A Bebel vai ficar fina?

- O Estado de S.Paulo

Tarefa de transformar a personagem de ‘Paraíso Tropical’ em dama será árdua, dizem especialistas

Ela tem muita ‘catiguria’. Mas quer ser uma mulher de categoria. A prostituta Bebel, personagem da atriz Camila Pitanga na novela ´Paraíso Tropical´ – já adorada pelo Brasil, muito mais pelos seus tropeços lingüísticos do que pela gentileza dos seus decotes –, vai recorrer às aulas de etiqueta (nos capítulos da próxima semana) para tentar se transformar numa dama de fino trato. O objetivo é fazer bonito ao lado do cliente/namorado Olavo, inescrupuloso executivo interpretado por Wagner Moura, em festas e jantares das altas rodas.Mas será que, trazida para a vida real, a empreitada daria certo? Uma mulher tirada da ‘vida fácil’ no calçadão de Copacabana pode virar uma fina e requintada socialite?Sumidade em boas maneiras, a jornalista Glória Kalil é otimista. "Ninguém nasce sabendo nada, tudo se aprende. Claro que, quanto mais tarde vem o aprendizado, mais sofrido ele se torna. Mesmo assim, dá para mudar."Segundo a especialista, Bebel vai ingressar num novo mundo e, portanto, precisa encarar o desafio como se estivesse aterrissando em outro país, de cultura completamente diferente. "É como viver em algum lugar do Oriente, por exemplo. Você tem que aprender tudo de novo: a língua, os costumes, de que maneira se portar, comer, andar."Assim, a repaginação da personagem deve ser total, diz Glória. "O primeiro passo, e certamente o mais difícil, é refinar o jeito de falar. Baixar o tom de voz, saber conjugar os verbos, mudar as gírias. Depois, vem o cuidado com o visual: cabelo, maquiagem, vestuário..." Ou seja, fendas e decotes ganham moderação, os microcomprimentos crescem e o brilho excessivo se apaga. "Em último lugar, está a transformação dos costumes", completa Glória.Com tantas barreiras a serem derrubadas pela candidata a madame, Beth Soares, dona de uma escola de etiqueta em Alphaville (11/2175-2384) – que também ensina as regras do bom comportamento a empregadas domésticas, babás e motoristas –, não esconde o pessimismo. "Levaria bastante tempo para mudar uma pessoa como a Bebel. Acho que ela melhoraria, mas nunca se passaria por alguém da alta sociedade."Beth faz uma ressalva importante: "Elegância não tem nada a ver com dinheiro. Conheço muitos ricos bem mal-educados. Já uma das funcionárias que trabalham em casa parece uma rainha, de tão refinada."Mudar para quê?A Bebel não precisa virar a Lady Di. Quem protesta é a diretora da ONG Davida, que reúne prostitutas e ex-prostitutas cariocas, Gabriela Leite. "A personagem está fazendo as pessoas verem as nossas mulheres com mais humanidade. Não é feio ter o jeito da Bebel. Por que uma pessoa tão simpática como ela tem de se transformar numa dama?", questiona a ativista. "Caímos, outra vez, na questão do estigma. A personagem ajuda a combater isso."Antes de encarnar a exuberante prostituta na trama de Gilberto Braga, Camila Pitanga conviveu com as meninas da ONG e ganhou delas uma homenagem: a grife Daspu, criada pela Davida, lançou a sua nova coleção, na quarta, tendo Bebel como musa inspiradora (leia abaixo).