'Tenho um misto de nojo com fascinação pelo ser humano', diz João Vicente de Castro

Gabriel Perline - O Estado de S.Paulo

Ator e sócio do Porta dos Fundos fala do filme 'Contrato Vitalício' e sobre seu apoio às minorias

João é sócio do Porta dos Fundos

João é sócio do Porta dos Fundos Foto: Reprodução/Instagram

A conversa começou de maneira invertida. No lugar de entrevistado, João Vicente de Castro se postou como repórter e emendou uma sequência de perguntas em busca de um feedback sobre o filme Contrato Vitalício, primeira investida do Porta dos Fundos - grupo do qual é sócio - no cinema. 

"O que você achou?", "Deu risada?" e "Se divertiu no cinema?" foram algumas das perguntas, feitas ligeiramente, coladas umas às outras. A resposta saiu em tom elogioso, já que o filme cumpre a missão inicial - fazer rir - e ganha um ar cult, artesanal, uma vez que é nítido o fato de não ter sido produzido pela mesma máquina que fabrica os blockbusters nacionais que lotam os cinemas.

"Foi um papel muito difícil para mim. Me mostra de uma maneira desconstruída, pouco verborrágica e menos falastrão. Eu gosto de preencher os espaços vazios, não curto muito ficar em silêncio em cena. Tive que aprender", explica o intérprete do alucinado Luciano, um ex-morador de rua e usuário de drogas que se mete como chefe de produção no filme louco que se passa dentro de Contrato Vitalício. "Mas a ideia foi não ir para um lugar fácil e simples. O que é o 'Porta' no cinema? O primeiro pensamento é: 'são esquetes'. O segundo - e o bom - é: 'é diferente do que os senhores estão acostumados a ver', porque isso isso é o Porta dos Fundos. É um momento em que temos uma enxurrada de comédias no cinema brasileiro, e a gente tentou fazer uma coisa não somente engraçada, mas que tenha um propósito."

'O humor traz o debate com uma vaselina', diz João

'O humor traz o debate com uma vaselina', diz João Foto: Reprodução/Instagram

Propósito - na esfera do objetivo, e não da intenção - é o que pauta o discurso e o modo de viver de João. Atento e fiel aos seus, ele defende o humor como objeto de reflexão e provocação, capaz de fazer sua audiência dar risada das bizarrices que comete no dia a dia.

"O humor traz o debate com uma vaselina. É uma vaselina na garganta dos fascistas, que ao mesmo tempo que acham que piada não tem mal nenhum - essa velha máxima de homem, branco e classe média que diz que o mundo está muito chato, de que o politicamente correto está acabando com a graça do mundo -, esse papo babaca de gente que nunca sofreu um tipo de opressão. Acho que o humor é uma maneira palatável a todos os gostos de se transformar o debate em algo mais amplo, capaz de atingir mais pessoas", pontua.

Em defesa dos oprimidos. Homem, branco, heterossexual, de família abastada, educado nos melhores colégios e, atualmente, goza de uma boa situação financeira. O berço e a genética pouparam João de enfrentar constrangimentos, mas não o impediram de se incomodar com os que assistiu e com os que assiste ainda hoje. Ver o avô menosprezar sua mãe pelo pelo simples fato de ser uma mulher solteira e com filho, deu um estalo em sua mente.

"Tenho um misto de nojo com fascinação pelo ser humano. Nojo das pessoas quando eu vejo como elas lidam com assuntos delicados, como o caso da onça que tomou um tiro ou o estupro coletivo. São coisas que não são questão de ocasião, é questão de maldade e de criação. Fui criado por uma mãe que era uma mulher solteira, que sofria preconceito do meu próprio avô, o pai dela. Eu comecei a pensar: 'por que ela está sofrendo, quando ela deveria estar sendo apoiada?'. Eu estudei nos colégios mais caros do Rio de Janeiro e me lembro de ver os bolsistas sendo humilhados pelos professores. Professores esses que também não tinham uma situação financeira boa. Foram pequenas coisas na minha vida que me fizeram perceber o mundo. Se essas pessoas não têm condições de falar e eu tenho, porque eu sou mais ouvido, é importante que eu possa tentar ajudar", explica. 

Foto: Reprodução/Instagram

E nessa tentativa, acabou apedrejado. Quis dar a mão para as mulheres e para o movimento feminista, mas levou alguns tapas. "As pessoas estão ficando cada vez mais egoístas. E o mais doido é que até os humanistas - vamos chamar assim para não entrar em debate político - têm uma vaidade louca de querer brigar com quem está ao lado, ajudando. Eu já tomei muita porrada de feministas, dizendo que eu era o macho, heterossexual, branco, opressor, classe média alta, falando que eu estava roubando protagonismo. Pelo amor de Deus! Não é uma questão de protagonismo, não estamos discutindo isso. Vá discutir protagonismo em novela, vamos resolver o problema", desabafa.

Bom moço sem bom-mocismo. João discursa sobre quase tudo. É no Papo de Segunda, a versão de calças do Saia Justa, do GNT, que ele mostra ser uma pessoa além dos títulos redutivos, como 'o rostinho bonito do Porta dos Fundos' e 'o cara que namora as mulheres mais cobiçadas' - Sabrina Sato e Cleo Pires estão em seu histórico .

Além de se posicionar a respeito de temas espinhosos, cutuca e ironiza o modus-operandi da classe artística, mesmo fazendo parte dela. Aponta o dedo, mas diz olhar para si mesmo quando percebe ter ferido seus princípios.

"Já bebi e dirigi algumas vezes. Tem uns dois anos, eu estava indo pegar o carro e tinha bebido uma taça de vinho, mas me deu uma coisa estranha. Percebi que estava sendo hipócrita, porque o meu discurso gira em torno de um coletivismo que eu estou quebrando. Existe uma coisa brasileira de se tratar muito como exceção. E viver de maneira coerente com o que você diz é fundamental para não cair neste tipo de coisa. E é difícil. Por exemplo, eu não como carne, mas eu morro de vontade de comer carne. Todo dia é um sofrimento, e já faz seis anos [que não como], porque eu acho que a indústria da morte é muito nociva para o mundo", revela. "Existe uma indústria que entende que é do jogo da celebridade ter causas que ela defenda. Inclusive nos Estados Unidos tem agentes que cuidam disso. Chega o artista e fala: 'to precisando defender alguma coisa'. Vai o agente e diz 'o que tá em alta é criança africana'. Aí vai lá e dá uma ajudada. Isso colide com essa ideia de ganhar dinheiro com qualquer coisa. Eu já perdi muito dinheiro por convicção, me chamaram para fazer campanha de coisas que não acredito", completa.

Foge da máxima 'todo mundo tem seu preço'. Nos primórdios do 'Porta', quando ele e seus quatro sócios estavam na pindaíba, tiveram dificuldades em recusar um contrato com uma empresa que os queria contratar para falar mal do concorrente. Foram horas de discussões, até todos chegarem à conclusão de que não poderiam ignorar suas convicções em prol do dinheiro.

"A gente pensou muito. Não foi fácil. As pessoas pensam que coerência é uma coisa fácil. Ou você coerente, ou você não tem um pingo de coerência. É mentira. Coerência é pensamento, pelo menos para mim. Quando a Friboi me chamou para fazer uma campanha, eu sofri para dizer não para aquela campanha, mas não fazia sentido [aceitar] porque eu me colocaria como exceção", finaliza.