A última palavra contra ecochatos

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

Leona Johansson tem 25 anos. Tommy Ellisen, 32. Ambos conservam a cara e o físico de quem veio ao mundo a passeio. Mas, somados, formam um casal de veteranos. É seu o maior currículo na internet em militância "ecoerótica sem fins lucrativos". Desde o inverno de 2003, a dupla trata de provar que há gente disposta a dar tudo, mas tudo mesmo, pela salvação das florestas tropicais, ameaçadas de desaparecer "nos próximos 40 anos", se eles não fizerem alguma coisa.O que eles fizeram se chama FFF, um site de pornografia ambientalmente correta. Estrelado, evidentemente, por Leona e Tommy, embora eles peçam contribuições, em forma de "vídeos ou fotografias", a simpatizantes "e artistas". Desde que surgiu em Berlim, com um empurrãozinho do governo norueguês, responsável por suas despesas de inauguração, a FFF arrecadou mais de US$ 350 mil, pingados por visitantes para ver o que acontece por trás das folhas de parreira, no front mais radical da militância ecológica.A conservação da natureza, na FFF, fica entregue às segundas intenções. As primeiras intenções são claras até para a motosserra da capa, que aponta para a moça nua e de joelhos, pronta para qualquer sacrifício pelas árvores que, à retaguarda, aguardam passivamente o resultado das negociações entre os verdadeiros protagonistas de seu drama. A FFF não perde tempo com sutilezas. Dos três efes de seu nome, os dois últimos significam, em inglês, "pela floresta", e o primeiro quer dizer a mesma coisa até em língua portuguesa.A renda de todo seu esforço é para salvar florestas. Mas nem sempre elas vêem a cor desse dinheiro, porque muitas ONGs no meio do caminho consideram a origem da doação meio suspeita. Isso não impediu um programa de reflorestamento na Costa Rica, a Arbofilia, de embolsar US$ 90 mil da FFF. Outros US$ 90 mil foram entregues a americanos, que ensinam índios no Equador a recuperar suas matas ancestrais. Não é à-toa que a página tem slogans do tipo "Recicle a Pornografia!"."Nós sabíamos que, mais cedo ou mais tarde, encontraríamos um projeto para apoiarmos", disse Leona à Grist, uma revista eletrônica especializada em jornalismo ambiental, que descobriu o casal há quatro anos e acaba de revisitá-lo. Com a prática, Leona e Tommy aprenderam que o movimento ambientalista "ficou bastante parecido com uma indústria institucionalizada, trabalhando com os mesmos setores que destroem o meio ambiente".Em outras palavras, ela afirma que o dinheiro deles é limpo, perto do que vê por aí, no mercado de patrocínios. E encontrou na Grist uma tribuna à altura. O site, publicado em Seattle, dedica-se a apimentar o ambientalismo com reportagens capazes de desfazer a má impressão de que notícia verde é sinônimo de legume cozido em água sem sal. Segundo seus editores, o planeta pode sentir falta de quase tudo, menos "de beatos que abraçam árvores".A Grist proclama que não quer nem saber de "ficção, poesia, narrativas de viagem, meditações sobre a natureza e perfis de organizações ambientais". Só aceita colaboradores que apurem temas inéditos em lugares inóspitos e escrevam de um jeito que mate de rir um burocrata. Tudo isso, ganhando pouco. Portanto, se seu problema com o meio ambiente era o medo de ecochatos, acabaram-se as desculpas. * É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)