Os riscos dos hormônios

Anna Paula Buchalla - O Estado de S.Paulo

Reposição hormonal não é para qualquer um e não se faz como receita de bolo

A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer, escreveu Arnaldo Antunes. Moderno também é o medo – que em muitos casos se traduz em pavor – de enfrentar o envelhecimento. Talvez seja esta, em toda a história da humanidade, a geração que mais luta contra os efeitos do tempo, numa simbiose mais que perfeita entre o que queremos e o que a medicina e a tecnologia têm a nos oferecer. De potes com a promessa de (literalmente!) esticar a juventude a pílulas e injeções que vendem vida mais longa, há um arsenal farto à disposição de quem quer se sentir melhor e está disposto a pagar por isso. A indústria antienvelhecimento espera movimentar quase 300 bilhões de dólares no mundo até 2015. Não há nada de errado em querer envelhecer bem: ainda mais se o que nos move não é a ditadura da beleza, mas a vontade de manter viva por mais tempo a disposição para trabalhar, para praticar esportes, para ser social e sexualmente ativo. O problema está em tratar o envelhecimento como uma doença a ser combatida. Não é.

O problema está em tratar o envelhecimento como uma doença a ser combatida

O problema está em tratar o envelhecimento como uma doença a ser combatida Foto: Héctor García/ Creative Commons

Foi na esteira da demanda altíssima por uma vida mais longa e saudável que surgiu – para o bem e para o mal – a medicina antienvelhecimento. Nenhum problema com a especialidade em si, mas o fato é que há, entre os seus adeptos, aqueles que costumam prescrever doses e combinações hormonais com a promessa de revigorar e devolver a juventude perdida. Os que defendem os hormônios sintéticos para deter a ação do tempo partem da premissa de que os hormônios em geral seriam a chave capaz de desligar o processo de envelhecimento do corpo. Enquanto endocrinologistas e geriatras da corrente tradicional focam nos sintomas provocados pela queda hormonal natural, muitos fazem promessas que nem sempre podem cumprir. O paciente entra na sala de consulta com as queixas legítimas da idade e sai com a ilusão de um corpo mais magro, uma pele mais jovem e um sexo melhor.

“Não existe até agora nenhuma comprovação científica de que a reposição hormonal possa devolver a juventude perdida ou aumentar a longevidade”, explica o endocrinologista Bruno Halpern, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e coordenador do centro de controle da obesidade do Hospital 9 de Julho. “Há evidências recentes, inclusive, de que a queda na produção hormonal é uma defesa natural do próprio organismo e, mal indicada, a reposição de certos hormônios pode fazer mais mal do que bem”, afirma.

GH, o hormônio do crescimento, DHEA, melatonina, estrógeno, progesterona, testosterona... Até aqui, nada de errado. “Mulheres que sofrem ondas de calor, insônia, desconfortos, secura vaginal e perda de libido, beneficiam-se, e não é pouco, da reposição de estrógeno e progesterona”, diz Bruno Halpern. Mesmo ponderando os riscos que a reposição hormonal oferece ao coração (estudos associaram a TRH ao aumento do risco de infartos, derrame e câncer de mama), em muitos casos ela é mais do que indicada. Homens com níveis baixíssimos de testosterona podem também tirar o melhor da dosagem extra.

Mas não é dando uma dose hormonal de uma mulher de 20 anos a uma senhora de 60, que ela voltará a ter o vigor da juventude. O mesmo vale para os homens. Injeções de GH, a estrela dos hormônios, podem custar caro ao bolso e à saúde. Estudos mostram que o uso excessivo de GH pode predispor a doenças cardíacas, diabetes e câncer. Os médicos tradicionais também torcem o nariz para o uso indiscriminado e sem controle do DHEA (precursor de outros hormônios como a testosterona, que promete sensação de bem estar ao devolver a energia e ainda reduzir gordura) e da melatonina, o hormônio do sono, abundante aos 20 e raro aos 40, que poderia retardar o processo de envelhecimento. “A indicação deles deve ser restrita a quem tem baixa dosagem e se queixa dos efeitos físicos dessa redução”, explica Halpern.

Ou seja, reposição hormonal para viver mais e melhor não se faz como receita de bolo. A única receita comprovadamente eficaz é aquela que você já sabe de cor e salteado: coma frutas e verduras, pratique exercícios físicos, drible o stress e divirta-se. Mas, acima de tudo, faça do tempo seu aliado, jamais seu inimigo. Como dizia Millôr Fernandes, “qualquer idiota consegue ser jovem. É preciso muito talento pra envelhecer”.