''A ideia de que posso escolher dar aula é vista como indigna''

Renata Cafardo e Simone Iwasso - O Estado de S.Paulo

Professor da FFLCH que teve sala de aula invadida diz que é preciso respeitar diferença de opiniões

Os avanços democráticos, o individualismo e a falta de boas causas afastam a maioria dos jovens atualmente do movimento estudantil, diz o diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP, José Alvaro Moisés. "Além das causas não conquistarem corações e mentes, a maioria dos estudantes ainda discorda dos métodos, como a violência e o constrangimento", afirma ele, que é professor da disciplina de Cultura Política e Democratização na FFLCH.Sua aula na faculdade foi invadida no dia seguinte ao confronto entre alunos e policiais militares no câmpus. "A ideia de que eu posso escolher dar aula, que sou servidor público e sou pago para isso é vista como algo errado, indigno", completa ele, que participou intensamente do movimento estudantil na ditadura. "Professores e alunos eram preocupados em entender o argumento do outro."PREOCUPAÇÃO COM TRABALHOMoisés também acredita que muitos alunos se preocupam com o ingresso no mercado de trabalho. "O aluno precisa terminar o semestre, tem preocupação com a profissão e isso é absolutamente legítimo." Para ele, algo parecido ocorre com professores que não aderem à greve ou não participam de manifestações. "As pessoas estão envolvidas em pesquisas, em atender alunos, não têm tempo para causas que eles não consideram tão fortes."Outro fator que pode distanciar boa parte dos estudantes das manifestações grevistas é a influência de partidos políticos de extrema esquerda - PCO, PSTU, PSOL, além da central Conlutas -, por meio de estudantes filiados e simpatizantes e da direção do sindicato dos funcionários. Essa presença, longe de formar um grupo organizado, pode ajudar a dispersar os alunos, já que os partidos acabam disputando entre si o controle do movimento e da pauta de reivindicações. CRONOLOGIA 5 de maio: Funcionários entram em greve 25 de maio: Alunos invadem a reitoria 1.º de junho: PMs liberam entrada bloqueada de prédios. Bloqueio é retomado 9 de junho: Grevistas fecham portão. Há confronto com a PM 18 de junho: Grevistas fazem passeata na Avenida Paulista 19 de junho: Alunos contrários à greve fazem protesto