A serra fluminense de volta aos bons tempos

Marcos Sá Corrêa* - O Estado de S.Paulo

O Corredor Ecológico do Muriqui é uma boa notícia sobre a mata atlântica, assunto que há 500 anos o Brasil condena à lamúria. Trata-se de um projeto para recompor um mosaico de 240 mil hectares. Unirá, pela crista da serra fluminense, os parques estaduais do Desengano e dos Três Picos, atualmente separados por seis municípios e 70 quilômetros de retalhos florestais descontínuos, num mar de capinzais estéreis. Quem conhece o interior do Rio de Janeiro custa a acreditar nessas histórias. São regiões que praticamente acabaram com suas florestas, exceto as entrincheiradas em encostas inacessíveis. E nem assim se livraram da indústria artesanal do carvão vegetal, que abastece as olarias no nordeste do Estado. Essas fábricas de tijolos alimentam as favelas nas cidades à custa do desmatamento clandestino que patrocinam no campo, sustentando o trabalho bruto dos carvoeiros - gente para lá de pobre, disposta a subir encostas quase a pino e acampar em capoeiras que parecem fora do alcance de suas mulas ou seus machados, para queimá-las. Tudo por caraminguásDiante de uma economia tão bem organizada para devastar, fica difícil entender o Corredor do Muriqui, até que André Guimarães, diretor executivo do Instituto BioAtlântica e gestor do projeto, começa a defendê-lo, com verve treinada em curso de MBA. Cabe-lhe convencer fazendeiros, sitiantes, hoteleiros e prefeitos a fazer parques ou reservas particulares nos fundos de suas terras. Há 5 mil propriedades rurais em volta do eixo florestal que Guimarães espera remendar. A maioria tem, no máximo, 50 hectares. E, no mínimo, graves problemas de regularização fundiária, que um reflorestamentozinho poderia resolver. Mas o grande aliado do corredor é a topografia daquele trecho da Serra do Mar, tão escarpada que, a rigor, nunca serviu mesmo para boi - ou cabra. É lugar mesmo de muriqui, macaco quase extinto, que vive de preferência em florestas acima dos 600 metros. Esse trunfo geológico, sólido como rocha, o projeto tem de sobra. Ele sempre esteve ali, dando sopa, oferecendo-se de graça aos proprietários, que nem por isso desistiram de abrir pastos morro acima, muito além do ponto a partir do qual o gado bufa na subida e o solo ronca ladeira abaixo nas enxurradas. NOVA TENTAÇÃONas montanhas do Rio de Janeiro, o que se costuma chamar de paisagem leva a marca dessa teimosia histórica. Só que agora ela estará diante de uma nova tentação, em forma de assistência técnica e jurídica para assentar suas cercas sobre títulos legalizados. Vinte e tantos proprietários já aceitaram a ajuda do BioAtlântica para registrar suas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs). Notícia boa, quando dá para ser convincente, puxa um fio qualquer de lembranças pessoais, ressoando como nota em bojo de viola. A conversa de Guimarães foi mexer diretamente nas memórias de uma fazenda em Trajano de Moraes, há mais de 40 anos. Sua mata ficava no alto de uma trilha tão empinada que as batatas da perna não se esqueceram da escalada até hoje. A água da casa vinha de lá, por aqueduto. Quando precisava de pau para toda obra, o fazendeiro rolava pela vertente a madeira de lei que as juntas de boi iam buscar a meia encosta. Trajano de Moraes fica agora no Corredor do Muriqui. A tal mata ninguém mais sabe dizer aonde foi parar. * É jornalista e editor do site O Eco (www.oeco.com.br)