‘Podemos usar o humor para mudar a sociedade’, diz Nathalia Cruz do Porta dos Fundos

João Pedro Malar* - O Estado de S.Paulo

Em entrevista ao E+, Nathalia e Noemia Oliveira, protagonistas do vídeo ‘Nota de Repúdio’, falam sobre o processo de criação da esquete e como abordar o racismo com humor

Cena do vídeo 'Nota de Repúdio', protagonizado por Nathalia Cruz (esq.) e Noemia Oliveira (dir.)

Cena do vídeo 'Nota de Repúdio', protagonizado por Nathalia Cruz (esq.) e Noemia Oliveira (dir.) Foto: Porta dos Fundos / Divulgação

O assassinato de George Floyd por um policial nos Estados Unidos gerou uma onda de protestos contra o racismo em diversos locais no mundo, e intensificou o debate em torno do tema. Em meio a esse cenário o canal humorístico Porta dos Fundos lançou, no dia 8 de junho, a esquete Nota de Repúdio, que mostra as atrizes Nathalia Cruz e Noemia Oliveira tentando ser ouvidas enquanto falam sobre o racismo e como ele pode ser combatido.

O vídeo foi um grande sucesso e já é o mais visto nas contas no Instagram e Twitter do grupo em 2020, e o mais comentado no canal do Porta dos Fundos no YouTube. Até agora, somando todas as plataformas, teve mais de quatro milhões de visualizações. E é impossível pensar no sucesso da esquete sem associá-lo às duas atrizes que a protagonizam: Nathalia Cruz, que foi uma das roteiristas do vídeo, e Noemia Oliveira.

Em entrevista exclusiva para o E+, Nathalia comenta que a ideia do vídeo surgiu de um momento de angústia muito grande. Era necessário lidar não apenas com o assassinato de Floyd, mais um lembrete da existência do racismo, como também trabalhar a dúvida sobre sair as ruas para protestar e correr os riscos ligados à isso.

Nathalia precisou pensar onde estava sua luta e viu no Porta dos Fundos uma oportunidade: “Eu sabia que a minha voz poderia ser ecoada porque tenho uma caneta na mão e estou em um veículo de grande alcance e decidi aproveitar a abertura”. A partir daí, começaria o processo de construção do ‘Nota de Repúdio’.

A atriz e roteirista Nathalia Cruz já havia realizada alguns trabalhos com o Porta dos Fundos, mas integrou a equipe fixa de roteiristas em janeiro de 2020. Já Noemia entrou em fevereiro de 2019, após fazer um teste. “Às vezes o que falta pra gente [artistas negros] é isso, oportunidade. E, quando eu tive, eu agarrei, fui com sangue nos olhos”, lembra a atriz.

“Quando a Noemia foi contratada como fixa no elenco e existia essa expectativa de eu entrar, eu falei ‘fudeu, porque já tem uma preta’ mas pensei ‘gente não é pra ser assim’”, comenta Nathalia. E foi dessa reflexão que surgiu o vídeo Cota, roteirizado por ela, que mostra duas atrizes negras estranhando o fato de protagonizarem uma produção que não aborda a escravidão ou se passa em uma favela.

Nota de Repúdio também é baseado em experiências pessoais das duas em torno do racismo e mostra com muita ironia como as pessoas negras ainda não são realmente ouvidas por muitos brancos, apesar das várias tentativas. Nathalia destaca que o processo de produção foi angustiante, não apenas por tocar em um tema que mexe com ela, mas também pelo medo quanto à recepção da esquete.

“Trabalhar com ironia é complicado, porque você está criticando mas está fazendo aquilo que é criticado e a imagem que passa pode ser perigosa. Foi um processo intenso mas foi algo construído”, comenta a roteirista. Tanto Nathalia quanto Noemia destacam a importância da participação dos atores Fábio Porchat e João Vicente, que ajudaram na construção do vídeo e dando dicas não sobre o conteúdo, mas a melhor forma de transmiti-lo.

As vivências de Nathalia e Noemia com o racismo ao longo da vida foram essenciais no processo de criação, como a roteirista destaca: “Eu estava muito vulnerável e me coloquei dessa forma também e era necessário para ser verdadeiro”. “A gente sente o racismo na vida inteira. Mas agora na quarentena isso afetou a gente de uma forma muito avassaladora. E quando ela falou que a gente tinha a oportunidade de usar nosso trabalho para fazer as pessoas refletirem, eu falei ‘estou com você’”, comenta Noemia.

O vídeo tem o objetivo de lembrar as pessoas de algo que não deveria precisar ser lembrado, que é necessidade de ouvir a população negra e combater o racismo. "É importante que as pessoas brancas se envolvam na luta contra o racismo, que é um problema de todos nós, não podemos nos isentar disso. As pessoas têm que se envolver, botar a cara”, ressalta Noemia.

“Esse vídeo ficou na gente, a gente ficou vivendo o vídeo”, comenta a atriz. Noemia fez aniversário um dia depois do lançamento da esquete e considerou o vídeo um presente: “A gente tem que olhar pra cara feia dele, ver e falar ‘é isso, vamos resolver’. É uma ferida feia, tem pus, você não quer olhar de tanto que dói, mas tem que encarar isso pra resolver. Só vamos resolver se olharmos e fiquei feliz de conseguir fazer com que as pessoas olhassem para isso, com humor, de forma irônica”.

“A proposta era colocar as pessoas na página 3. O racismo não é só pegar uma arma e matar um preto. Não é só chamar alguém de macaco. Se você coloca o racismo em um lugar muito do absurdo, você ignora o que ocorre o tempo todo. As frases que as pessoas falam o tempo todo”, comenta Nathalia, lembrando do cuidado de inserir frases racistas no vídeo que são ditas no cotidiano sem que muitas pessoas percebam o significado delas.

Racismo, humor e representatividade

Se o sucesso de ‘Nota de Repúdio’ está ligado ao fato de ter sido protagonizado por duas atrizes negras, não há como não tocar na importância da representatividade, algo que a própria Noemia comenta: “O sucesso também é por conta disso. A gente vê a diferença que é ter uma roteirista preta no Porta. O alcance que a esquete teve também é principalmente porque tem uma mulher preta escrevendo”.

O humor muitas vezes acaba servindo como ambiente de reprodução de “piadas” baseadas em estereótipos e preconceitos, piadas com negros, gordos, mulheres e outras minorias. Mas as discussões sobre essas representações têm, na opinião de Nathaia, gerado algum nível de transformação.

“Eu acredito muito, e acho que a maioria também vê dessa forma, o humor como agente de transformação. Se temos o poder de transformar, colocar uma minoria que apanha de verdade apanhando na piada está levando a que? Quem você quer fazer rir?”, questiona a atriz. “Para gente que é minoria social, a gente entende que quando quem é oprimido é a piada, não tem graça. Para que fazer piada com quem sofre todo dia?”, complementa Noemia.

A evolução não significa que o problema está resolvido, algo que Noemia destaca quando lembra das discussões ainda existentes em torno de práticas como o blackface, em que uma pessoa branca pinta o rosto de preto para representar uma pessoa negra, mas, apesar dos passos para trás, ainda há um progresso.

“Sempre vai ter coisa para mudarmos na sociedade e podemos usar o humor para mudar”, destaca Nathalia. Um componente essencial nesse processo é garantir uma diversidade nos ambientes de produção dos conteúdos de mídia, algo que torna mais difícil a reprodução e disseminação de mensagens preconceituosas.

“Eu não preciso só fazer projetos sobre pessoas negras, mas preciso estar envolvida neles para evitar esse tipo de coisa”, explica Nathalia, lembrando da importância de não chamar pessoas negras apenas para falar de racismo, já que elas podem falar de muitas outras coisas. 

Ter pessoas negras no Porta dos Fundos permite não apenas que conteúdos racistas sejam evitados, mas também questionar e evitar cair nos estereótipos: “É importante dar insights: por que esse personagem não pode ser preto? Por que esse precisa ser?”.

“A importância [da representatividade] não é só para retratar o Brasil real, em que a maioria da população é preta, além disso é dizer para aquelas crianças pretas, que eu também já fui um dia, que elas podem ser humoristas, podem ser atrizes, podem ser protagonistas, podem representar outras histórias, e sem que para isso sofram racismo”, explica Noemia.

Assim, defende a atriz, a importância da representatividade não é apenas “trabalhar o produto e tirar o que não é legal”, mas sim “se fazer ser vista”: “A gente é tão abalado pelo racismo, a gente deixa de ter tantas coisas por causa disso, que a nossa voz, a gente vive trabalhando, faz toda a diferença”. 

*Estagiário sob supervisão de Charlise Morais