A mulher do padre

- O Estado de S.Paulo

Elas driblaram pressões sociais e familiares para se casar com padres que deixaram a batina

Dificuldade. A família de Neide não aceitou o romance logo de cara. Foto: Alex Silva/AE

 

Quando a mãe da cearense Maria Lúcia Moura, de 47 anos, faleceu, ela decidiu estudar Teologia, para entender mais sobre religião e amenizar a revolta que sentiu. Foi quando conheceu José Edson, que ainda estava no seminário e dava aulas sobre o tema, no começo da década de 1990.

 

Lúcia se entusiasmou com o professor-quase-padre. Mas não entendia direito o que estava acontecendo, e sentia medo de ser algo passageiro. "Quando nos aproximamos de fato, faltava apenas um mês para ele se ordenar", lembra.

 

O romance veio com toda a força. Fizeram uma viagem para a festa de bodas de prata de um casal amigo dela. "Foi quando nos entendemos", conta Lúcia. José Edson se ordenou e, quando voltaram a se encontrar, ela sentiu que a coisa estava séria. "Naquele momento, ele era padre mesmo. Eu não sabia como seguiria, embora estivesse gostando daquela situação."

 

José Edson tinha receio de trocar tantos anos de formação por uma história de poucos meses. Mas a relação vingou. Um ano depois, Lúcia engravidou. Apesar de viverem "escondidos", levavam uma vida normal. Ela morava sozinha e, nos fins de semana, davam um jeito de se ver. "Tínhamos de manter certa distância em público. Ficávamos restritos às quatro paredes", conta ela.

 

 

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Quando a história vazou, os superiores da igreja o transferiram para a França, onde ficaria por dois anos. "Foi muito triste. Uma despedida horrível", recorda-se Lúcia, cuja filha estava com apenas 1 ano nessa época. A sorte é que ela tinha o apoio da família.

 

Passados seis meses, o padre voltou para o Brasil. Só que o instalaram em Brasília, ao invés do Ceará, onde estava sua família. Passavam as férias e feriados juntos. Até que Lúcia engravidou da segunda filha e amadureceram a ideia de assumir a relação publicamente.

 

Mariana nasceu em setembro e, em dezembro, ele celebrou a última missa de sua vida, em Brasília. "Acho que foi muito difícil. Ele gostava das celebrações", reflete ela, lembrando que José Edson esperou muito tempo para ter coragem de deixar a vida religiosa.

 

 

 

Drama de Lúcia. José Edson ainda era padre quando ela engravidou. Foto: Arquivo pessoal

 

 

Desafio mútuo. A alemã Irene Ortlieb Guerreiro Cacais, de 70 anos, decidiu ser freira aos 21. Estudou Teologia em Roma e passou uma temporada em Angola, como missionária. Após sete anos, sentiu que o convento não era o seu lugar. "Percebi que tudo o que os superiores diziam ser vontade de Deus era vontade só deles."

 

Em Angola, descobriu que o descontentamento com a vida religiosa não era só dela. Conhecera um padre português, Luís Cacais, que tinha a mesma visão. Passaram a se encontrar, em uma praça pública, para desabafar, e ficavam por ali conversando. "Tínhamos um bom entendimento", diz.

 

Irene garante que sair do convento foi mais difícil do que entrar. "Foi uma luta interior, tinha voto perpétuo. Mas nunca me arrependi." Voltou para a Alemanha. E logo começou a dar aula de religião. Um mês depois, soube que o padre Luís Cacais havia pedido licença de Roma para morar no Brasil. Trocaram correspondências durante um ano, até que decidiram se casar e ela viajou para Brasília. "Resolvi arriscar, mas tinha a passagem de volta, caso não desse certo. Se ele não fosse quem imaginava, voltaria para a Alemanha." Ela chegou a Brasília em julho e, no dia 18 de outubro de 1975, se casaram na igreja e no civil. Com o dinheiro da passagem de volta, comprou uma geladeira.

 

 

Irene. Ex-freira, ela viveu dilemas parecidos com os de seu marido, antes de ficarem juntos 

Irene conseguiu uma vaga como secretária na Embaixada da Alemanha no Brasil. O marido foi trabalhar com o irmão, que tinha uma empresa de construção civil. Também fazia tradução, formou-se em Administração e foi trabalhar no Instituto Goethe. Três anos depois, tiveram o primeiro filho.

 

Hoje são aposentados, mas continuam na ativa. Ele escreve livros, artigos para revistas e faz traduções. Ela é dona de casa e faz trabalhos voluntários. Jamais se arrependeu de ter entrado no convento. "Não queria que faltassem esses 14 anos na minha vida. Ganhei muito e amadureci com a experiência."

 

Cultos. A pedagoga Maria Regina Albuquerque de Queiroz, de 66 anos, lembra que, durante a ditadura militar, muitos padres destacaram-se pela cultura e politização. E alguns deixaram a batina para constituírem família. Ela própria envolveu-se numa situação assim.

 

Conheceu Mauro de Queiroz no colégio onde lecionava português. Ele era vigário e diretor de um dos cursos da escola, na pequena cidade de Recreio, Minas Gerais. Havia um certo afeto. Mas a amizade foi interrompida quando Regina deixou sua cidade para morar na capital e, em seguida, veio para São Paulo. Apesar da distância, nunca deixaram de se corresponder. "Aí foi acontecendo."

 

Mauro, que já protestava contra algumas situações do País, pediu licença da igreja. Queria trabalhar para se manter, mas sempre sentindo necessidade de estudar. Logo, veio parar em São Paulo. Em um ano, se casaram. "Casar é humano", justifica Maria Regina. Foram bem recebidos por ambas as famílias. E o fato de terem saído de Recreio permitiu um certo anonimato, embora nunca tivessem negado sua história. Hoje têm três filhos e dois netos. O marido se formou em Jornalismo, e diz que aprendeu a levar a vida fora do seminário com os amigos do trabalho. "Somos uma família comum", resume Maria Regina.

 

Engajados. Com o sonho de construir um hospital mais humano para a comunidade e a pretensão de ter um País mais democrático, um grupo de profissionais de diversas áreas conviveu muito próximo do então jovem padre Abel, hoje com 78 anos. Entre eles, a auxiliar e técnica de enfermagem Neide de Fátima Martins Abati, hoje com 71 anos .

 

O grupo estava imerso na ditadura militar, e ajudava as famílias de presos políticos e as vítimas de violência. Foi quando Abel decidiu sair do hospital e ser um padre leigo, pois discordava das questões da igreja, e não tinha a oportunidade de ser ouvido. Mais tarde, o tema casamento entrou no programa de estudos de um grupo de padres. E aí foi um pulo para muitos largarem a batina em busca de um amor.

 

Abel e Neide descobriram muitas coisas em comum. "Tínhamos mesmos ideais, mas a decisão de namorar levou muito tempo." A família dela não aceitou logo de cara. Eram religiosos, a mãe já tinha idade.

 

Ela tinha 32 anos e ele, 30. Casaram na igreja, apesar de ter sido difícil encontrar uma que os aceitasse. "Foi um casamento bem moderninho. Meu vestido era branco e curto", descreve, aos risos. Hoje têm quatro filhos, três netos e mais um a caminho. "Não nos arrependemos de nada", resume ela.