Uma década sem Dercy Gonçalves: relembre a trajetória da atriz

André Carlos Zorzi - O Estado de S.Paulo

Atriz morreu aos 101 anos de idade, em 2008, deixando vasto legado no mundo artístico

Dercy Gonçalves.

Dercy Gonçalves. Foto: Marcos D'Paula / Estadão

Há 10 anos, em 19 de julho de 2008, o Brasil se despedia de Dercy Gonçalves. Fosse atuando, cantando ou fazendo humor, a atriz encantou diversas gerações ao longo de seus 101 anos de vida.

Nascida, Dolores Gonçalves Costa, em 23 de junho de 1907, explicava a escolha do nome artístico em entrevista ao Roda Viva, em 1995: "Sempre usei Dercy Gonçalves, desde que saí da minha casa. Porque em primeiro lugar eu tinha medo do meu pai. De meu pai não deixar, não querer. Porque era ser p*** ser artista. Então tirei logo meu nome."

Dercy em 29 de junho de 2006, aos 100 anos de idade, em sua residência.

Dercy em 29 de junho de 2006, aos 100 anos de idade, em sua residência. Foto: Marcos D'Paula / Estadão

"Botei Dercy, porque a dona Darcy Vargas era uma mulher muito importante na época, como sempre foi, e eu gostava do nome dela. Aí dona Maria Castro [falou]: 'Bota Darcy'. Mas já tinha um Darcy, Darcy Casarré [ator]. 'Ah, bota 'Der''. E fiquei", complementava, citando a ex-primeira-dama do Brasil e a dona de sua companhia de teatro.

Confira abaixo uma galeria com momentos marcantes ao longo da trajetória de Dercy Gonçalves, e, em seguida, alguns vídeos relembrando sua carreira:

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Carnaval. Em 1991, chegou a ser homenageada pela Viradouro com no enredo Bravo, Bravíssimo: Dercy Gonçalves, o retrato de um povo. Na ocasião, apareceu na avenida com os seios de fora, aos 84 anos de idade.

Em 13 de fevereiro de 1991, homenageada pela Unidos de Viradouro no carnaval.

Em 13 de fevereiro de 1991, homenageada pela Unidos de Viradouro no carnaval. Foto: Arquivo / Estadão

Relembre o samba enredo feito para Dercy:

Dercy durante o desfile do Salgueiro, no carnaval do Rio em 2003.

Dercy durante o desfile do Salgueiro, no carnaval do Rio em 2003. Foto: Ernesto Rodrigues / Estadão

Em 2 de março de 2003, no primeiro dia de desfile do grupo especial do Rio de Janeiro, pela escola Acadêmicos de Santa Cruz.

Em 2 de março de 2003, no primeiro dia de desfile do grupo especial do Rio de Janeiro, pela escola Acadêmicos de Santa Cruz. Foto: Fabio Motta / Estadão

Cantora. Ouça também algumas músicas entoadas por Dercy ao longo de sua carreira:

Frases. Relembre alguns pensamentos da atriz:

*frases retiradas de entrevistas aos programas Roda Viva e Gente de Expressão.

Dercy por Dercy. "Sou muito desaforada, muito malcriada. Sou atrevida mesmo, sabe? Não levo desaforo pra casa de ninguém. De boca, briga de tapa eu não gosto, não".

"Sou uma mulher independente, nunca mais precisei de dinheiro de homem. Eu ganho, resolvo meus problemas, decido minha vida, não gosto de conselhos. Não sei se agrado. Se eu desagrado sendo assim, f***-se."

21 de fevereiro de 1990.

21 de fevereiro de 1990. Foto: Arquivo / Estadão

Quem é sua herdeira?. "Não tem herdeira. Igual a mim não tem, igual ao Pelé, não tem. Podem fazer o gênero, aquilo que Dercy Gonçalves fazia e era chamada de 'p***', 'bota essa mulher na cadeia'. Meus filmes eram assim, eu tinha medo de sair na rua, 'não presta, é uma m***'... E hoje é cultura essa p*** toda!"

Momento em que Dercy mostrou os seios em pleno programa de Hebe Camargo.

Humor. "Não acho graça em ninguém. É tudo tão superficial. Pensam que sair vestido de mulher, de veado, ficar dando porrada um no outro, isso que é comédia? Comédia não é isso."

Mulher. "A mulher cômica é discriminada. Eles gostam mais do homem. O homem engraçado é atraente, a mulher cômica tem uma discriminação. Eu, como nunca andei atrás de homem, não me faziam falta nenhuma, eu nunca dei importância a isso. Mas que tem discriminação, tem. Pra qualquer negócio não chamam mulher, chamam um homem. Só quando não tem nada a mais pra fazer."

Dercy em 29 de junho de 2006, aos 100 anos de idade, em sua residência.

Dercy em 29 de junho de 2006, aos 100 anos de idade, em sua residência. Foto: Marcos D'Paula / Estadão

"Eu adoro ser mulher. Sou uma feminista nata e sem título. Eu gosto de ser mulher, aprecio minha atitude, gosto de ser vaidosa, imagina se eu fosse homem? Podia botar colar, brinco, perninha de fora, meia de seda? Era tudo discriminando. É lindo ser mulher. Mulher que pare! Quer coisa mais linda você ser criadora do mundo? Mulher tem um valor espetacular. Como vou querer ser homem? P***, enfia aquela banana e não faz mais nada!"

"Acho elas [feministas] umas babacas. Porque as feministas ficam com um idealismo falso. Elas não enfrentam. Todas tem marido, são cortejadas, resguardadas. Vai enfrentar a vida como eu enfrentei, sozinha no mundo sem mãe, sem pai, tive um ano quase no sanatório."

Em 15 de maio de 1997.

Em 15 de maio de 1997. Foto: Itamar Miranda / Estadão

Estilo. "O meu estilo eu criei, permaneceu, e é o que tá comandando. O estilo não era esse, não, meu bem. Duvido que uma atriz qualquer dessas aí, classuda, que não assoa o nariz, aceitasse levar um pastelão na cara, dar uma gargalhada, levantar as pernas, deitar na cama de mal jeito, eu duvido. Esse é meu gênero, irreverente, que lancei, que tenho muito orgulho de ser a professora desse gênero do meu país." 

Conversas com Dercy. Para matar as saudades, há diversos materiais envolvendo Dercy como convidada disponíveis na internet. Relembre a íntegra de alguns abaixo: 

1987 - Roda Viva (TV Cultura): 

1987 - Show de Calouros de Silvio Santos (SBT):

1993 - Gente de Expressão (TV Manchete):

1995 - Roda Viva (TV Cultura):

1997 - Jô Soares Onze e Meia (SBT):

1998 - Em Nome do Amor (SBT):

2002 - Programa do Clodovil (Gazeta):

 

2007 - Gordo Visita (MTV): 

Relembre também o especial Bravo, Bravíssimo, estrelado por Dercy na Globo, em 1991:

Morte. Dercy morreu às 16h45 do dia 19 de julho de 2008, no Rio de Janeiro. Durante a madrugada, havia sido levada a um hospital de Copacabana, com sinais de pneumonia comunitária grave, que acabou evoluindo para uma sepse pulmonar e insuficiência respiratória.

Cerca de 5 mil pessoas compareceram ao enterro da atriz, em 22 de julho, lotando o cemitério da cidade de Santa Maria Madalena, onde nasceu, na região serrana do Rio de Janeiro. Durante a cerimônia, foram cantados sambas em homenagem à atriz.

Multidão no velório da atriz, realizado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O caixão seguiu em cortejo pela Avenida Presidente Vargas até a estação de trens da Leopoldina, em 21 de julho de 2008.

Multidão no velório da atriz, realizado na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O caixão seguiu em cortejo pela Avenida Presidente Vargas até a estação de trens da Leopoldina, em 21 de julho de 2008. Foto: