A dura rotina dos embriologistas

Vera Fiori - O Estado de S.Paulo

O congelamento de óvulos é um dos procedimentos que ficam a cargo dos embriologistas

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Em julho de 1978, nascia, em Londres, Louise Brown, o primeiro bebê de proveta do mundo. A primeira fertilização in vitro contribuiu não só para a conquista da fertilidade, como também para o avanço nos estudos do embrião. De lá para cá, as técnicas de reprodução assistida evoluíram, assim como as pesquisas científicas em torno de células-tronco embrionárias. Mesmo com as notícias sobre os avanços nessa área da medicina, poucos conhecem o trabalho dos que atuam nos bastidores das clínicas de reprodução.

 

Cabe aos embriologistas – médicos, biólogos, biomédicos – iniciar a cultura dos óvulos e espermatozoides para a fertilização, e entregar o cateter ao médico para a fecundação do embrião. As oportunidades de trabalho incluem, além das clínicas de reprodução humana e bancos de sêmen, as instituições de pesquisa no ramo da biologia, veterinária e genética.

 

Paciência, habilidade manual, concentração, disciplina, ética e estrutura psicológica são pré-requisitos da profissão. O trabalho nos laboratórios é duro. Muitas vezes, os estágios são feitos sem remuneração, exigindo suporte financeiro e disponibilidade para viajar, a fim de reciclar os conhecimentos em cursos e congressos médicos. E, ao contrário de outras profissões, o mercado é fechado, segundo informa a embriologista Roberta Wonchockier, 39 anos, há 17 exercendo a profissão:

 

– Por segurança, a circulação nos laboratórios de fertilização é restrita a duas ou três pessoas, dificultando mais os estágios. Na maioria das vezes, consegue-se vaga por indicação, quando o profissional vai adquirindo experiência. É fundamental ter paciência, pois, no começo, participamos como observadores.

 

A área de reprodução humana, acrescenta a embriologista, exige um curso de especialização e dois anos de treino. Só depois disso, pode-se manipular os gametas e os pré-embriões. "A grande dificuldade é o treino, pois não se pode colocar em risco o material do casal em tratamento." Algumas faculdades disponibilizam laboratórios, onde é possível praticar as técnicas com oócitos (óvulos) de camundongo. "Quando comecei, a única técnica disponível era a fertilização in vitro. Depois que surgiram outras, fui praticando aos poucos", conta Roberta.

 

Após 15 anos como embriologista e, agora, no Projeto Alfa – Aliança de Laboratórios de Fertilização Assistida (laboratório, centro cirúrgico e demais serviços de ponta em biotecnologia, abertos a especialistas e ginecologistas que necessitem de infraestrutura), Roberta assumiu há cerca de um ano a coordenação administrativa do Projeto Beta (R. Cincinato Braga, 37, 3º andar, Bela Vista, tel.: 3826-7017), centro de medicina reprodutiva com responsabilidade social. Ambos os projetos complementam-se no atendimento a casais com problemas de fertilização: o primeiro, na parte laboratorial, e o segundo, na clínica. Roberta explica:

 

– O diferencial do Projeto Beta é atender casais de média e baixa rendas. O custo do tratamento é adequado ao orçamento do casal, que dispõe de tecnologia e atendimento humano. Os interessados podem marcar uma consulta ou assistir a uma das palestras gratuitas, realizadas uma vez por mês, quando são informados sobre as possibilidades de tratamentos, exames de investigação da infertilidade, entre outros procedimentos.

 

TIME FEMININO

Curiosamente, na Fertility, clínica de reprodução assistida, a equipe de embriologistas reunidas para a entrevista é formada só por mulheres, todas na faixa dos 30 anos. Renata Ferreira é a única casada da turma e está esperando seu primeiro filho. Luciana Francisco se casa ainda este ano, enquanto Camila Madaschi, Rita Figueira e Priscila Queirós são solteiras. Todas querem ser mães e, entre elas, Priscila pensa seriamente em congelar seus óvulos.

 

Na opinião de Luciana Francisco, esse número elevado de biomédicas e biólogas na embriologia deve-se ao fato de a maternidade ser um tema que toca fundo as mulheres: "Ao nos colocarmos no lugar dessas mulheres, não tem como não nos envolvermos. E se eu não pudesse engravidar?", indaga. Como coloca Camila, o peso da responsabilidade e as expectativas são grandes: "A realização desses casais depende do nosso trabalho." Já Priscila Queirós aponta como requisitos da profissão a sensibilidade – o que não exclui os homens, é claro – na abordagem ao casal, além da habilidade e rapidez para tomar decisões, lidando com situações inesperadas no dia a dia do laboratório.

 

Em sua rotina de trabalho, as embriologistas observam a dor que a mulher carrega por não conseguir engravidar, ainda que o problema não seja dela. "É regra nos referirmos sempre ao ‘casal com problemas’, porque, na metade dos casos, a dificuldade é do homem. Outro mito é de que só a mulher em idade madura não consegue ter filhos: também atendemos casos de falência ovariana precoce em jovens."

 

Camila lembra, ainda, a discussão ética e religiosa que permeia esse campo da medicina: "Para uma parte da sociedade, o embrião pode ser considerado um ser humano. Para a ciência, trata-se de um agrupamento de células indiferenciadas." Não menos polêmico é o destino dos embriões excedentes, congelados em botijões de nitrogênio: "Nem todos são implantados, e cabe ao casal a decisão de doá-los para a ciência, descartá-los ou mantê-los congelados."

 

Sobre os estudos de células-tronco, segundo Luciana, quanto mais acesso às informações a população tiver, maior será a compreensão do potencial das pesquisas que visam a salvar vidas.

 

Renata Ferreira está em treinamento desde outubro do ano passado: "Atuava na área de educação, na Associação Instituto Sapientiae, que oferece especialização em embriologia, e estou achando gratificante conhecer o lado prático." Por sua vez, Rita Figueira, com graduação em Ciências Biológicas e mestrado em Bioquímica, ambos pela Universidade de São Paulo, trabalhava com pesquisa básica de câncer, quando foi indicada para uma vaga na clínica. "Aqui, além da aplicação técnica, em 12 dias temos os resultados, ou seja, o retorno sobre todo o trabalho." E aponta as descobertas científicas que estão por vir nesse campo: "Na área do câncer, praticamente tudo já foi destrinchado", compara.

 

Concluindo, como lembra a embriologista Roberta Wonchocklier, quando o assunto é nova tecnologia, toda cautela é pouca. "Ética, caráter e opinião própria são princípios fundamentais na nossa atividade. Devemos preferir a marca de conservadores a nos arrepender por brincar com vidas humanas."