''Acabou o tempo da astronomia romântica''

Carlos Orsi - O Estado de S.Paulo

Costa diz ao ?Estado? que essa é hoje uma ciência cara e o desenvolvimento de software é a melhor estratégia para o Brasil

Astrônomos envolvidos em alguns dos mais avançados projetos internacionais de pesquisa do espaço, como o Telescópio Espacial James Webb - que deverá suceder o Hubble a partir de 2013 - estarão no Rio no final deste mês para participar de três dias de palestras e reuniões. O organizador do evento, o astrofísico Luiz Nicolaci da Costa, do Observatório Nacional (ON), espera que o contato com os estrangeiros alimente a discussão de um plano diretor para a astronomia brasileira, uma visão de futuro que possa integrar governo, centros de estudo, agências de fomento e cientistas.Nos dois primeiros dias do evento coordenado por Costa, 27 e 28 de maio, ocorre o seminário "A Glimpse into the Future of Astronomy" (Um Vislumbre do Futuro da Astronomia), sobre a nova geração de instrumentos astronômicos de alta tecnologia, baseados na Terra ou no espaço. No terceiro dia, 29, o tema será "New Astronomy: The Data Chalenge" (A Nova Astronomia: o Desafio dos Dados), que trata das necessidades de tecnologia da informação para administrar e analisar os dados gerados pela pesquisa astronômica.Dizendo que o tempo "romântico" do astrônomo que "passava a noite solitário no alto do morro" acabou, Costa afirma que a astronomia, hoje, é uma ciência cara, e seus principais projetos envolvem grandes investimentos e parcerias internacionais. Até os Estados Unidos, diz ele, vêm buscando parceiros, e cita como exemplos o Hubble - projeto conjunto da Nasa com a Agência Espacial Européia (ESA) - e o Alma (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array, na sigla em inglês), um conjunto de antenas para captar ondas eletromagnéticas de baixa energia vindas do espaço, que envolve, além dos EUA e Europa, Canadá, Japão, Taiwan e Chile. Nesta entrevista, ele defende mais articulação e integração dentro da comunidade astronômica no País e a criação de critérios para a avaliação de projetos de pesquisa em astronomia, para viabilizar investimentos maiores no estudo do céu.A astronomia brasileira parece atrair menos interesse do público que outras ciências, como a medicina ou a ecologia...Acho que é muito pouco divulgada. As pessoas se interessam por astronomia, mas vão e olham para o que se faz lá fora. Outro dia fui ao planetário do Rio de Janeiro e fiquei muito bem impressionado. Estavam passando uma apresentação sobre energia escura (uma força misteriosa que está acelerando a expansão do universo), muito bem feita, mas não faziam idéia de que há brasileiros trabalhando nisso, que somos parceiros do Dark Energy Survey (DES), um projeto internacional de dez anos para o estudo da energia escura. A que o sr. atribui esse desconhecimento?Falta articulação. No próprio Ministério da Ciência e Tecnologia há cinco institutos que trabalham na área de astronomia e não atuam juntos. É um legado histórico que precisa ser revisto. A astronomia brasileira cresceu muito nos últimos 20 ou 30 anos, só que cresceu e não amadureceu. A razão do encontro, aliás, é ajudar nesse amadurecimento, para podermos decidir melhor os investimentos. Acabou a era da astronomia romântica, do astrônomo que passava a noite solitário no alto do morro, tomando notas olhando pelo telescópio, em seu observatório. Ela é, hoje, uma ciência de alta tecnologia. A idéia do encontro é mostrar essa modernidade.O que falta para a astronomia brasileira ganhar maturidade?Não existe um processo de seleção de grandes investimentos para a área de astronomia no Brasil. Temos que ter uma idéia de futuro, integrada, e fazer uma estratégia para o melhor desenvolvimento da área. Acredito na elaboração de um documento que sirva de guia para o governo e as agências de fomento.Por que o sr. diz, na apresentação do evento, que a astronomia "está ficando cara"?Porque é cara. Os projetos que serão representados no encontro, por exemplo, envolvem cerca de US$ 15 bilhões. Nem os EUA têm essa grana toda mais, e estão se associando, como no caso do Hubble e do Alma. E com o dinheiro saindo do mesmo lugar (governo americano), tem ainda o James Webb, que vai custar US$ 5 bilhões. Não dá para o Brasil competir nesse nível. É ou ser parceiro minoritário, ou contribuir com o projeto de alguma outra forma. Uma saída para o Brasil, nesse cenário, é entrar com software, que vai contribuir com a infra-estrutura de dados do projeto em que o País se envolver.Desenvolvimento de software, então, seria a melhor estratégia para o Brasil?Sim. É a minha opinião, claro. Pode haver quem discorde. Mas, por exemplo, somos parceiros do Dark Energy Survey (DES), um projeto de dez anos para a construção e uso de uma câmera astronômica digital que será instalada no Chile. Tínhamos de entrar com US$ 1 milhão. Captamos US$ 300 mil e o resto, demos em software. Contratei técnicos, pesquisadores, e conseguimos desenvolver sistemas para prever o que deveremos ver quando o equipamento estiver funcionando. Com o salário desse pessoal, alavancamos US$ 700 mil. Esse parece ser o melhor modelo, no estágio atual do desenvolvimento brasileiro. O sr. acredita que um investimento no desenvolvimento de software para fins científicos poderia acabar tendo um impacto na economia brasileira, no futuro?Minha intuição diz que sim. Um exemplo muito marcante, para mim, foi Israel. Estive lá, e Israel é um grande exportador de software, assim como a Índia. Sempre achei que, como política industrial, tínhamos de investir em software. Não dá para imitar o desenvolvimento industrial dos EUA de 50 anos atrás. Temos de investir em áreas em que possamos competir, e software só requer inteligência.Um grande plano diretor para a astronomia brasileira sairá já do evento do Rio?Não, não... É só o pontapé inicial. Temos de usar essas pessoas (os convidados internacionais) como consultores. Temos de identificar os projetos de interesse. Não existe um documento que diga onde a astronomia brasileira quer estar daqui a cinco, dez anos. Hoje, não se sabe como cada projeto de pesquisa astronômica aprovado se articula com os demais, nem se está de acordo com objetivos gerais. Imagino um grande fórum onde o Ministério da Ciência e Tecnologia, universidades, centros de pesquisa, possam fazer um documento que sirva de plano para a astronomia brasileira. É preciso rever e reavaliar projetos, evitar a injeção precipitada de recursos. A reunião é para dar subsídios para isso. Porque hoje a coisa, no Brasil, funciona assim: a maioria leva, as áreas que já têm mais gente se mantêm. Isso não é bom, pois a astronomia se renova, velhas perguntas são respondidas e novas questões surgem.