Richard Linklater fala de beisebol, vida universitária e seu novo filme

Mekado Murphy, The New York Times - O Estado de S.Paulo

Baseado em parte na experiência do diretor no esporte universitário dos Estados Unidos, filme gira em torno do calouro Jake

Richard Linklater in New York

Richard Linklater in New York Foto: Chad Batka|The New York Times

Nos 26 anos em que vem fazendo cinema, Richard Linklater volta com frequência a território familiar. Seus filmes da trilogia Before abordam o mesmo personagem em diferentes idades, e Boyhood: Da Infância à Juventude, foi filmado por mais de 12 anos. Linklater é um curioso do passado, de como ele molda o presente. 

Sua comédia Jovens Loucos e Rebeldes enfoca um tipo de vida na escola secundária semelhante ao que ele viveu. Agora vem Everybody Wants Some!! como uma continuação dessa história, com personagens universitários em 1980. Baseado em parte na experiência de Linklater como jogador de beisebol na Sam Houston State University, o filme gira em torno de Jake (Blake Jenner), calouro de universidade e jogador de beisebol, durante o fim de semana anterior ao início das aulas. 

Linklater falou do filme numa entrevista dada em Nova York antes da estreia do filme, no dia 30 de março.

A partir da esquerda: Austin Amelio, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Tyler Hoechlin e Ryan Guzman em 'Everybody Wants Some!!'

A partir da esquerda: Austin Amelio, Tanner Kalina, Forrest Vickery, Tyler Hoechlin e Ryan Guzman em 'Everybody Wants Some!!' Foto: Van Redin|Paramount Pictures|Divulgação

P. Você disse que Everybody Wants Some!! é uma "sequência espiritual" de Jovens, Loucos e Rebeldes. Qual foi a diferença entre conceber um e outro?

R. A maior diferença é que eu tenho muito mais anos ao fazer Everybody... Estava fazendo o filme Slacker (1991), filme que antecedeu Jovens, Loucos e Rebeldes, quando pensei: o próximo filme que quero fazer é um juntando escola secundária e rock 'n' roll. Tinha dois ou três anos para planejá-lo. Everybody levou uma década entre planejamento e execução. De certa forma, é mais puro que Jovens... Mas os dois filmes são tão diferentes quanto o secundário é da universidade. A escola secundária é meio opressora. Você se sente numa prisão. Também está prisioneiro na casa dos pais. A universidade lembra liberdade absoluta. Assim, procurei mostrar como você fica quando a vida lhe pertence. 

P. Como o beisebol influiu em sua vida universitária? 

R. Tomava muito de meu tempo. Você não cresce de verdade enquanto não para com os esportes. Lembro-me de que, quando parei de jogar beisebol, estava muito atrasado.

P. Por quanto tempo você jogou na faculdade? 

R. Só até o segundo ano. Pouco antes de a temporada começar, tive um problema de arritmia cardíaca e não pude mais correr. O problema desapareceu com os anos, mas minha carreira no beisebol acabou. Foi uma boa época. Estava fazendo um curso de teatro e escrevendo peças. Precisava de tempo para ler. Pensava: "Quero ler Os Irmãos Karamazov". 

P. Qual ângulo do atletismo universitário você quis pegar?

R. O dos atletas profissionais. Eles precisam vencer para conseguir patrocínio. E isso começa na juventude. Quando entram na faculdade, já viram muito da vida. Você percebe isso nos personagens do filme, uma confiança meio arrogante. Mas baseada em quê? Na habilidade de rebater uma bola? Se você não é um atleta profissional, isso desaparece e logo é esquecido. Assim, faço uma espécie de crítica a esse comportamento de jovem macho. 

P. Nas primeiras cenas do filme, quando o protagonista está reunido com os colegas de equipe na casa em que vivem, nenhum deles é muito bonzinho. Foi essa sua experiência? 

R. Sim. Atletas são competitivos. São um bando de babacas, e você é um deles. Tem de ser, para manter o convívio. Mas a diferença do secundário é que todos agora são seus colegas de residência. As pessoas com que você vive na faculdade, os colegas de quarto, são com frequência seus amigos para o resto da vida.

P. Você ainda é amigo dos colegas de equipe da faculdade?

R. A maioria manteve inicialmente algum tipo de contato. Mas, passados poucos anos, não se ouve mais falar de ninguém; de repente você encontra um deles e é como se o tempo não tivesse passado. Muitos de meus companheiros de equipe e de residência visitaram o set de filmagem. Aí o elenco pôde ouvir histórias reais dez vezes piores que qualquer coisa no filme. 

P. Você baseou os personagens de Everybody Wants Some!! nesses caras?

R. Foi um amálgama de tudo. Eu não era o rebatedor na faculdade, mas fiz o protagonista rebatedor. Quase tudo do filme aconteceu em algum grau, mas não necessariamente comigo. 

P. Curtiu muito fazendo o filme?

R. Foi minha produção mais divertida. Jovens, Loucos e Rebeldes foi difícil, o estúdio não confiava em mim. Quer dizer, ainda desta vez não tivemos o orçamento e o prazo desejados, mas o elenco foi ótimo. Talvez eu também estivesse mais confiante e relaxado. "Pegamos o fio" logo nos ensaios. O elenco inteiro viveu junto por duas semanas. À noite, víamos filmes. 

P. Qual a seleção feita por Linklater para o elenco de Everybody...? 

R. Queria trazê-los para o clima. Lembro de ter passado um documentário sobre Dock Ellis, rebatedor do Pittsburgh Pirates. Ele era polêmico e usou até ácido, mas foi um grande nome do beisebol dos anos 1970. Eu disse a eles que, no beisebol, encontra-se isso. Exibi também comédias dessa época, como O Vencedor e O Clube dos Cafajestes./Tradução de Roberto Muniz