A arquiteta da voz

Fabiana Caso - O Estado de S.Paulo

Já com o primeiro disco solo no mercado, a cantora Verônica Ferriani prepara-se agora para novos lançamentos

Natural de Ribeirão Preto, a cantora Verônica Ferriani, de 32 anos, cresceu em meio aos acordes da música brasileira - há muitos músicos amadores na família. O pai, médico, fazia serenatas com violão para a mãe, professora, que toca o mesmo instrumento. Uma avó era boa no acordeão e piano, e há histórias até de um bisavô paraguaio que foi maestro.

"Queria participar daquilo e, por isso, adorei quando ganhei um violão aos 8 anos", lembra Verônica, que gosta de cantar desde pequena. Passou a ter aulas com a professora de violão Adélia Diniz, uma referência até hoje, que virou fã da pupila. "Ela tinha uma voz bonita, forte, para fora. Foi minha primeira inspiração", diz a primogênita de três irmãos.

Mas ninguém pensou, nem ela própria, que seguiria uma carreira profissional nessa área. Mudou-se aos 18 anos para São Paulo, com matrícula na Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo. Foi quando também começou a estudar música na escola Groove. A música foi ganhando mais espaço em sua vida e, por fim, acabou tomando o lugar das pranchetas. No trabalho de conclusão do curso de arquitetura, apresentou composições relacionadas a três aquarelas do pintor suíço Paul Klee. "Queria mostrar correlações entre cores e acordes, as formas e a música." Os professores adoraram.

Uma professora da escola de música indicou Verônica para o compositor Chico Saraiva - que acabara de ganhar o Prêmio Visa de Música Brasileira. E foi com ele que subiu ao palco pela primeira vez. Essa parceria alavancou uma série de outros convites, que a colocaram definitivamente no circuito profissional. Em São Paulo, cantou por dois anos música brasileira no bar Ó do Borogodó, fez uma longa temporada ao lado de nomes da Velha Guarda do samba no Traço de União e, mais recentemente, colocou muita gente para dançar com a banda Gafieira São Paulo, no Tom Jazz.

Depois de cinco anos cantando profissionalmente, Verônica lançou no mês passado seu primeiro CD solo, independente, batizado Verônica Ferriani. Mas não é só: há mais dois no forno. Está em fase de finalização o primeiro CD da Gafieira São Paulo e, até junho, ela termina a gravação de um disco com o compositor Chico Saraiva - foram contemplados com o Prêmio Pixinguinha.

JAZZ E SAMBA

Durante a temporada no Traço de União, Verônica travou o primeiro contato com Beth Carvalho, que apareceu para ouvi-la cantar. "Segurei a emoção e continuei cantando, mas foi forte. Ela era um ídolo desde a minha infância", conta. Desde então, já participou de três shows da sambista, que virou uma espécie de madrinha.

E Verônica cruzou fronteiras e desafiou a máxima da falta de talento dos paulistas para o samba: passou a fazer temporadas de samba na Lapa carioca - apresentava-se a cada 15 dias. Participou até do disco coletivo As Cantoras da Lapa.

Já cantou jazz e passeou por estilos como o funk da turma de Wilson Simoninha e Jair de Oliveira. Só tem elogios para o samba e os mestres da Velha Guarda, que mostram seu vigor no palco, mesmo beirando os 80 anos. "O samba é a raiz de muitos outros gêneros brasileiros."

Apesar disso, sua cantora favorita é a norte-americana Ella Fitzgerald, ícone do jazz. João Nogueira é outra influência onipresente. Ultimamente, porém, tem ouvido música nova, de diferentes cadências. Alguns exemplos são a cantora cabo-verdiana Mayra Andrade, a francesa Camille, o fado da portuguesa Mariza e até Amy Winehouse.

Nesse cenário musical globalizado, em que a internet facilita o acesso às viagens sonoras, é curioso o fato de sua geração beber na mais tradicional música brasileira. "Mas buscamos o nosso caminho próprio, numa leitura contemporânea, com referências sonoras de todo o mundo." É amiga de cantoras como Giana Viscardi e Cris Aflalo, e conta que estão se reunindo bastante, trocando dicas de técnicas vocais, referências musicais e figurino.

No momento, Verônica circula mais por estúdios do que por palcos, às voltas com a gravação dos dois outros discos. "Prefiro o palco. É o momento em que me sinto mais feliz." No início, porém, ficava um tanto aflita e ansiosa quando se apresentava em público. "O nervosismo foi se dissolvendo com o tempo."

Até hoje, estuda técnica vocal. Cuida da voz em dias de show, evitando ficar em ambientes de ar condicionado, mas não abre mão de prazeres como tomar um sorvete. Se a princípio achou São Paulo cinza, hoje sabe apreciar a cidade que a recebeu bem. Gosta de visitar e receber amigos, na maioria, os mesmos da faculdade de arquitetura.

Outro de seus passatempos é o trabalho manual: faz colares e confeccionou a cortininha de miçangas que aparece na foto. É influenciada pelas estéticas visuais, como o minimalismo da escola Bauhaus ou do artista Paul Klee. "No disco há essa ideia minimalista, do ?menos é mais?, com uma instrumentação enxuta, e cada coisa no seu lugar", diz ela, que hoje, aos 30 anos, está muito satisfeita com o resultado do primeiro disco, e empolgada com os que estão por vir.