechlin é filha de alemães, nascida na Indonésia e vive no Brasil desde os 4 anos. Formou-se em Jornalismo há 14 anos, trabalhou por cerca de 11 anos na área e decidiu passar uma temporada na Alemanha, que durou sete anos. Há três, voltou para o Brasil, pois não aguentava a saudade. Entre um trabalho e outro, surgiu a oportunidade de trabalhar diretamente com o diretor geral do Instituto Goethe.

 

Ela diz que o nome "secretária" caiu em desuso. Agora "assistente" é o termo da moda. No instituto, ela acaba se envolvendo também com a programação de eventos e outras áreas. "Descobri aptidões que não conhecia."

 

A única vez que se sentiu deslocada foi durante um evento com prestadores de serviços, em que as participantes eram todas secretárias de grandes empresas. "Não me senti secretária, mas depois relaxei."

Ilona Rechlin reveza o alemão com o português no dia a dia. Em um dia tumultuado, o telefone tocou. E ela travou. Não sabia o que dizer. Até que saiu um "oi". Mas ela pediu cinco minutos para se restabelecer. "Travei. Não conseguia falar", lembra. Há ainda aquelas histórias de enviar um convite com o nome trocado, ou ligar para uma pessoa errada e já começar a falar.

 

Continua escrevendo textos para matar a saudade da antiga profissão. Mas agora tem uma vida mais tranquila. Apesar dos dias em que pensa que vai pirar, nada se compara às redações por onde passou. "Agora tenho mais qualidade de vida, consigo encontrar os amigos e ainda tenho mais contato com a cultura alemã."