80% das reações a transfusões no País não são notificadas, diz Anvisa

Fabiane Leite - O Estado de S.Paulo

É a primeira vez que a agência federal faz boletim dos procedimentos; casos vão desde alergias até infecções

Boletim inédito da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) alerta que 80% dos problemas com transfusões de sangue no Brasil ainda não são notificados ao órgão. O registro de reações permitiria medidas de correção e prevenção.O documento, lançado no fim do ano passado, informa que, em 2007, 3 milhões de transfusões ocorreram no País, segundo estimativas feitas pela Anvisa, mas apenas 1.792 reações a elas foram informadas à agência.No entanto, segundo cálculos do órgão de vigilância, eram esperadas 8.908 reações, o que significa uma subnotificação de 80% no País - ainda pior nas Regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Nesta última, a subnotificação chegou a 98,7%. A conta do número de reações esperadas é feita com base em literatura científica, que aponta 3 reações para cada 1.000 transfusões realizadas.Algumas das reações à transfusão de sangue, como febre, alergias e até lesões pulmonares são, em geral, relacionadas a uma resposta do sistema imunológico do paciente à entrada do sangue doado no organismo. No entanto, também as contaminações bacterianas ou a transmissão de doenças infecciosas após transfusões são consideradas reações, além das mortes.Em 2007, a maioria das reações registradas foram leves ou moderadas, principalmente febre e alergia. Foram notificados 3 casos de pessoas que contraíram malária (doença infecciosa) em transfusões. Duas outras morreram por receber o tipo sanguíneo errado."Só conhecendo a realidade é que poderemos prevenir os problemas", afirma Geni de Almeida, responsável pela Unidade de Bio e Hemovigilância da Anvisa.O sistema nacional de hemovigilância foi arquitetado em 2001, e começou a ser implantado no ano seguinte, com a previsão de notificações voluntárias. No entanto a Anvisa não tinha a prática de informar a sociedade sobre os dados coletados. "A publicação do boletim agora será anual", promete Geni.Por causa da subnotificação, o País ainda não conhece a realidade dos problemas com transfusões e não é possível comparar as notificações com as de outros países.Segundo Geni, a Anvisa tem realizado treinamentos para sensibilizar os serviços sobre a necessidade de notificação - 800 pessoas já passaram pela capacitação. De acordo com ela, muitos não notificam porque não conhecem a necessidade ou não sabem identificar os problemas. Além disso, destaca, muitos funcionários têm medo de punições, apesar de as notificações serem sigilosas. Na conclusão do boletim, a Anvisa afirma que são necessários estudos sobre as causas da subnotificação e cobra das vigilâncias sanitárias estaduais e municipais ação para que os mais de 7.124 serviços que podem fazer transfusões notifiquem problemas. "A avaliação das informações contidas neste boletim indica que, apesar dos avanços da organização da hemovigilância no Brasil, ainda há muitos desafios a serem superados na busca da qualidade da assistência", conclui o texto da agência."Infelizmente, ainda não há uma cultura de notificações no País", afirma Dante Langhi Júnior, um dos diretores da Sociedade Brasileira de Hematologia e Hemoterapia. "É uma mudança que só ocorrerá a longo prazo. Mas é preciso ficar claro que as transfusões sempre envolverão riscos. As reações vão ocorrer e ocorrem no mundo inteiro."