É antiético querer viver mais?

Gabriela Carelli - O Estado de S.Paulo

Vivemos num mundo miserável, mas o argumento de que o empenho científico para erradicar a fome e outros problemas que nos cercam é mais louvável do que os esforços para estender a vida humana é de um simplismo atroz

Longevidade é de extrema importância, sim. O problema é a falta de entendimento sobre o assunto

Longevidade é de extrema importância, sim. O problema é a falta de entendimento sobre o assunto Foto: Morguefile

Críticas - impossível viver sem elas. Até as destrutivas são indispensáveis. Fazem a gente repensar atitudes e convicções. Outro dia deparei-me com duas - daquelas tipo Napalm, inesperadas e bombásticas. Ambas depreciavam o empenho de cientistas em descobrir quais dietas acrescentariam anos saudáveis à expectativa de vida, tema de vários artigos neste canal. 

“Há problemas mais sérios, como a fome, o câncer e o aquecimento global. Parem com essa bobagem de longevidade. E tem mais: todo mundo vai ficar demente e morrer, é inevitável.”

Uma busca rápida no Google dá suporte à essa percepção de que desejar um tempinho a mais na Terra é mesmo fútil, supérfluo e moralmente reprovável: há 805 milhões de famintos no planeta; por ano, 8 milhões de pessoas morrem de câncer e outras 13 milhões são diagnosticadas com a doença; seremos varridos do mapa por furacões furiosos, pestes e inundações bíblicas por causa do efeito estufa.

A reação imediata a tais argumentos, quase involuntária, como um ato reflexo, é:“sim, sem dúvida! Esqueçam esse papo de vida longa, exercícios e azeite de oliva e vamos fazer algo de útil para a humanidade - já”.  Sim, infelizmente vivemos num mundo miserável, onde uns se fartam enquanto outros reviram lixos atrás de comida, cheio de doentes e suscetível a catástrofes. Com exceção dos psicopatas e dos doidos de pedra, ninguém consegue ficar indiferente a isso. 

Mas, passado o choque de realidade inicial, o discurso sobre o que é “mais ou menos louvável” ou “mais ou menos merecedor” de empenho científico não se sustenta. Basta meio minuto de reflexão para perceber que a proposição  - “é mais ético um cientista se dedicar um assunto X em detrimento de Y”  - é de um simplismo atroz. Teoria da Evolução, eletricidade, molécula de DNA, chip, viagem à Lua e outros feitos que transformaram o mundo também foram considerados menos importantes em sua época. O dinheiro investido aí poderia ter alimentado muita gente, com certeza. Mas imagine a vida sem eles…

Isso sem falar do perigo embutido (a história está aí para provar) em verdades reducionistas, fundamentadas em bom, mal, melhor pior.

Longevidade é de extrema importância, sim. O problema é a falta de entendimento sobre o assunto, em diversos aspectos:

  • Nenhum médico ou cientista sério quer encontrar a fonte da juventude dos contos de fada, que fazem as bruxas decrépitas voltarem a ser jovens e radiantes e viver eternamente. No mundo real, aumentar a expectativa de vida (por meio de dietas, hábitos, medicamentos) é consequência de manter as pessoas saudáveis por mais tempo. E vice-versa. 
  • Todos os avanços científicos do século passado se deram no sentido de melhorar a nossa existência e postergar a morte: melhorias sanitárias, vacinas, antibióticos, drogas para diabetes, câncer, cardiopatias, etc. Por causa disso, as doenças descritas acima e muitas outras, aparecem entre 15 e 25 anos mais tarde do que nas gerações passadas. E por essa razão, não morremos aos 40 e poucos, como no início do século, mas aos 70, 80 anos.
  • Quem acha que estamos querendo brincar de Deus ou inverter a ordem natural das coisas ao tentar postergar a morte com proezas científicas desconhece a história da evolução da própria espécie. Desde que tem consciência de sua finitude - acredita-se que isso tenha acontecido há 100 mil anos, quando os Neandertais começaram a enterrar seus mortos - o ser humano se organiza e enfrenta a ordem natural das coisas e a seleção natural, aumentando a própria expectativa de vida.

Se você ainda acredita que o correto é deixar de gastar rios de dinheiro com pesquisas sobre longevidade, sinto dizer: por tudo o que já fizeram contra a sua vontade, você vai viver mais, sim, quer queira quer não. 

A expectativa de vida continua a aumentar no mundo inteiro. A cada dia vivido você ganha mais 6 horas de vida, sem ter de fazer nada por isso. Em seis meses, tem mais cinco semanas de bônus para gastar do jeito que quiser e, depois de 10 anos, quase três anos “grátis”. Isso se estende para seus pais, seus avós, seus filhos, amigos… Você quer vê-los sofrer mais com doenças do que o necessário? E quando chegar sua vez? Vai querer? Pois é, longevidade não é só Botox, pílula de juventude e ilusão da vida eterna  - é se preocupar em proporcionar a melhor vida possível para quem já está aqui.