ABC adota ônibus de combustível híbrido

Evelin Ribeiro - O Estado de S.Paulo

Todas as semanas, a aposentada Alice Haruao, 66 anos, faz o mesmo trajeto: sai de sua casa, do bairro de Rudge Ramos, em São Bernardo do Campo, no ABC, e vai ao centro fazer compras para a casa. Num sábado de outubro, quando entrou no ônibus, puxou conversa com um rapaz e comentou sobre o tempo, como de costume. Estava uma tarde abafada, com céu cinza e sol encoberto. "Com certeza é por causa da poluição", disse ela.O que Alice não sabia é que aquela sensação tem algo a ver com o efeito estufa. E o ônibus em que ela entrou foi projetado exatamente para diminuir a poluição. Os oito ônibus elétricos híbridos existentes no transporte público de São Bernardo estão em circulação desde 2005. Esses veículos, em vez de serem movidos unicamente por diesel, como os outros 338 veículos da frota, ganham as ruas com 45 baterias elétricas instaladas na parte superior. A diferença em relação a outros ônibus elétricos já existentes é que o híbrido não busca energia na rede elétrica. Ele gera a própria energia a bordo.O motorista Roque Jerônimo, um dos mais experientes da empresa de transporte coletivo no município, explica: "O ônibus tem um pequeno motor a diesel, com aceleração baixa. O motorzinho move um gerador que carrega as baterias lá do teto." Com essa tecnologia híbrida, o ônibus polui cerca de 90% menos que os outros.Os veículos comuns utilizam combustíveis derivados de petróleo, como o óleo diesel e gasolina - os maiores responsáveis pela liberação de dióxido de carbono no ar, principal substância causadora do efeito estufa. Quanto mais o motorista acelera, maior a exigência do motor em consumir combustível e, em conseqüência, maior é a poluição. "Quando eu piso no acelerador aqui, o motor a diesel não acelera, só o motor elétrico. Por isso, não polui", conta Jerônimo.O estudante Adriano Plesskott, de 20 anos, é passageiro da linha 29, um dos itinerários mais longos - cruza toda a cidade de São Bernardo. Para ele, a maior diferença é que os híbridos andam mais devagar. "Mas é pouca coisa. Se for para haver uma recompensa para o meio ambiente, vale a pena", diz.O gerente de Planejamento da SBC Trans, Lindolfo Soares, explica que, ao dar a partida, o motor a diesel chega à chamada "rotação ideal": o ponto no qual há o menor consumo de combustível por unidade de potência gerada e a menor emissão de gases poluentes."Os benefícios causados com a melhora na qualidade do ar beneficiam toda a comunidade, usuários e não usuários do transporte público, com diminuição de doenças cardíacas, respiratórias e alérgicas, entre outras. Estudos mostram que até o stress tem causa na má qualidade do ar", destaca Soares.Além da tecnologia menos poluente, esses veículos são adaptados a deficientes físicos e, por terem o piso rebaixado, não podem trafegar por qualquer tipo de rua. "É um conjunto de fatores que nos permitirá aumentar a oferta desse tipo de veículo."A recepcionista Miriele Santos, de 23 anos, afirma que, muitas vezes, espera no ponto mais tempo, até que o híbrido passe, em vez de entrar em outro tipo de veículo. "Eu sei que esse tipo de ônibus ajuda a diminuir o aquecimento global. Então, a gente tem que apoiar para que tenha cada vez mais." * Evelin Ribeiro é aluna da Universidade Metodista de São Paulo