''A pandemia vai exigir cooperação mundial''

Jamil Chade - O Estado de S.Paulo

Para a ex-ministra da Saúde de Hong Kong, a gripe suína não é suave e patentes não serão obstáculo entre os países

iretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Margaret Chan, rejeita a tese de que a gripe suína seja um fenômeno suave, alerta para o "potencial real de uma pandemia" e diz que o Hemisfério Sul será testado no inverno. Em sua primeira entrevista a veículos de imprensa latino-americanos desde o surgimento da gripe, Chan mandou um recado ao Brasil: a questão das patentes de antivirais e de vacinas não será obstáculo e os países poderão comprar remédio onde acharem melhor, inclusive de fabricantes de genéricos.   Mais informações sobre a gripe suína e evolução dos casosEla só evitou responder se a OMS, pressionada por países ricos e empresas, ajudaria governos a quebrar patentes quando necessário e a produzir os remédios localmente. Em vez disso, pediu que o compartilhamento de informações seja total. Ex-ministra da Saúde de Hong Kong, Chan ficou conhecida nos anos 90 por ter ordenado o sacrifício de 1,4 milhão de aves no país para evitar uma epidemia de gripe aviária à época. A seguir, trechos da entrevista. O esquema de alerta da OMS foi criticado. Apesar disso, a OMS ainda considera declarar pandemia? Uma pandemia é uma fase definida por cientistas em um entendimento que foi negociado por dois anos entre governos. Queríamos transparência na forma de tomada de decisões. Agora, o critério para a declaração de uma pandemia é geográfico. Vai depender se teremos uma proliferação do vírus para fora das Américas. A senhora considera que o mundo já está nessa etapa? Não estamos nessa fase ainda. Mas é imprevisível o que pode ocorrer. Temos de continuar monitorando a situação e manter vigilância total. Se decidirmos ir à fase da pandemia, temos de informar a governos e cidadãos o que isso significa. Mas, para os governos, a realidade é que não haverá diferença do que estão fazendo hoje. Mas sabemos que a declaração terá um impacto psicológico importante. As pessoas ficarão ansiosas. Mas isso é normal, não? Claro. Mas temos de explicar que a declaração de uma pandemia não significa que cada pessoa no mundo será atingida nem que cada país será afetado. O mundo precisa saber que, mesmo que haja uma pandemia, a vida continua. Não vamos pedir para as pessoas se trancarem em casa. Durante a Sars (Síndrome Respiratória Aguda Severa), essa foi a reação das pessoas. O custo econômico disso foi enorme. O inverno no Sul está chegando. Devemos esperar um surto? Esse será um teste. Pela experiência, a época de gripe começa agora. Com o vírus A(H1N1) chegando, ninguém sabe o que vai ocorrer. Quero deixar claro que os governos precisam fortalecer seus mecanismos de monitoramento. Se isso não ocorrer, não haverá como lidar com a doença e um eventual surto. Mas como países pobres poderão lidar com mais uma doença, com seus sistemas de saúde a ponto de colapso? Nossa recomendação é para que todos os países nos informem imediatamente caso tenham dados sobre casos ou surtos. Nosso plano será o de apelar para recursos internacionais e, assim, ajudar os países que necessitem. A verdade é que o mundo está nisso junto. Essa pandemia vai exigir uma cooperação mundial. O planeta já experimentou outras pandemias, mas essa é a primeira que ocorre diante de nossos olhos, por causa de nossa capacidade de acompanhar o que ocorre a cada minuto. A OMS está se tornando uma polícia mundial em busca de um ladrão. Estamos nessa busca 24 horas por dia e vamos até onde for necessário. Mas os países mais pobres podem de fato sofrer mais que os ricos. Em 25% dos casos houve vômito e diarreia. Se esse vírus estiver sendo transmitido também por esgoto, países com infraestruturas precárias podem sofrer mais. Teremos de promover campanhas para lidar com isso. No Brasil e em outros países emergentes, uma questão é o acesso a remédios e vacinas. Os países terão o direito de quebrar patentes? Estamos preocupados com a capacidade de produção e a qualidade dos remédios. Mas posso garantir que a questão das patentes não será o obstáculo. A OMS acaba de pré-qualificar um antiviral genérico (da Cipla) e cada país pode escolher de quem irá comprar. Em países onde o antiviral Tamiflu é patenteado, a importação desse genérico exigirá quebra de patentes. A OMS vai apoiar? Os tratados de propriedade intelectuais são claros e os países sabem muito bem seus direitos. Já se pode dizer que o A(H1N1) é um vírus suave ou tão fraco como o da gripe sazonal? Não estamos diante de um vírus normal. Essa doença é um alvo que se move todos os dias. Ninguém pode prever o que ela será. O vírus está se espalhando, está se desenvolvendo e ainda vai mudar. Mas não sabemos ainda em qual direção. Qualquer pandemia do A(H1N1) seria mais forte que a da gripe. Sabemos que ele pode matar e o problema é que o mundo não tem imunidade. O mundo está virtualmente suscetível à essa doença. Muita gente acredita que há um exagero nos alertas. É verdade que vimos muitos casos suaves. Mas o que eu alerto é que não podemos nos deixar ser enganados por esse vírus. O maior perigo agora é de que todos digam que os riscos já acabaram e começam a baixar a guarda. Não podemos ser complacentes. Poderemos ser surpreendidos. Vamos ser claros, esse vírus tem o potencial de ser uma verdadeira pandemia.