Festa de debutante com alusão a período escravagista gera revolta

Redação - O Estado de S.Paulo

Imagens de garota usando roupas típicas cercada por criados negros causou indignação; organização nega relação com o tema

Imagem ilustrativa.

Imagem ilustrativa. Foto: Pixabay / @miltonhuallpa95

O tema de uma festa de debutante está causando revolta na internet após fotos publicadas pela empresa responsável pela cerimônia terem viralizado nas redes sociais. 

Nas imagens, uma garota aparece em um ambiente que parece remeter ao Brasil colonial, vestida com roupas finas e usando uma tiara, à frente de uma mesa repleta de comida, e cercada por pessoas negras posicionadas como se fossem seus criados. Diversos internautas estão acusando os organizadores de racismo.

Confira abaixo:

"Que triste! Essa criatura não teve ninguém para falar pra ela que era uma péssima escolha?", comentou uma usuária do Facebook. "Em pleno século 21 e as pessoas fazem isto! Escravidão virando tema de festa", publicou um usuário do Twitter.

O perfil que veiculou inicialmente as imagens no Instagram, da empresa Cerimonial Lorena Machado, está com as configurações de privacidade fechadas.

O E+ entrou em contato com Hugo Mercês, advogado que está cuidando do caso para a empresa Cerimonial Lorena Machado e também a empresa Baleiros Badalados. Em nota de esclarecimento, ressalta que "em momento algum a produção do evento enalteceu o período escravocrata, no qual milhares de homens e mulheres foram escravizados". "O tema do evento é Imperial Garden, em alusão ao período Imperial, diferentemente do veiculado nas redes sociais."

A nota ainda ressalta que as empresas envolvidas lamentam o "caráter discriminatório" que o ensaio fotográfico tomou nas redes sociais, e que "assumem o compromisso de reavaliarem seus processos internos de produção".

"Na oportunidade, e reconhecendo o erro, as envolvidas pedem sinceras desculpas pelo ocorrido e comprometem-se a abrir o diálogo com as instituições públicas e grupos ligados ao combate à discriminação racial e proteção de direitos do povo negro".

Uma nota de esclarecimento chegou a ser publicada no perfil do Facebook da própria Lorena Machado, ressaltando que as fotos foram tiradas na última quarta-feira, 14 de março, em "um ensaio fotográfico de um aniversário de 15 anos, cujo tema é Imperial Garden."

"Presenciamos a veiculação dessas imagens como uma reprodução do período escravocrata e forma de racismo. Diante dos ocorridos, com total humildade, estamos vindo a público nos retratar e pedir perdão. Jamais foi nossa intenção fazer qualquer retratação que levasse a entender que a escravidão foi algo bom em nossa história. Tínhamos a única intenção de retratar o período histórico do império que, infelizmente, tinha escravidão", continuou.

"Graças a outros olhares, percebemos que fomos infelizes nessa reprodução. Erramos, sim! E admitimos nosso erro. Como todo ser humano, estamos passíveis de erros e acertos. Desta vez erramos, e feio! Pedimos perdão a todos os negros, negras, descendentes, pardos e pardas e a qualquer pessoa que tenha se sentido atingida por nossa publicação. Não foi nossa intenção agredi-los ou ofendê-los, mas admitimos que fizemos. E viemos humildemente pedir o perdão de vocês".

Ao término, o cerimonial ainda se coloca como "aberto a críticas e elogios, pois eles que nos fazem crescer e amadurecer como seres humanos e profissionais."

A publicação, porém, foi deletada posteriormente. A página Cerimonial Lorena Machado, no Facebook, que contava com quase 5 mil curtidas, também foi tirada do ar.

Confira a seguir algumas postagens de internautas revoltados com a situação:

 

Confira a íntegra da nota enviada pelo advogado da empresa:

"O recorte de uma produção fotográfica para uma festa de debutante foi divulgado nas redes sociais. Segundo noticiado, seria uma festa com o tema escravidão. 

A Assessoria Jurídica das empresas envolvidas informa que em momento algum a produção do evento enalteceu o período escravocrata, no qual milhares de homens de mulheres foram escravizados. 

O Brasil carrega a responsabilidade histórica de ter sido o último país do mundo a abolir a escravidão, gerando desigualdades e violências que perduram até os dias de hoje. 

O tema do evento é Imperial Garden, em alusão ao período Imperial, diferentemente do veiculado nas redes sociais. 

As empresas envolvidas com o evento lamentam que o recorte do ensaio fotográfico publicado nas redes sociais tenha assumido um caráter discriminatório. 

Por conta disto, assumem o compromisso público de reavaliarem seus processos internos de produção. Na oportunidade, e reconhecendo o erro, as envolvidas pedem sinceras desculpas pelo ocorrido e comprometem-se a abrir o diálogo com as instituições públicas e grupos ligados ao combate à discriminação racial e proteção de direitos do povo negro. 

Respeitosamente, 

HUGO LEONARDO PÁDUA MERCÊS 

OAB/PA 017.835 

LUCIANA CARDOSO AGUIAR 

OAB/PA 025.237" 

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