Ainda tem no mercado

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Demonstrações de amor permanecem vivas, apesar de muita gente não acreditar nisso

Para quem acredita que o romance está em extinção, alguns fortes indícios comprovam sua persistência. Flores, serenatas e jantares à luz de velas, símbolos do romantismo, continuam em alta entre casais apaixonados e vêm à tona no Dia dos Namorados, 12 de junho. Quem oferece esses serviços não reclama da falta de encomendas. Pelo contrário. É nessa data que a agenda lota e os lucros aumentam.   Veja também: As várias formas de dizer 'eu te amo' Depoimentos De acordo com dados dos serviços, os homens não podem ser taxados de desleixados. No Dia dos Namorados, ao menos, empenham-se para demonstrar que são verdadeiros gentlemen. Carina Chaves, a mentora do Jantar a 2 - empresa especializada em organizar eventos gastronômicos com cenários românticos - conta que seus clientes são divididos, meio a meio, entre homens e mulheres. Mas nem sempre foi assim. A empresária investiu pesado na divulgação de seus serviços para o público masculino. "Se fosse esperar que batessem na minha porta, provavelmente esse número (de clientes) não estaria tão equilibrado", explica Carina. "Com raras exceções, eles não dedicam seu tempo, por exemplo, procurando formas criativas de se declarar à amada." São as mulheres que se empenham mais, porém, quando os homens descobrem o caminho das pedras, também vão atrás. Entre os clientes do Jantar a 2, muitos deles se tornaram fiéis, para a sorte de suas musas inspiradoras. Menos privê do que encontros regados a boa música, comida e cenários exuberantes - geralmente restritos a quatro paredes -, a serenata é outra forma romântica de tocar o coração, só que publicamente. E aí está a graça: divulgar aos quatro ventos o quanto se está apaixonado(a). Por enquanto, a maioria dos pedidos de cantoria para a trupe dos Trovadores Urbanos é feita por mulheres, porém, mais uma vez, os homens estão quase chegando lá. "O amor sempre vai vencer. Apesar de todo mundo andar enlouquecido hoje, o romance vem quando a gente se apaixona", ressalta Maída Novaes, cantora e umas das criadoras do grupo, que fez sua primeira serenata em 1990, justamente no Dia dos Namorados. Entre as canções, as mais pedidas nessa data são Minha Namorada, composição de Carlos Lyra e Vinicius de Moraes, e a música Eu Sei que Vou te Amar, outra do Vinicius. Minha Namorada, apesar de ter sido composta na década de 1960, até hoje embala pombinhos apaixonados. Difícil mesmo resistir a uma declaração de amor como esta: "E se mais do que minha namorada / Você quer ser minha amada / Minha amada, mas amada pra valer." Para o próprio Carlos Lyra, a essência do amor, a letra, somadas ao romantismo e "lyrismo", explicam o fato de a canção ter se tornado atemporal. Quando a música nasceu, Vinícius estava apaixonado, mas Carlos Lyra conta que nunca se apaixonou: sempre amou. Na sua opinião, amor e paixão são duas coisas completamente diferentes. E vai além. Segundo o compositor, praticamente ninguém mais acredita em romance. "As pessoas ainda são escravas das paixões", avalia. "Só que as paixões, mais cedo ou mais tarde, terminam. Já o romance é para sempre." NOSTALGIA O romance parece pertencer a um passado distante. A pesquisadora e escritora Mary Del Priore, autora do livro História do Amor no Brasil (Editora Contexto), traça um panorama das formas de amar ao longo do tempo (leia texto na página anterior). No entanto, para Mary, a modernização causou uma reorganização profunda na vida emocional, que ainda está por ser estudada. Isso ajudou a sepultar, devagarzinho, antigas tradições nas formas de dizer o amor. "A liberdade sexual é um fardo para os mais jovens", observa a historiadora. "Muitos deles têm nostalgia da velha linguagem do amor, feita de prudência, sabedoria e melancolia, tal como viveram seus avós. Hoje, a loucura é desejar um amor permanente, com toda a intensidade, sem nuvens nem tempestades." Mary, por exemplo, teve muita sorte em usufruir desses momentos. Discretíssima, revela parte de sua juventude. Época de muitos buquês de flores, vidros de perfume, do rapaz que abria a porta do automóvel para a acompanhante antes de sentar-se ao volante, de nunca pagar um jantar ou almoço, das férias idílicas e da caixa com o vestido do sonhos! "Tive muita sorte", confessa. "Meu romantismo foi feito dessas pequenas coisas." Outro que nunca vai sair de forma é Carlos Lyra. "Fui e continuo sendo cada vez mais romântico. Mando flores e escrevo bilhetes", avisa. "Só não confunda romântico com babão. Mulher odeia homem babão. O romantismo, às vezes, pede um certo distanciamento, mas nunca negligência." Apesar das reclamações de homens e mulheres (confira os depoimentos), todos acabam assumindo seu lado romântico. Sem exceção, sonham em encontrar alguém que dê espaço para que sentimentos aflorem - sem medo do ridículo. Acostumada a cantar para casais e a se emocionar com as declarações explícitas em forma de serenata - no Trovadores Urbanos, serviço que custa a partir de R$ 260,00 -, Maída se derramou em lágrimas quando seu marido reservou uma apresentação especial só para ela. "Sou muito romântica, e não resisti quando ele preparou essa surpresa", confessa. "Acho lindo uma noite de luar. Não é à toa que o figurino dos trovadores é do final dos anos 20, época em que o romance foi muito forte." Também assumidamente romântica, Carina apostou nesse segmento quando fundou o Jantar a 2. Muita gente torceu o nariz e não acreditou que o negócio vingaria. Contra as previsões, a empresa cresceu. Hoje, uma produção não sai por menos de R$ 1.369,00. Mais uma prova de que o romance não está fora de moda é quantidade de rosas vermelhas vendidas no Dia dos Namorados. De acordo com Thalma Almeida, gerente de marketing da Cooperativa Veiling Holambra, são os homens que mais compram nessa data. "Acredito que as mulheres estão mais exigentes, pedem mais romantismo e eles estão mais atentos a esse desejo feminino", avalia. "Tanto é que as vendas crescem a cada ano."