Agressor é parente ou conhecido em 85% dos casos de estupro de menores

Simone Iwasso e Emilio Sant'Anna - O Estado de S.Paulo

Uma pesquisa realizada no Recife com 99 meninas que deram à luz nos últimos dois anos mostrou que grande parte delas sofria abusos sexuais. Para nenhuma dessas vítimas o aborto legal a que tinham direito foi mencionado."A violação dos direitos dessas meninas é muito grande", diz a médica Carmelita Maia, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), autora da pesquisa e coordenadora de Prevenção à Violência da prefeitura do Recife. "Elas chegam ao serviço caladas, não contam nada. Mas cabe ao médico ter a sensibilidade de perceber que uma gravidez aos 10 ou 11 anos não é gravidez, é estupro", diz a especialista.A maior parte das meninas tinha 13 anos quando engravidou, mas havia algumas com 10, 11 e 12 anos. Algumas narram violência constante, mas pouco falam sobre os parceiros.Outro estudo feito no Hospital Pérola Byington, cujo atendimento é referência em São Paulo, mostrou que 85% dos agressores eram conhecidos. Em 21,6% dos casos era o pai; em 16,7%, o padrasto; em 11,6%, o tio; em 16,7%, o vizinho; e em 21,7%, outro conhecido próximo da família. O tema da violência sexual nessa faixa etária veio à tona no último mês após uma garota de 9 anos no Recife engravidar do padrasto, que também abusava da irmã dela, de 14 anos. Ela fez o aborto legal, que gerou polêmica após o bispo d. José Sobrinho anunciar a excomunhão dos médicos e da mãe da menina. Na semana seguinte, uma garota de 13 anos grávida do pai decidiu ter o bebê na Bahia e outra de 11 anos, grávida do pai adotivo, deu à luz no Rio Grande do Sul. Em Goiânia, uma garota de 11 anos apareceu grávida do padrasto.