''A opinião da USP será a minha''

Renata Cafardo - O Estado de S.Paulo

Ele diz que prefere seguir decisões de colegiados em assuntos polêmicos como a participação no Enade e mudanças nas eleições

O engenheiro eletricista Ruy Altafim não gosta muito de dar sua opinião sobre assuntos polêmicos da Universidade de São Paulo (USP). Não se posiciona contra ou favor de a instituição participar de avaliações nacionais ou sobre a mudança nas regras da eleição para reitor. "A minha opinião pessoal vai ser aquela que a universidade decidir como tal", diz.

Seu plano de gestão como candidato a reitor tem só uma página e fala em "participação para uma USP mais democrática". Para ele, a sociedade conhece e participa pouco das atividades da universidade.

Altafim, de 52 anos, gosta mesmo é de falar sobre extensão universitária - área menos valorizada do que graduação ou pesquisa e da qual ele é pró-reitor. "Extensão é aquela atividade em que a pesquisa e o ensino são indissociáveis. Se vou dar uma assistência odontológica a um paciente, atrelado a isso tem o treinamento dos alunos, que recebem orientação de professores."

Ele é o segundo pró-reitor da gestão Suely Vilela que se declara candidato a substituí-la. Além de professor de Engenharia do câmpus de São Carlos, Altafim é artista plástico. Durante a entrevista ao Estado, falou muitas vezes usando a primeira pessoa do plural e revelou pensamentos que ele mesmo chamou de "filosóficos". "Eu percebi que cada um de nós tem um eu que mora nas outras pessoas", disse, ao explicar seu relacionamento com a reitora.

O seu programa fala de "excelência com participação para uma USP mais democrática". O que quer dizer com isso?

A excelência já existe, a USP é um patrimônio e um dos orgulhos do Brasil. Estamos entre as 50 melhores universidades do mundo. A ideia é manter essa excelência e para isso temos de ter a participação de todos. Abrir os canais da universidade para que possam emitir suas opiniões, essa é a tônica.

Como?

Temos várias mídias, podemos usar os organismos que já temos para abrir canais de diálogo. Muitas vezes os problemas da universidade são por falta de diálogo, de respeito, de entendimento do outro. Mas essa participação não é só interna, a sociedade precisa ser ouvida. Como eu venho de uma área extensionista, em que a universidade interage com a sociedade, vejo que os seus anseios não são ouvidos. Precisamos ter a imprensa dentro da universidade, ter um livre canal.

O senhor vê problemas na comunicação e na divulgação na USP?

A USP tem excesso de veículos de comunicação: cada unidade, cada departamento tem seu jornalzinho. É como se fosse um engarrafamento de informação, você acaba não indo para lugar nenhum. Nosso objetivo é que tenhamos menos veículos, mas que possam receber encartes. Uma faculdade que tem uma comunicação específica coloca um encarte no jornal da USP.

Por que o senhor resolveu ser candidato a reitor?

Os pró-reitores são naturalmente candidatos a reitor, uma vez que o vice-reitor não pode por questão de idade. Colocamos o nosso nome, com a visão extensionista. A visão de uma sociedade muito mais participativa. A USP hoje executa muita coisa, mas não tem divulgação. Temos nossos hospitais, ações na Amazônia, em prefeituras. Nós sabemos que a USP é importante. Mas quão importante? A sociedade só sabe isso se conhece as pesquisas, as ações.

A reitora declarou voto ao senhor?

Voto é uma coisa do coração, porque é secreto. Quando nós colocamos o nosso nome, ela não se opôs. Nós somos da gestão, participamos dos frutos.

Havia trabalhado com ela antes de ser chamado para a pró-reitoria?

Antes de ser pró-reitor, tivemos apenas quatro encontros que se resumiram a poucas palavras. O primeiro, após uma apresentação que fiz pela pró-reitoria (ele era pró-reitor suplente) para o secretário da Ciência e Tecnologia. Ela falou: "Gostei." A segunda vez foi em uma reunião, ela era candidata a reitora e perguntou se eu iria votar nela. Eu disse que não poderia votar porque estava apoiando outro candidato. A terceira vez foi numa festa e ela falou: "Passa lá para nós conversarmos." E a quarta frase foi: "Você quer ser meu pró-reitor?" Eu percebi que cada um de nós tem um eu que mora nas outras pessoas. Filosófico, não?

Como o sr. analisa a gestão dela?

Eu me sinto à vontade para analisar pela pró-reitoria de extensão. Nós tivemos uma conceituação melhor do que é extensão universitária: é aquela atividade em que a pesquisa e o ensino estão indissociáveis. Se vou dar uma assistência odontológica a um paciente, atrelado a isso tem o treinamento dos alunos, que recebem orientação de professores. E esse grupo de pacientes pode estar relacionado a determinada patologia, aí se cria uma pesquisa e se faz treinamento com cursos de extensão. Nós tivemos a implantação de uma série de programas que valorizaram a extensão, como o circuito USP esportivo. Ele se tornou profissional, ou seja, um grande laboratório real para as nossas faculdades de Educação Física. Isso tudo é um grande ganho da gestão Suely.

E os conflitos, as greves?

Temos de estar sempre trabalhando para encontrar mecanismos de negociação. E houve negociação, tanto que a greve acabou. Mas as pessoas não ficaram contentes, é normal. Eu sempre falo para o meu filho: "Você pode pedir o que você quiser, Ferrari, Rolex, avião, helicóptero." Depois ele pede lenço, cueca. Daí, senta a família e pensa, o que vamos fazer? Ele não vai poder ter Ferrari. Negociação é isso. Eu não participei das negociações, mas votei no conselho universitário que decidiu pelo encaminhamento que foi dado (polícia no câmpus). Houve uma violência contra a universidade. Ninguém perguntou como o professor Rui Altafim se sentiu aqui dentro, quando não me permitiram ter acesso ao gabinete. Eu só queria trabalhar. Os alunos me proibiram. Eles não sabem o que eu vi aqui. Eu fui impedido de pensar.

Há uma investigação sobre a compra que o senhor fez de laptops para os membros do conselho de extensão.

Eu achei um preconceito contra uma inovação. Comprei 56 laptops, seguindo as diretrizes de que deveríamos comprar em lotes para reduzir os preços. Houve licitação. O problema é que as atas das reuniões do conselho exigiam material impresso muito volumoso, com 125 mil folhas. Gastava-se R$ 15 mil a R$ 20 mil por pauta. Então eles passaram a ver as atas pelo laptop, houve economia. Os computadores são patrimoniados, são da USP. Não são dos professores. Algumas pessoas não entenderam o que aconteceu. Nós ficamos muito chateados com tudo.

A USP decidiu mais uma vez que não participará do próximo Enade. O senhor concorda?

Nós temos um conselho de graduação, formado por presidentes das comissões de graduação de todas as unidades. Esses conselhos estudam essa problemática há muito tempo. A USP está tentando encontrar uma forma de participar sem que haja um boicote de alunos, que venha denegrir a sua imagem. Os instrumentos precisam ser aprimorados. Mas se nós estamos sendo avaliados por rankings internacionais, é importante que sejamos avaliados por nacionais.

Mas o senhor concorda com a não participação ?

A minha opinião ficou irrelevante, o reitor não pode obrigar a USP entrar no Enade. O reitor pode pautar, agendar.Mas tem de levar a opinião da universidade, por mais dura que seja.

O senhor pretende mudar as regras da eleição para reitor?

Temos de pautar o assunto. Temos de discutir e ter propostas.

Mas qual sua opinião a respeito?

Qual é a opinião? É aquela que a universidade decidir. A minha opinião pessoal vai ser aquela que a universidade decidir como tal. Não tenho uma proposta.

Como a reitora é de uma unidade do interior, o que se tem comentado na USP é que a intenção é eleger alguém que seja da capital.

É importante que o reitor pense a universidade como um todo. Quem pensa isso tem uma mentalidade pequena. A USP é mais que capital ou interior, é o conjunto. Essa é a força da nossa universidade.