A voz dos adolescentes

Ciça Vallerio - O Estado de S.Paulo

Com base em pesquisas, a psicóloga Silvana Martani traçou o perfil dos adolescentes hoje, no livro Manual Teen

A cada ano aumenta o número de adolescentes atendidos na clínica da psicóloga Silvana Martani. Indício de que alguma coisa não anda bem. Foi então que a especialista sentiu a necessidade de escrever um livro para essa turma, que se mostra cada vez mais perdida e desassistida. "Quero ajudá-los antes que batam na porta do meu consultório", afirma. Durante três meses, Silvana frequentou as principais livrarias de São Paulo para fazer um balanço de tudo o que havia nas prateleiras. Percebeu, então, que faltava um livro que revelasse a opinião e conhecimento dos adolescentes em várias frentes. Daí surgiu o desejo de realizar uma pesquisa entre a moçada. "Não é possível escrever para um grupo que não conhecemos", ressalta a psicóloga, que também atende na Clínica de Endocrinologia e de Transtornos Alimentares do Hospital Beneficência Portuguesa. "O levantamento serviu para nortear o perfil desse jovem, e deixar claro as informações que ele detém, o que é essencial para elaborar o conteúdo." Seguindo as especificações da Associação Brasileira de Normas Técnicas, foram aplicados 3 mil questionários, divididos em 17 categorias, cada uma abrangendo um tema: aprendizagem, disciplina, sexualidade, orientação vocacional, preconceito, violência, drogas, entre outros. Participaram jovens de 11 a 18 anos, que foram entrevistados nas ruas da cidade de São Paulo e em três escolas públicas e uma particular. Com os dados em mãos, a psicóloga definiu os temas e escreveu o Manual Teen (Wak Editora), publicação que este ano ganha sua segunda edição. Mentora do projeto, Silvana reuniu vários profissionais e montou uma equipe multidisciplinar, para que cada capítulo tivesse a chancela de especialistas. "Marcamos muitos jantares para discutir e avaliar os resultados da pesquisa", conta. "Foi um trabalho intenso, mas que valeu muito a pena." O livro desperta não só o interesse dos jovens, mas serve também para orientar os pais, que, segundo a organizadora Silvana, andam muito sem rumo. O que mais a surpreendeu na pesquisa? Vários números desta pesquisa são surpreendentes, mas acho que posso mencionar dois que contrariam a crença popular com relação ao adolescente. Primeiro: 95,28% dos jovens acham que os pais devem ser amigos dos filhos, mas que não devem se esquecer do papel de pais. A sociedade acredita, de alguma forma, que o modelo "linha dura" - ou seja, dar limites, selecionar ambientes e lugares adequados para os filhos, se importar com quem eles andam, etc. - está fora de uso. Para nós ficou claro que o jovem espera que os pais ajam de uma maneira cuidadora e acreditam naqueles que exercitam seu papel muito mais do que no modelo "amigão/cúmplice". Segundo: 38,96% dos entrevistados não acham que as meninas que engravidaram na adolescência sabiam como evitar filhos. A sociedade, os pais e a escola (muitas vezes) consideram que os jovem estão instruídos sexualmente por tudo o que é visto e mostrado, mas como a maioria não é orientada, nem na escola nem em casa, não sabe com alinhavar as informações. Você acha que o jovem é malinformado em outras áreas, não apenas a da sexualidade? Sim, nosso levantamento mostrou isso de uma maneira assustadora.Uma coisa precisa ficar clara: ter acesso a informação não quer dizer aprender. Aprender faz parte do processo de formação e as informações disponíveis nos meios de comunicação não são transmitidas de uma forma adequada para o universo adolescente, mas sim para adultos já formados. Logo, o adolescente lê e apreende apenas o que tem condições. A sua maturidade não pode ser comparada a de um adulto. Por que os pais andam tão benevolentes? Os pais se equivocaram. Eles erram na tentativa de acertar. Além disso, na tentativa de acompanhar a evolução da sociedade e dos costumes, passaram a questionar a educação que receberam dos pais e ainda não encontraram o meio termo entre essa e a dos novos tempos. Não é só isso. De uns anos para cá, a carga de trabalho dos pais aumentou consideravelmente. Com menos tempo para os filhos, eles passaram a se sentir culpados e devedores de afeto, atenção, carinho. Resultado: a segurança para dar limites e educar enfraquece. Por conta disso, podemos notar que a educação como um todo passa por uma crise de identidade que vitimiza milhões de jovens no mundo todo. O fato de haver pais complacentes demais seria, então, um dos principais problemas enfrentados pelos jovens hoje? Sim, com certeza absoluta. Nossa identidade é formada pelos aspectos que herdamos, a educação que recebemos de nossos pais e o que observamos na realidade à nossa volta. Se os pais não tiverem valores claros e posturas coerentes, os filhos vão crescer com marcas emocionais importantes por causa desta ausência. E a falta de limites provoca estas marcas. Por isso que os jovens recorrem cada vez mais a tratamentos psiquiátricos e psicoterapêuticos? É sabido que, em função do estresse e da desestruturação de suas famílias, os adolescentes adoecem mais do que antes. Essa foi a razão também para colocar no livro um capítulo sobre Psiquiatria e Psicoterapia. Desmistificar doenças psiquiátricas e seus tratamentos é necessário para que se possa ajudá-los. Sabe-se da força que o grupo ou a turma tem entre os adolescentes - para o bem ou para o mal. Como pais e jovens podem distinguir o joio do trigo? É função dos pais e também da escola orientar os jovens quanto ao que é certo e errado, bom e ruim, para eles e para os outros. O problema é fazer valer o certo. Isso só é possível com limites claros e valores sólidos na educação destes jovens. Percebemos que falta muita conversa entre pais e filhos, principalmente na adolescência, muito em função do estilo de vida atual, somado ao estresse, falta de tempo e desinformação. Você cita uma particularidade muito atual do adolescente: com a tecnologia, jovens estão fazendo dos seus quartos verdadeiras trincheiras e se isolam do mundo e de todos. Qual é o problema disso e como os pais podem agir num caso desse? Montar um quarto "tecnologicamente correto", ou seja, computador, TV, som, videogame, DVD, é ótimo, desde que não se esqueça de que lugar de almoço e jantar ainda é a mesa, e a conversa pode se dar na casa inteira. Os pais devem incentivar hábitos saudáveis, para que a família exista como uma unidade e todos façam refeições juntos, conversem na sala, saiam juntos, mesmo que uma vez por semana. Isso faz toda a diferença na construção da identidade do jovem. Para os mais retraídos, esses quartos são um convite a não se integrarem nem com a família nem com ninguém. Os alunos andam displicentes com os estudos e desrespeitosos com os professores, mas a pesquisa apontou que a maioria se considera estudiosa (64,19%), gosta das aulas dos professores (75,80%), se considera disciplinada (76,49), etc. Como explicar essa incongruência? Os jovens não percebem o quanto estão inadequados em suas posturas e educação, pois, da maneira como tratam seus professores e escolas, também tratam seus pais e sua casa. Jovens que não respeitam seus pais não serão capazes de respeitar nada ou ninguém. O jovem é o mesmo em casa e na escola: logo, se os pais não se opõem frontalmente aos comportamentos inadequados dos filhos, orientando-os, este comportamento passa a ser "certo". Assim, o jovem passa a ter uma fantasia a seu respeito: "bom aluno", "disciplinado", "educado", etc. Jovens entram em contato com drogas lícitas e ilícitas cada vez mais cedo. Entre os entrevistados, 8,97% já utilizaram ou utilizam algum tipo de droga. Apesar de baixo, o que este índice revela? Este é o porcentual que admite ter usado, mas 25,64% dos jovens têm amigos usuários, o que é um risco iminente, apesar de muitos pais não acharem isso ou se enganarem. Com amigos usuários é só uma questão de tempo para que este jovem se torne usuário também. Entre os entrevistados, o principal lazer é internet. Em segundo lugar, vem a televisão e, em terceiro, música e atividades culturais. Qual seria o grande problema de navegar tanto pela web ou ver TV? O problema é não saber o que fazer com as informações e imagens às quais têm acesso. Quando se entra em contato com imagens e informações sem maturidade para digeri-las, pode-se comprometer a integridade, tanto emocional como intelectual. Quando fala sobre sexualidade, você alerta para os exageros, como transar com um monte de gente ao mesmo tempo ou tomar Viagra aos 16, 17 anos para manter a ereção prolongada e dar conta de muitas meninas. Isso tem sido comum entre os adolescentes? Sim, muito. Nos últimos anos, por conta da erotização nos meios de comunicação e da supervalorização dos desempenhos sexuais, os casos de comprometimento nesta área têm aumentado muito, principalmente entre os jovens. Outro fato surpreendente refere-se aos métodos contraceptivos. Apesar de os números mostrarem que os adolescentes conhecem o tema, 41, 55% acreditam que gozar fora impede a gravidez - e isso é desinformação mesmo! Cá entre nós, tem adulto que acha o mesmo, não é? Muitas das atitudes dos jovens são decorrentes de pressões dos amigos, principalmente no que se refere ao sexo, que se tornou uma moeda forte entre os adolescentes, por representar audácia, prestígio e popularidade. O que essa pressão pode causar? Por pressão dos colegas, os jovens podem passar a se comportar de forma artificial, impondo a si condutas e comportamentos que ultrapassam seus limites, o que compromete qualquer equilíbrio estrutural. Razão pela qual é essencial os pais mostrarem aos filhos como devem se respeitar, para não se submeterem às pressões dos colegas.