Padre Fábio usa vídeo de Babu para se posicionar sobre amigo que está sendo acusado de racismo

Redação - O Estado de S.Paulo

Religioso compartilhou conversa do participante do 'BBB 20' para falar sobre os comentários racistas do ex-diretor de TV Rodrigo Branco contra Maju Coutinho e Thelma Assis

Babu Santana, Rodrigo Branco, Padre Fábio de Melo

Babu Santana, Rodrigo Branco, Padre Fábio de Melo Foto: Victor Pollak/ Globo| Instagram / @brancorodrigo | Iara Morselli / Estadão |

O padre Fábio de Melo usou seu Instagram nesta quarta-feira, 1, para refletir sobre a fala de Babu Santana, no Big Brother Brasil (BBB 20), em relação ao uso da palavra negro. Durante uma conversa com os membros da casa, o ator usou uma das possíveis origens etimológicas do termo para explicar porque não gosta de usá-lo. 

"Negro vem de 'nigrum' [tenebroso e mau agouro, no latim clássico]. Se você pega 'negro' no dicionário português, é o que não remete luz, funesto, sinistro. Para mim o certo é preto, como os americanos falam. Em lugar nenhum no mundo, preto aceita ser chamado de negro, só aqui no Brasil, porque a gente já condicionou essa palavra ao homem de pele preta. Mas temos que ir atrás para entender qual foi é o significado dela", alerta.

"Quando o preto era escravizado, chamavam de negro,  'inimigo'. Ninguém na África aceita ser chamado de negro. Para religiões de matrizes africanas, palavra é poder. Se você [usa 'negro'], você perpetua essa maldição", completou.

Diante da explicação, o padre Fábio de Melo decidiu se pronunciar. "Em poucos minutos, [Babu] nos recordou que precisamos ressignificar o que dizemos. A mim sempre incomodou o simbólico negativo que atribuímos ao conceito de negro", disse. 

O religioso aproveitou ainda o discurso para falar sobre o amigo Rodrigo Branco, empresário e ex-diretor da Band que recentemente chamou a BBB e médica Thelma Assis de 'negra coitada' e disse que Maju Coutinho só cresceu no jornalismo por causa da cor.  

"A sua fala me estarreceu. Eu não costumo colocar meu senso de justiça no bolso para defender os que amo. Quando tive um familiar preso por roubo, eu assumi a defesa de quem foi roubado. Rodrigo é um irmão que a vida me deu. Mas não assumo sua defesa. Não compactuo com o que ele disse", declarou. "Babu nos alerta para o racismo da linguagem. Ele tem razão. Precisamos de uma profunda mudança de mentalidade."

Fábio de Melo destacou também que Thelma e Maju são "duas mulheres grandiosas" e que elas não cresceram na vida por serem “pretas”, mas, sim, pela competência que possuem. "São porque são. Mas não podemos negar que o caminho para elas foi muito mais difícil do que para os que nascem sob o 'vergonhoso e infame privilégio da cor'", ponderou, ressaltando o talento de grandes jornalistas negros, como Zileide Silva, Glória Maria e Heraldo Pereira. 

Assista à declaração de Babu e leia na íntegra a declaração do padre Fábio de Melo:

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Não acompanho o jogo. Sei pouco sobre os candidatos. Não tô aqui fazendo torcida pra ninguém. Quero apenas, com muita humildade, oferecer meu lugar de fala ao Babú. Em poucos minutos ele nos recordou que precisamos ressignificar o que dizemos. A mim sempre incomodou o simbólico negativo que atribuímos ao conceito de negro. Mas eu quero e preciso evoluir. O que digo influencia o que penso. É neste ciclo que preciso interferir. Há 7 anos eu escrevi um livro intitulado: “o discípulo da madrugada”, a história de um homem que só se encontrava com Jesus sob a proteção das sombras. Foi uma forma de ressignificar a noite. Lá eu disse: “sim, o escuro também me ilumina.” Sei que muitos estão sabendo do episódio de racismo que envolveu meu amigo Rodrigo Branco. Nesta semana, ele proferiu agressões verbais à Thelma, do BBB, e à apresentadora Maju Coutinho. A sua fala me estarreceu. Eu não costumo colocar meu senso de justiça no bolso para defender os que amo. Quando tive um familiar preso por roubo, eu assumi a defesa de quem foi roubado. Rodrigo é um irmão que a vida me deu. Mas não assumo sua defesa. Não compactuo com o que ele disse. Mas não o abandono, pois sei que ele jamais me abandonaria. Hoje, quando assisti a esse vídeo, vi uma oportunidade de tocar no fato, uma vez que tantos sabem de minha proximidade com ele. Babu nos alerta para o racismo da linguagem. Ele tem razão. Precisamos de uma profunda mudança de mentalidade. Thelma e Maju são duas mulheres grandiosas, mas não o são porque são “pretas”. São porque são. Mas não podemos negar que o caminho para elas foi muito mais difícil do que para os que nascem sob o “vergonhoso e infame privilégio da cor.” A exemplo de Zileide Silva, Glória Maria, Heraldo Pereira e tantos outros, elas nos recordam que seus espaços não lhes foram concedidos por piedade ou correção histórica, mas sim por competência, esforço e capacidade. Eu estou muito triste com o acontecido. E queria que tudo isso nos ensinasse. Pode ser que você também tenha algo a ser corrigido na mentalidade e suas expressões. Apresse-nos. Para que ataques como o do Rodrigo não se repitam. Para que a luz dos pretos nos livre da cegueira de nossa claridade.

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