Ação judicial exige volta de serviço no Hospital Brigadeiro

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

Área de endocrinologia atendia quase mil pessoas; MP pede liminar contra governo estadual

Quase um mês depois do fechamento do serviço de endocrinologia do Hospital Brigadeiro, na região central de São Paulo, pacientes afirmam que continuam sem atendimento adequado. A situação levou o Ministério Público e a Defensoria Pública a ingressar com ação civil pública contra o governo estadual, administrador do local.A ação tem pedido de liminar para que a Secretaria de Estado da Saúde restabeleça o serviço imediatamente. Segundo o pedido, a área chegava a assistir 960 pacientes por mês. Na noite de ontem, o juiz Marcos Porta, da 5ª Vara da Fazenda Pública, concedeu 72 horas para a secretaria se manifestar.Em nota, a pasta nega a falta de atendimento e afirma que os doentes foram transferidos para outras de suas unidades em razão de reforma. O secretário de Estado da Saúde, Luiz Roberto Barradas Barata, procurado no fim da tarde de ontem, não comentou."(...) A secretaria não encaminhou bem a questão, e, além de desmantelar os serviços (...) não demonstrou estar bem redirecionando os serviços, em flagrante descumprimento ao seu dever de bem administrar", diz o texto da ação."Os pacientes estão sendo tratados como pano de chão, são jogados de um lado para o outro", afirma Marco Queiroz, de 54 anos, marido de Solange Fontes, de 49 anos, que tem acromegalia (doença que causa crescimento das extremidades e da face, além de desencadear diabetes e alterações respiratórias). "Éramos acompanhados e agora ficou meia-boca, somos mal tratados", diz Julio de Carvalho, de 52 anos, que tem a mesma doença.No dia 13 de março a secretaria transferiu todos os 21 médicos do serviço para um ambulatório estadual, considerado pelos especialistas inadequado, pois o serviço, que atende casos complexos, exige leitos hospitalares. "Até agora não entendemos os motivos de tudo isso", afirma o médico João Soares, que trabalhou por 25 anos no Brigadeiro. Após reunião com defensores e promotores, a pasta mudou de ideia e transferiu o atendimento para o Hospital Heliópolis, na periferia da zona sul, o que segundo a ação demonstraria a falta de planejamento. Mas os médicos, que foram ao local, também não o consideraram adequado por não ter ala pediátrica nem equipamentos necessários.Segundo a secretaria, as crianças serão atendidas em outra unidade e a estrutura de Heliópolis, que atenderá os adultos, será adequada quando requisitado. A promotoria, no entanto, aponta que recente relatório da vigilância sanitária apontou irregularidades em Heliópolis. A Sociedade Brasileira de Endocrinologia, que se manifestou na ação, também afirma que a unidade da zona sul é inadequada.Nesta semana, pessoas com acromegalia que precisavam de uma injeção acabaram sendo atendidas precariamente por apenas uma médica, que ainda trabalha na UTI do Brigadeiro, diz Queiroz. Ela não tinha dados dos pacientes e alguns tiveram de lembrá-la da dosagem. Segundo Solange, muitos passaram mal por causa da demora - os doentes precisam chegar ao hospital em jejum, para realizar exames "Não podemos ser apenas um número", diz Solange.DESABAFOSolange FontesPaciente "Não podemos ser apenas um número"Marco QueirozMarido de Solange"Os pacientes estão sendo tratados como pano de chão, são jogados de um lado para o outro"João SoaresMédico"Até agora não entendemos os motivos de tudo isso"