Jesse Eisenberg, ou Lex Luthor, coloca seus poderes a serviço de sua peça, 'The Revisionist'

Jessica Gelt - Los Angeles Times

O ator conta sobre os desafios, as diferenças e os dilemas de roteirizar, dirigir e atuar

Quando Jesse Eisenberg, aos 16 anos, recebeu uma carta dizendo para parar e desistir do advogado de Woody Allen, soube que tinha um futuro como escritor.

O adolescente precoce havia escrito um roteiro sobre Allen quando fazia um curso de artes cênicas no colégio em Nova York. Seus amigos acharam o roteiro divertido, então ele decidiu distribuir para outras pessoas, incluindo um agente, um empresário e depois o advogado de Woody Allen, que não achou nada divertido.

"Foi interessante me corresponder com Woody Allen", lembrou Eisenberg, hoje com 32 anos, sentado em um trailer nos estúdios da Warner Bros, depois de um longo dia de trabalho em seu novo filme, "Batman versus Super-homem", no qual interpreta o supervilão Lex Luthor. "Mas foi na forma de uma ameaça de ação judicial, de modo que guardei o roteiro e comecei a escrever outras peças, porque passei a ter confiança na minha capacidade depois disto.

Aos 20 anos ele apresentou uma das peças para o amigo e mentor Bob Odenkirk, que lhe disse que estava perdendo tempo escrevendo comédias estúpidas para Hollywood. "Você é uma pessoa sensível, escreva algo pessoal", disse Odenkiri. E então Eisenberg escreveu uma peça chamada "The Revisionist", sobre um jovem escritor arrogante, mas extremamente inseguro, que tenta vencer seu bloqueio para escrever vivendo com uma prima judia mais velha na Polônia.

A estreia da peça está prevista para terça-feira, no Wallis Annenberg Center for Performing Arts, em Beverly Hills. Fazem parte do elenco a inimitável atriz Deanna Dunagan, vencedora de um Tony, e o jovem ator Seamus Mulcahy no papel de David, o jovem escritor. Eisenberg interpretou David quando a peça estreou em 2013 no Cherry Lane Theatre, em Nova York; Vanessa Redgrave fez o papel da prima, Maria, uma sobrevivente do holocausto com muitas revelações perturbadoras muito bem ocultas em seu armário.

"São minhas duas atrizes prediletas", disse Eisenberg. "Este processo me deu, como escritor, a oportunidade de observar atores que são muito melhores do que eu quando incorporam um papel e vivem intima e plenamente um personagem de tal maneira que eu, como ator, ainda tenho de aprender."

 

  Foto: Victoria Will|AP

Além de contribuir para a coluna de humor "Shouts & Murmurs" da New Yorker, ele escreveu mais duas peças off-Broadway: "Asuncion", que estreou em 2011, e "The Spoils", lançada em 2015, que será encenada em Londres a partir de primeiro de maio. Eisenberg atuou em todas as três peças, não porque queria, mas porque sentiu-se compelido a isto.

"Acho que meu pavor e medo no palco é maior do que o medo de que a peça não seja encenada corretamente", afirmou, explicando que não importa a que nível vai sua atuação no palco, o fato é que não consegue abolir a sensação de que alguma coisa terrivelmente errada vai ocorrer.

The Reviosinist. Por mais que pareça que Eisenberg é um pouco obsessivo com relação às suas peças, Robin Larsen, diretora de "The Revisionist", diz que não é nada disso. Ela o chamou inúmeras vezes para pedir conselhos, que ele dá com prazer, mas sempre afirmando que tem certeza de que a solução que ela adotar será ótima.

"Como escritor e ator, ele escreveu uma peça centralizada nos personagens e que, na minha opinião, os atores respondem muito bem e brilham", disse a diretora. "Acho que Deanna Dunagan e Seamus Mulcahy queriam fazer a peça. Incorporaram plenamente os personagens que, para eles, tinham um sentido emocional e visceral."

Eisenberg escreve sobre o que conhece e o que ele conhece se baseia numa compreensão de si mesmo que beira à neurose. Os personagens que acaba criando são narcisistas, choramingas, difíceis de gostar, mas notáveis.

"Quando escrevo uma peça, tento encontrar uma parte de mim que considero absurda e luto para lidar ou ser crítico com ela. Então incorporo essa característica no personagem porque, como estou escrevendo sobre esse personagem - escrevendo sobre mim mesmo -, no final acabarei tentando defendê-lo."

O que cria uma dicotomia: a crítica à pessoa e ao mesmo sua proteção, o que em consequência produz personagens mais interessantes, na opinião dele.

Eisenberg tentou pela primeira vez esta técnica quando escreveu "The Revisionist", baseado na sua própria experiência quando permaneceu em uma cidade polonesa com sua prima Maria, que presenciou membros da família serem mortos no holocausto. À época, Eisenberg estava filmando "The Hunting Party" na Croácia e estava frustrado com seu papel como uma figura de auxiliar, dócil".

"Naturalmente, durante o tempo que passei com esta mulher, percebi que seu sofrimento quase humoristicamente se sobrepunha à minha vida na prática, especialmente porque estava vivendo todo aquele trauma e agitação interiores. Na época fazia um curso de antropologia na faculdade e estudava como infantilizamos outras culturas como poderosos americanos. Achei que seria um excelente tema para a peça."

 

Em "The Revisionist", David é desconfortavelmente condescendente com Maria. Por isto Eisenberg teme ter tratado sua prima Maria simplesmente porque se sentia frustrado por "estar interpretando um personagem que achava um pouco submisso".

Eisenberg também ficou empolgado ao saber, pela diretora Larsen, que a peça será encenada com o público sentado em ambos os lado do palco. Para ele é algo reconfortante e revelador observar a reação do público. Segundo a diretora, no centro Wallis, a peça será encenada no menor dos dois teatros, o que significa que o público não ficará mais do que quatro metros distante do palco.

O único inconveniente de não estar no palco desta vez é que ele não vai poder se responsabilizar se algo der errado, disse Eisenberg.

 

Tradução de Terezinha Martino