''''A fé cristã atrai o futuro para o presente''''

- O Estado de S.Paulo

Leia abaixo trechos da encíclica ?Spe Salvi? (Salvos pela Esperança), divulgada ontem

"SPE SALVI facti sumus" - é na esperança que fomos salvos, diz São Paulo aos Romanos e a nós também (Rm 8,24). A "redenção", a salvação, segundo a fé cristã, não é um simples dado de fato. A redenção é-nos oferecida no sentido que nos foi dada a esperança (...) graças à qual podemos enfrentar o nosso tempo presente: o presente, ainda que custoso, pode ser vivido e aceito, se levar a uma meta e (...) se esta meta for tão grande que justifique o cansaço do caminho.Chegar a conhecer Deus, o verdadeiro Deus: isto significa receber esperança. O exemplo de uma santa da nossa época pode ajudar-nos a entender o que significa encontrar pela primeira vez e realmente este Deus. Refiro-me a Josefina Bakhita, uma africana canonizada pelo papa João Paulo II. Nascera por volta de 1869 em Darfur, Sudão. Aos nove anos de idade foi raptada pelos traficantes de escravos, espancada barbaramente e vendida cinco vezes nos mercados do Sudão. Por último, acabou escrava ao serviço da mãe e da esposa de um general, onde era diariamente seviciada até ao sangue; resultado disso mesmo foram as 144 cicatrizes que lhe ficaram para toda a vida. Finalmente, em 1882, foi comprada por um comerciante italiano para o cônsul Callisto Legnani (...) Aqui (na Itália), depois de patrões tão terríveis que a tiveram como sua propriedade até então, Bakhita acabou por conhecer um "patrão" totalmente diferente - (...) o Deus vivo, o Deus de Jesus Cristo. Até então só tinha conhecido patrões que a maltratavam. Mas agora ouvia dizer que existe um acima de todos os patrões, o Senhor de todos os senhores, e que este Senhor é a bondade em pessoa. Soube que este Senhor também a conhecia e a amava. (...)O cristianismo não trouxe uma mensagem sociorrevolucionária semelhante à de Espártaco, que tinha fracassado após lutas cruentas. Jesus não era Espártaco, não era um guerreiro em luta por uma libertação política, como Barrabás (...). Aquilo que Jesus - Ele mesmo morto na cruz - tinha trazido era algo de totalmente distinto: o encontro com o Senhor de todos os senhores, o encontro com o Deus vivo e, deste modo, o encontro com uma esperança que era mais forte do que os sofrimentos da escravidão e, por isso mesmo, transformava a partir de dentro a vida e o mundo. (...) Se a Carta aos Hebreus diz que os cristãos não têm aqui neste mundo uma morada permanente, mas procuram a futura (cf. Heb 11, 13-14), isto não significa de modo algum um adiamento. A sociedade presente é reconhecida pelos cristãos como uma sociedade imprópria; eles pertencem a uma sociedade nova, rumo à qual caminham e que, na sua peregrinação, é antecipada.Para Lutero, que não nutria muita simpatia pela Carta aos Hebreus em si própria, o conceito de "substância" (da fé) nada significava. Por isso, interpretou o termo não no sentido objetivo (de realidade presente em nós), mas no subjetivo, isto é, como expressão de uma atitude interior. (Mas) A fé não é só uma inclinação da pessoa para realidades que hão de vir, porém estão ainda totalmente ausentes; ela dá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidade presente constitui para nós uma "prova" das coisas que ainda não se vêem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele já não é o puro "ainda não". O fato de este futuro existir muda o presente.Queremos nós realmente isto: viver eternamente? Hoje, muitas pessoas rejeitam a fé, talvez simplesmente porque a vida eterna não lhes parece uma coisa desejável. (...) Viver sempre, sem um termo, acabaria por ser fastidioso e, em última análise, insuportável.Penso que Agostinho descreve a situação essencial do homem, uma situação donde provêm todas as suas contradições e as suas esperanças. De certo modo, desejamos a própria vida, a vida verdadeira, que depois não seja tocada sequer pela morte; mas, ao mesmo tempo, não conhecemos aquilo para que nos sentimos impelidos. Não podemos deixar de tender para isto e, no entanto, sabemos que tudo quanto podemos experimentar ou realizar não é aquilo por que anelamos. Esta "coisa" desconhecida é a verdadeira "esperança" que nos impele e o fato de nos ser desconhecida é, ao mesmo tempo, a causa de todas as ansiedades como também de todos os ímpetos positivos ou destruidores (...) O termo "vida eterna" procura dar um nome a esta desconhecida realidade conhecida. (...) A eternidade não (é) uma sucessão contínua de dias do calendário, mas algo parecido com o instante repleto de satisfação. (...)O século 19 não perdeu a sua fé no progresso como nova forma da esperança humana (...). Todavia a evolução sempre mais rápida do progresso técnico e a industrialização com ele relacionada criaram, bem depressa, uma situação social completamente nova: formou-se a classe dos trabalhadores da indústria e o chamado "proletariado industrial", cujas terríveis condições de vida foram ilustradas de modo impressionante por Friedrich Engels, em 1845. (...) Urgia o salto revolucionário. Karl Marx recolheu este apelo do momento e, com vigor de linguagem e de pensamento, procurou iniciar este novo, grande e, como supunha, definitivo passo da História rumo à salvação. Tendo-se diluído a verdade do além, tratar-se-ia agora de estabelecer a verdade do aquém. (...) A sua promessa, graças à agudeza das análises e à clara indicação dos instrumentos para a mudança radical, fascinou e não cessa de fascinar ainda hoje. E a revolução deu-se, depois, na forma mais radical na Rússia.Com a sua vitória, porém, tornou-se evidente também o erro fundamental de Marx. Ele indicou com exatidão o modo como realizar o derrubamento. Mas, não nos disse como as coisas deveriam proceder depois. Ele supunha simplesmente que, com a expropriação da classe dominante, a queda do poder político e a socialização dos meios de produção, ter-se-ia realizado a Nova Jerusalém. Com efeito, então ficariam anuladas todas as contradições. Então tudo poderia proceder espontaneamente pelo reto caminho, porque tudo pertenceria a todos e todos haviam de querer o melhor um para o outro. Assim, depois de cumprida a revolução, Lênin deu-se conta de que, nos escritos do mestre, não se achava qualquer indicação sobre o modo como proceder. É verdade que ele tinha falado da fase intermediária da ditadura do proletariado como uma necessidade. Essa fase conhecemo-la muito bem, e sabemos também como depois evoluiu, não dando à luz o mundo sadio, mas deixando atrás de si uma destruição desoladora.Marx (...) esqueceu que o homem permanece sempre homem. Esqueceu o homem e a sua liberdade. Esqueceu que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior. (...)Não é a ciência que redime o homem. O homem é redimido pelo amor. (...)Dos seus 13 anos de prisão, 9 dos quais em isolamento, o inesquecível cardeal Nguyen Van Thuan deixou-nos um livrinho precioso: Orações de Esperança. Durante 13 anos de prisão, numa situação de desespero aparentemente total, a escuta de Deus, o poder falar-Lhe, tornou-se para ele uma força crescente de esperança, que, depois da sua libertação, lhe permitiu ser para os homens em todo o mundo uma testemunha daquela grande esperança que não declina, mesmo nas noites da solidão. (...)Não é o evitar o sofrimento, a fuga diante da dor, que cura o homem, mas a capacidade de aceitar a tribulação e nela amadurecer, de encontrar o seu sentido através da união com Cristo, que sofreu com infinito amor. (...)A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade. Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a compaixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido é uma sociedade cruel e desumana.