Sucesso nos anos 90, Ingra Lyberato lança livro: 'tinha medo do sucesso'

Priscila Mengue - O Estado de S.Paulo

Aos 50 anos, a artista reconstitui a carreira e faz as pazes com um antigo amor: a escrita

Atriz fez sucesso nos anos 90 em novelas como "Ana Raio e Zé Trovão", da TV Manchete

Atriz fez sucesso nos anos 90 em novelas como "Ana Raio e Zé Trovão", da TV Manchete Foto: Reprodução/Instagram

Linda, jovem, famosa, heroína de novela, Ingra Lyberato viveu todos os sonhos que uma atriz dos anos 90 poderia almejar. Mas não foi o suficiente. Logo após viver a protagonista de A História de Ana Raio e Zé Trovão, da extinta TV Manchete, ela se mudou para Porto Alegre e abandonou a televisão durante 11 anos.

Hoje, aos 50 anos, a artista reconstitui a carreira após retornar ao Rio de Janeiro e fazer as pazes com um antigo amor que nunca teve coragem de assumir: a escrita. Há um ano, após uma breve conversa com a voluntária de uma ONG, ela teve o estalo que faltava para perceber que o medo do sucesso a afastou da televisão justamente quando estava no auge.

Ela decidiu, então, escrever sua história, que resultou na autobiografia “O Medo do Sucesso – A Vida nos Palcos, no Cinema e na Televisão”, da editora L&PM, à venda com o preço sugerido de R$ 29,90. Com lançamento em São Paulo previsto para março, o livro terá uma sessão de autógrafos na próxima quarta-feira, 18, às 19h, na Livraria Cultura de Salvador, terra natal da artista. 

Em tom confessional, o livro se dirige diretamente ao leitor em diversos momentos, como se fosse uma conversa muito íntima com um amigo. “É quase como se fosse um espelho, como se eu conversasse comigo. Fui visitando o meu passado no processo de escrita. Eu senti que não podia ter medo de falar sobre o medo”, explica a autora.

Segundo Ingra, ela sempre teve grande amigas psicólogas e, embora nunca tenha deitado em um divã, diz que escrever o livro foi como frequentar intensas sessões de terapia. “Sempre me analisei, sempre tive esse olhar para dentro de mim. Ninguém é melhor para investigar o nosso comportamento do que nós mesmos. Eu me curei escrevendo”, opina.

A atriz aponta, contudo, que, além revisar a própria vida, a obra também tem o propósito de ajudar outras pessoas. “Ele é de autoajuda nesse sentido. Eu exponho situações e problemas e, ao mesmo tempo, dou dicas para o leitor não cair nas mesmas armadilhas. Nós somos os nossos maiores inimigos, os únicos inimigos na verdade”, comenta.

Sobre o passado, Ingra explica que nunca foi tão infeliz como no momento em que mais teve sucesso. De acordo com ela, o diagnóstico dessa insatisfação foi, contudo, equivocado, por não perceber que o problema não era atuar e que uma pausa poderia ser positiva, mas não de forma tão intensa. “Quando eu sofro, eu sofro mesmo, era insuportável”, pondera.

Além de uma fuga, a mudança da atriz também foi motivada pelo envolvimento com o seu hoje ex-marido, o músico gaúcho Duca Leindecker, ex-vocalista da banda Cidadão Quem e pai do único filho da atriz, Guilherme, de 11 anos. Embora vivam em Estados diferentes, ambos não só mantêm uma boa relação como Ingra também é próxima da atual esposa do artista, a deputada estadual Manuela D’Ávila, a qual procurou em momentos como a polêmica saída da comissão de seleção representante do Brasil na categoria de longa-metragem estrangeiro do Oscar.

Sobre o episódio, ela diz ter seguido uma “voz interior” que estava insatisfeita de estar no meio de um fogo cruzado entre dois polos ideológicos. “Passei uma noite inteira sem dormir até tomar a decisão”, da qual diz não se arrepender e que relata no último capítulo do livro, escrito entre julho e setembro de 2016, e, no qual, também comenta outros momentos que misturam as vidas profissional e pessoal, como o envolvimento com o diretor Jayme Monjardim.

 

"Voltando do Nordeste depois de filmar, decidi ir na Globo conversar com Paulo Ubiratan e dizer que eu queria trabalhar. Fui recebida de portas abertas. Paulo me ouviu surpreso e chamou na sala dele o Carlos Manga, que estava começando a montar elenco para uma minissérie. Manga entrou, sentou e eu disse sem rodeios: -Quero trabalhar com você. [...] O Manga sorriu e me disse: -Tenho uma personagem perfeita para você. A minissérie se chamava 'Decadência', escrita por Dias Gomes. A personagem era Rafaela e a grande referência era Rita Hayworth em Gilda. Uma mulher rica e sedutora que acabava se matando com remédios antidepressivos. Cortaram meu cabelo e me transformaram completamente. Até meu figurino era baseado em Gilda. Fui com tudo. Um dia liguei para o Manga, pedindo que ele me dirigisse. Implorei, e ele, muito lisonjeado, atendeu meu pedido. Era meu último dia de gravação e fizemos cenas fortíssimas de depressão e brigas com meu 'marido' Raul Gazolla, até culminar no suicídio. Como na cena antes de me matar eu estava no banho, o Manga tinha me ligado no dia anterior para perguntar se eu toparia fazer nua. Com todos os cuidados, é claro. Eu fiquei impressionada com a gentileza dele: o Carlos Manga me ligando para me consultar se eu aceitava fazer a cena sem roupa foi de uma elegância incrível. Só pela consideração, já aceitei na hora. Então ele criou uma coreografia minha com a câmera onde eu passeava nua pelo quarto e sempre tinha um objeto escondendo o que não podia ser mostrado. Arrasamos juntos como num lindo pas de deux. Essa cena deu o que falar! Eu morria na metade da minissérie, mas a imprensa noticiou tanto meu trabalho, que parecia que eu ainda estava no ar. Nesse momento eu tinha tudo.[...]Mas o que foi que aconteceu? Eu segui nesse caminho tranquila e grata ao universo? Não. Comecei a inventar defeitos na minha relação. Apesar desse livro ter seu foco no sucesso profissional, preciso citar a relação pessoal porque realmente acho que isso faz parte do contexto de alguém que quer dar certo na vida. Hoje percebo que naquele momento comecei a sentir medo de ser abandonada. Havia um baile de ilusões..." Livro O MEDO DO SUCESSO Foto João Mário Nunes

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Atualmente, Ingra escreve o roteiro de duas séries para a televisão, uma ficcional e de animação e, a outra, documental e voltada ao universo das amazonas. “Sempre gostei muito de cavalos, até já tive um haras. Esse é um universo do qual me afastei e para o qual estou tentando retornar”, diz ela, que também prepara um documentário sobre o pai, o artista plástico baiano Chico Lyberato.

Nesse meio tempo, também atua em peças, especialmente no Rio Grande do Sul, e se prepara para o lançamento da série Perrengue, da MTV, na qual, pela primeira vez, interpreta uma personagem que tem a sua idade. “Eu já estou com 50 anos. Não tenho tempo a perder e não quero adiar decisões. Percebo, também, que os melhores papeis sempre são interpretados por atrizes mais velhas”, aposta.

Confira abaixo um trecho do livro:

“A novela ‘Pantanal’ estava no ar, e às vezes viajávamos para alguma locação. Então o Jayme precisou ir a uma gravação na Festa do Peão de Barretos. Como vivíamos grudados e a minha função na vida tinha se tornado ser sua companheira, fui junto, claro. Foi uma viagem incrível! Ficamos extasiados com o universo dos peões de rodeio. Como era uma gravação da novela Pantanal, existia uma enorme estrutura em torno da gente e podíamos circular à vontade. Visitamos cada caminhão que se transformava em loja de roupa e acessórios para cavaleiros e para cavalos; outros viravam baias e outros, casas ambulantes. Caravanas que percorrem esse Brasil e nós, da cidade grande, nem fazemos ideia. Encontramos Lúcia Verissimo na sua loja de roupas country que também se transformava em caminhão e conversamos com vários peões de rodeio dentro dos bretes, respirando toda a adrenalina das montarias em boi bravo e compartilhando os momentos de pedido de proteção para Nossa Senhora de Aparecida. Meu Deus, que pessoas intensas, corajosas e verdadeiras! Começava ali uma grande paixão pelo povo brasileiro. Depois de um dia inteiro de fortes emoções, nos sentamos no chão de um estande que servia de base de produção, nos olhamos nos olhos, compartilhando a preciosidade daquele dia, e um dos dois falou:

– Já pensou se existisse uma grande peoa de rodeio?

O outro respondeu:

– E um peão que fosse seu grande amor e ao mesmo tempo seu grande adversário?

Nossos olhos brilharam diante dessa ideia. Pegamos um guardanapo e começamos a escrever ‘A História de Ana Raio e Zé Trovão’.” (p.48-49)

 

 

Vai um livro aí? Ô delícia ficar nessa banca da L&PM. #omedodosucesso #meureinoporumcavalo @ivanpm @lepmeditores

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