A culpa não é do cinto

Agencia Estado - O Estado de S.Paulo

É um pesadelo recorrente de qualquer mãe, principalmente daquelas que andam de carro com mais um filho no banco dos passageiros. Assaltada, ela não consegue tirar uma das crianças do carro, e segue-se um roteiro de filme de terror. O caso do menino João Hélio Fernandes foi o extremo de um temor diariamente enfrentado pelas ?mãetoristas?, que a cada farol precisam lidar com o medo e a angústia de ser a próxima vítima da violência. Mas nem todo pavor justifica deixar de utilizar os equipamentos de segurança no transporte de crianças. ?Num primeiro momento, tive esse ímpeto, pensei em deixar meu filho sem o cinto. Mas é claro que a probabilidade de eu bater o carro é maior , não é o caminho mais adequado?, admite Célia Cristina Bernardo Ambar, 35 anos, mãe de Renan (5 anos) e de Mariana (1 ano e 2 meses). ?A gente toma todos os cuidados, e até pensa em não andar mais sozinha com eles, em ter sempre alguém no banco de trás, mas isso significa ficar refém da marginalidade, não ter liberdade para poder sair.? A lição que deve ser reiterada e aprendida vem da área técnica da General Motors do Brasil: não se deve abrir mão da segurança em nome de uma possibilidade de agressão. É para o bem das crianças que elas devem obrigatoriamente ir e vir devidamente instaladas nas cadeirinhas (pelo menos até os 11 anos de idade). Também é para proteger os pequenos que as portas dos automóveis possuem travas adicionais, que impedem a abertura pelo lado de dentro, bem como os vidros, quando elétricos, têm comandos para evitar o abre e fecha da molecada. Os manuais de todos os veículos reservam capítulos inteiros para a questão da segurança, que devem ser lidos e assimilados como regra. ?Não vou deixar meu filho solto no carro, o risco é óbvio. Qualquer brecadinha, a criança vai parar lá na frente. Deixo tudo travado, mas criança é criança. Outro dia o João, meu filho de oito anos, perguntou se podia colocar o pé pra fora do carro!?, diz Eliana Castro, 40 anos, mãe de três garotos. As filhas de Maria Laura Rihan, 36 anos, Paola, 4, e Manuela, 1 ano e 3 meses, também só se deslocam na cadeirinha. ?É uma fatalidade, mas se pensar na violência, a gente não sai mais de casa.?O fato é que não dá para tentar ocultar uma irresponsabilidade, cometendo outra muito pior. Uma criança de 30 quilos, solta no banco traseiro, em uma batida a 60 km/h, será arremessada com um peso igual a 3 toneladas. O risco de lesão grave é imenso. Acidentes são as principais causas externas da morte de crianças de zero a 14 anos no Brasil. Conforme o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), cerca de 2.300 crianças e adolescentes morrem por ano e outros 38 mil ficam feridos. Com o uso de equipamentos, como cintos de segurança e cadeirinhas, o risco de mortes e lesões graves cairia 70%, calcula a Sociedade Brasileira de Ortopedia Pediátrica (SBOP). Isso significa 1.400 mortes a menos por ano - ou, em média, 4 a menos por dia. ?O problema não é o cinto de segurança, é o País que a gente vive, estamos numa guerra civil?, opina Eliana. Alguém discorda?