A turma do desconto

Rosângela Rezende/ESPECIAL PARA O SF - O Estado de S.Paulo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A internet trouxe as compras para dentro de casa e revolucionou o comércio. Mas quem achava que escolher produtos e serviços pelo computador era o melhor que podia acontecer tem dificuldade em acreditar que o mercado das superofertas também entrou tela adentro. Promoções que começam em 50% e vão até 98%! Tal "milagre" nada mais é do que a última novidade do comércio eletrônico: os sites de compras coletivas, que conseguem oferecer excelentes descontos ao mobilizarem um número mínimo de consumidores para adquirir certo item.

 

Por esse modelo, um tratamento para gordura localizada, por exemplo, passa de R$ 166 para R$ 19,99, um desconto de 88%. Com uma economia de 90% do preço original, um curso de fotografia sai por módicos R$ 38. E aquele delicioso frozen iogurte fica por R$ 1,50 (valor 79% abaixo do normal), mais barato que uma passagem de ônibus. "Tem descontos sensacionais, é difícil de acreditar", afirma a gerente de marketing Fabiana Han, de 31 anos, que, seduzida pelas ofertas e pela praticidade, já adquiriu massagens, tratamentos capilares e alimentos, e tornou-se uma fiel consumidora das compras virtuais em grupo.

 

O preço atrativo só se concretiza, porém, se o número de compradores estipulado for alcançado dentro do prazo da promoção, que normalmente é de 24 horas. Caso não se atinja o mínimo exigido, a oferta é cancelada e quem já comprou nem chega a ter o valor debitado no cartão de crédito. Para impedir cancelamentos, os sites de vendas conjuntas pegaram carona no sucesso das redes sociais e em sua capacidade de espalhar informações rapidamente, arregimentando consumidores. Facebook, Twitter, Orkut são amplamente utilizados para divulgar os megadescontos. O resultado é um crescimento veloz desse tipo de negócio.

 

Para se ter uma ideia, o pioneiro do ramo é o site Peixe Urbano, surgido em março. Seis meses depois, mais de 20 similares proliferaram País afora. "Brasileiro adora promoção, novidade, e gosta de usar a internet de forma social", afirma Júlio Vasconcellos, de 29 anos, citando os motivos que o levaram a criar, com dois sócios, o primeiro e maior site de compras coletivas do Brasil, hoje com mais de um milhão de usuários cadastrados em 15 cidades. Economista especializado em e-commerce, Vasconcelos viveu por 10 anos nos Estados Unidos, de onde importou o modelo de comércio eletrônico, no qual os sites ganham pela comissão sobre cada venda.

 

O negócio alavanca o poder de mobilização da internet, colocando em contato bons prestadores de serviços de cada cidade e um número grande de consumidores interessados em conhecer novos estabelecimentos próximos de suas casas. É o caso da gerente Fabiana, que conheceu o Peixe Urbano há quatro meses por indicação de um amigo e, agora, está decidida a trocar a antiga clínica de estética onde fazia drenagem pela que conheceu no site.

 

"Fui muito bem atendida e ela fica mais perto de onde moro", justifica. "Talvez nunca tivesse parado lá se não fosse esta oportunidade." Setenta por cento das compras do Peixe Urbano são realizadas por mulheres, que preferem os serviços de beleza e estética.

 

Consumo por impulso. A facilidade de utilização desses sites é um atrativo a mais. Para fazer parte, basta preencher um cadastro conciso (talvez o mais sintético que você já tenha visto) que o habilita a receber o e-mail matutino com a oferta do dia, e a comprar, se quiser. Ao lado da promoção, um cronômetro aponta o tempo que falta para esgotar o prazo e a quantidade de consumidores que efetuaram o negócio. Assim, é possível acompanhar se a compra será confirmada ou não. O pagamento é feito com cartão de crédito e o comprador recebe por e-mail um voucher, que deve ser impresso e levado ao estabelecimento parceiro, conforme as condições definidas antes da compra. É importante ler as informações do anúncio, que são claras quanto a prazo de validade, restrições de horário e necessidade de agendar o serviço.

 

Com toda essa praticidade, e o chamariz das ofertas, difícil é se conter e evitar consumir por impulso. "Você vê a contagem regressiva, a oferta acabando, e pensa: 'não vou comprar? Vou perder?’ E acaba comprando", relata o empresário Cristiano Morozino, de 25 anos, sobre sua própria experiência inicial como usuário desses sites. Ele já efetuou mais de dez compras e não usou ainda nem a metade dos vouchers. Uma das ofertas, inclusive, nem vai poder mais utilizar, pois o restaurante fechou. E ele só soube do fato quando recebeu um e-mail do site responsável, avisando do estorno do dinheiro.

 

"Quem compra muito é quem acabou de conhecer este tipo de comércio", afirma. "Depois a pessoa se acostuma e começa a pensar se vai dar tempo de usar, se é perto de casa, se já utilizou as ofertas compradas antes." Cadastrado em três sites de compras, atualmente Cristiano utiliza mais o Clube do Desconto, um dos mais novos do mercado e com o diferencial de parcelar as superofertas em até duas vezes e oferecer bônus de R$ 12 por amigo indicado que se torne cliente do site.

 

A estudante de Rádio e TV Mariana Brito, de 21 anos, é mais uma que virou usuária frequente deste tipo de site por indicação de um amigo. E já espalhou a boa nova para outros seis. "Dois já compraram e eu ganhei bônus de 10 por cada um", conta ela, que no início teve receio de consumir, por medo de clonagem de cartão e dados pessoais. "Também tinha insegurança de chegar com o cupom na loja e me perguntarem: cadê o dinheiro?" Como nada disso aconteceu, Mariana não parou mais de comprar: já adquiriu bombons, curso de culinária japonesa, massagem capilar, sessão de shiatsu e até escalada indoor.

 

No negócio das compras coletivas, fidelização é uma palavra chave. O internauta visita um site, gosta das ofertas, indica para um amigo, ganha um bônus, vira cliente habitual. Ao utilizar o serviço adquirido, conhece um novo estabelecimento, que o atende bem, no intuito de fazê-lo retornar. "Com a promoção no Peixe Urbano, tivemos um aumento de público de 30%, além dos que vieram com o cupom da oferta", revela Meg Mattani, gerente de marketing do restaurante Chalezinho. Em agosto, a casa ofereceu um fondue salgado e outro doce para duas pessoas com desconto de 56%, o que se tornou o maior caso de sucesso do site, com 6.934 vouchers comercializados em 24 horas. O resultado foi tão positivo que acelerou os planos da empresa de abrir outra unidade na capital.

 

Na medida em que a segurança tecnológica evolui, os crimes digitais se aperfeiçoam e se intensificam. Cabe ao internauta ficar atento e observar as seguintes orientações do perito em crimes digitais, Wanderson Castilho, diretor da E-Net Security:

 

Sempre confirme se a loja existe fisicamente. Busque recomendações sobre o estabelecimento.

Tenha atenção redobrada quando estiver digitando seus dados confidenciais no site. Verifique se o endereço http virou https ou coisa parecida. Em caso positivo, a transação de dados entre sua máquina e o site não está segura.

 

Realize uma pesquisa em sites de buscas sobre o endereço eletrônico que você quer comprar. Costumam aparecer comentários em blogs ou fóruns denunciando páginas fraudulentas.